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sexta-feira, 20 de julho de 2012

Letra C é letra de Clássicos

por David N.


Falando de clássicos, esta semana a minha sugestão vai para Seven Samurai (1954) de Akira Kurosawa, considerada “a” obra-prima japonesa, e que finalmente vi esta semana, após vários meses a adiá-lo devido à duração (3h30). O enredo centra-se nos habitantes de uma vila japonesa que decide contratar sete samurais para a defender de bandidos que ameaçam pilhá-la para roubar as colheitas. Os samurais ensinam os habitantes a defenderem-se, todos ajudam a fortificar a vila e mais perto do fim do filme, trava-se a batalha decisiva. Todo o filme é bastante poderoso visualmente, em termos fotográficos é apelativo e é bastante sentimental. É impossível não sentir compaixão por aqueles japoneses, que mal têm arroz para comer, esse grãozinho que alimenta o mundo, e que lutam duramente para preservar o fruto do seu trabalho. Altamente recomendável para quem quer expandir os horizontes para além do mundo de Hollywood.


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Com a letra ‘C’, esta semana tenho vários. Parece que é uma letra destinada a clássicos. De forma principal, temos os clássicos Casablanca (1942) e Citizen Kane (1941) que também pertencem ao meu top 5 tal como o Ben-Hur da semana passada. Temos muito a dizer sobre estas duas obras. Casablanca é o eterno filme noir, que imortaliza Humphrey Bogart e Ingrid Bergman e que nos brinda com uma das melhores e mais famosas histórias de amor, e que mostra nem sempre o casal apaixonado tem de acabar junto para se ter um belo final. “We'll Always Have Paris” será sempre uma das frases mais mágicas do cinema. A não perder. No que respeita ao Citizen Kane, conta a história de um homem que mesmo parecendo ter tudo, isso não lhe trará obrigatoriamente felicidade. E sem fazer spoiler, mais não posso revelar, pois tem um grande fim. A par do Casablanca, é considerado por muitos como o melhor filme de sempre. Está em primeiro lugar no Top 100 filmes do American Film Institute (AFI). E é também um dos primeiros filmes a fazer uso de planos de filmagem e enquadramentos cinematográficos diferentes dos tradicionais, fazendo do realizador Orson Welles um dos mais famosos do seu tempo.

Como runners-up recomendo o mágico Cinema Paradiso (1988) para qualquer fã de cinema, pela simplicidade e nostalgia que a personagem principal evoca ao lembrar os tempos de infância, com o seu amigo Alfredo no cinema da cidade. Enquanto ele era uma criança espreitava os filmes por entre as cortinas e via o Alfredo a passar os filmes na cabine e tudo aquilo o fascinava. Após a morte de Alfredo, todas essas lembranças o percorrem, trazendo a magia do cinema ao grande ecrã, para que nós a possamos sentir também.

Apresento também Casino (1995) que para mim, chega a ser melhor que o clássico e muito aclamado Goodfellas (1990), ambos os filmes cheios de mafiosos, dinheiro, corrupção, violência, com Robert De Niro e Joe Pesci no elenco e do mesmo realizador, Martin Scorsese. Em Casino, De Niro é um apostador que é contratado pela máfia de Chicago para controlar um casino em Las Vegas, o Tangiers. Como curiosidade, na altura o filme tinha o recorde do uso do termo “fuck”, sendo dito 422 vezes, o que dá uma média de 2.4 vezes por minuto. É claramente uma palavra popular entre gangsters.

Numa nota mais inconformada, gostava de referir Cool Hand Luke (1967), um filme bastante interessante que conta a história de um homem que se recusa à vida “tradicional” numa prisão, com uma óptima interpretação de Paul Newman, e que eu sempre recordo como o filme onde um tipo come 50 ovos cozidos numa hora. Impressionante! E depois tem também a mítica frase “What we've got here is a failure to communicate”. Admito que só descobri este filme através de uma referência noutro filme. Em Serendipity (2001), uma das minhas comédias favoritas, a personagem principal lista o Cool Hand Luke como sendo o seu filme favorito e após acabar a comédia, decidi ver este. Engraçada esta sequência de filmes, passando de uma comédia para um filme num tom mais dramático que nunca tinha antes ouvido falar, só porque uma personagem de um filme vê um poster à entrada de um cinema e decide comentá-lo com a amiga.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Versatilidade

por Isabel Chalupa

No meu último artigo, sobre a esplêndida Meryl Streep, estendi-me sobre a sua notável versatilidade no grande ecrã. De facto,  a actriz americana sempre foi louvada pela capacidade de interpretar uma imensa diversidade de papéis. E é isso mesmo que separa os bons e muito bons actores dos grandes e das lendas. Meryl Streep é já uma lenda. Outros aspiram a tal. Poucos conseguirão lá chegar.

Manter um nível alto numa grande variedade de papéis é complicado. Não se afigura simples para todos os actores alternar entre personagens com diferentes personalidades. Porque sim, as personagens que eles encaram são pessoas e têm personalidades, e os artistas que as vestem têm de ser elas. Por isso mesmo é tão árdua a tarefa de vestir tantas peles distintas, modificar a nossa personalidade, ser alguém diferente de nós mesmos. Não podemos pensar, sentir ou agir conforme nós próprios, mas sim de acordo com alguém que nem sequer existe.

Examinemos os desempenhos de quatro actrizes para fazer a contraposição.

Kate Winslet é um dos casos mais evidentes de falta de versatilidade: se formos analisar cuidadosamente todos os papéis dela, são mulheres “coitadinhas”, muitas vezes choronas, que no fim revelam impressionante força interior. Vejamos: em Titanic, a sua Rose era uma “donzela em perigo”; o seu papel em O Amor Não Tira Férias não varia muito; volta ao barco afundado em Revolutionary Road, um papel em tudo semelhante ao primeiro e – surpresa das surpresas – com Leonardo DiCaprio; tempo para Carnage: se observarmos bem, muito parecido a todos os que já fez; e, claro, um dos mais recentes: Contágio, em que, mais uma vez, não foge aos traços gerais de todas as suas personagens. Não me interpretem mal: Winslet é muito boa actriz – mas falta-lhe algo para ser grande. Esse “algo” é a versatilidade.

Outro exemplo crónico é o de Anne Hathaway. É difícil definir um protótipo para as suas personagens, mas o facto é que têm sempre a mesma personalidade; aqui, o problema já não é tanto o esboço ser o mesmo, mas a actriz tornar todas as suas peles numa só. Diário da Princesa, Becoming Jane, Ella Encantada, Havoc, Brokeback Mountain, Valentine’s Day, Love And Other Drugs, O Casamento de Rachel, Alice In Wonderland, O Diabo Veste Prada... São sempre a mesma pessoa, precisamente a mesma personalidade, o mesmo sorriso, os mesmos trejeitos, os mesmos humores, a mesma maneira de ser... No fundo, são sempre a actriz, que é natural frente à câmara, mas é incapaz de se tornar noutra pessoa qualquer. E atenção, Hathaway é das minhas actrizes favoritas e espero muito sinceramente que se “liberte” dela mesma no seu novo filme, O Cavaleiro das Trevas Renasce, em que terá, obrigatoriamente, de ser completamente diferente do que tem vindo a ser até aqui: Selina Kyle não é Anne Hathaway...


Amy Adams foi por diversas vezes apontada como incapaz de dar diferentes personalidades aos seus papéis. Contudo, quem assim falou não deve ter visto sequer metade da sua filmografia. Ora vejamos: em Uma História de Encantar, A Vida Num Só Dia e Dúvida, a actriz americana apresentou-nos, realmente, personagens com bastantes parecenças. Todavia, mesmo esses tinham ligeiras nuances que nos impedem de catalogar como iguais entre si. A Princesa Giselle é puramente espampanante e inocente, enquanto que Delysia Lafosse (ou Sarah Grubb) apresenta-se falsamente espalhafatosa, toda essa faceta é uma máscara da sua insegurança e medos; já a Irmã James significa a pureza dentro de todos nós que o mundo exterior procura corromper, uma inocência que disfarça revolta interior por suspeita de um acto tão vil e ignóbil. Não obstante, para aqueles que não estavam convencidos, Adams investiu com Sunshine Cleaning, Julie e Julia, Leap Year e principalmente The Fighter. No primeiro, uma mulher forte, cheia de problemas, e uma relação difícil com o mundo em geral; no segundo, Julie Powell procura reconstruir a sua vida recorrendo à culinária, num papel mais “normal” para a actriz; no conto irlandês, embora o filme em si seja fraco, Anna é algo fútil, muito mandona, orgulhosa, forte e bastante insuportável, destacando-se de todos os papéis até aí desempenhados. Mas foi com The Fighter que Adams mudou o rumo da sua carreira: namorada de um boxeur, vinda dos bairros problemáticos e com um manancial de palavrões notável, Charlene é um retrato apagado e desgrenhado das jovens que nascem nos meios mais desfavorecidos e que aspiram a algo mais sem, contudo, conseguirem atingi-lo. Um desempenho fenomenal – porventura o seu melhor até então – em que Amy Adams provou de que fibra é feita. E vêm aí The Master e Man of Steel...


Por fim, a poderosa Michelle Pfeiffer. Já todos sabemos que o seu maior forte são as mulheres sedutoras, mas a actriz americana também investe (e bem) noutros papéis. Batman Regressa (o meu filme preferido dela, Pfeiffer faz o filme com a sua Catwoman), Os Fabulosos Irmãos Baker, Grease 2, Scarface e Stardust inserem-se no primeiro exemplo, mas Ladyhawke, A Idade da Inocência (de partir o coração), A Magia de Gillian, Married To The Mob, Dangerous Liaisons (performance fenomenal), Mentes Perigosas e I Am Sam provam a versatilidade tremenda da talentosa artista. Claro que há outros exemplos de ambos, mas o que quis provar com isto é quão importante foi a versatilidade na carreira de Michelle Pfeiffer.



Poderia também falar de Emily Blunt e Julianne Moore (versatilidade) ou até Diane Keaton (um pouco falta dela), mas penso que deixei claro aquilo que pretendia transmitir. Como já disse anteriormente, Meryl Streep é o exemplo máximo de versatilidade e da sua importância. É isso que distingue os bons dos muito bons, os grandes dos lendários: sermos capazes de nos desprendermos de nós mesmos e abraçarmos alguém completamente diferente.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Box office nacional atinge mínimos históricos

por David N.

E como nas últimas semanas não fui ao cinema e não estreou nada impressionante ou muito aguardado, irei comentar este a fraca afluência ao cinema. É que apesar de haver quem impute as culpas a factores como os exames, os santos populares, o Europeu e a crise, as últimas semanas também têm sido muito fracas em termos de estreias. E por baixo destas máscaras de justificações, a verdade é que não só este mês, mas já há bastante tempo que as salas estão às moscas. A meu ver, uma diminuição ligeira dos preços, poderia trazer mais clientela e apesar do preço mais baixo, o encaixe financeiro poderia ser maior. E com certeza que não é por falta de interesse pela sétima arte, porque nós bem vemos nas ante-estreias as salas todas cheias.

Outra medida que acho que seria interessante implementar era voltar a instaurar um escalão de preços para os filmes, como houve há umas boas décadas atrás. Por exemplo, filmes mais caros a 5-6€ e os mais baratos entre os 3-4€, porque creio que não faz sentido que todos os filmes custem o mesmo para o espectador, quando claramente não custaram o mesmo aos produtores. É que as comédias tendem a ser baratas: (em muitos casos) é só juntar dez actores cliché com um argumento banal, meter na trituradora e esperar que saia algo engraçado, com as devidas desculpas a todas as boas comédias. Em comparação, temos as grandes produções de Hollywood, em que é preciso criar múltiplos cenários, como por exemplo, criar uma cidade de raiz, fazer explosões e rebentar com prédios, do que filmar um casal a passear no parque. Não estou portanto a dizer mal das comédias. Às vezes até apetece ver uma, quando estreia uma boa, mas estar a pagar o mesmo por 1h30 de cinema por um filme que em ano e meio estará a dar na tarde de domingo na SIC ou por 2h30 de algo feito com mais afinco, é óbvio onde me apetece colocar os meus 5 euros. E para além disso, se os filmes menos populares, como por exemplo os independentes ou europeus ficassem a um preço mais baixo, teriam com certeza uma maior abrangência, seriam vistos por mais pessoas e caminharíamos num bom sentido em termos de cultura cinematográfica.

Outra razão é o facto de que os filmes estão acessíveis em diferentes meios (legais e ilegais). E portanto, a fraca afluência não é necessariamente por falta de dinheiro. Não foi nesse sentido que falei do custo. Trata-se é do valor perceptual que as pessoas atribuem à visualização do filme no cinema, que não se coaduna com o custo efectivo do bilhete. Porque como se vê nesta altura, os festivais estão todos cheios e para isso parece haver dinheiro. E se calhar, consideram que a diferença entre ver um filme em casa e no cinema é pouca, e a diferença entre ouvir música gravada é muito diferente de a ouvir ao vivo, e daí o deslocamento e redireccionamento de fundos por grande parte dos jovens. Eu pessoalmente prefiro muito mais ver 10 filmes no cinema do que um dia de concertos, mas isto já são preferências. E não se esqueçam que de vez em quando é preciso ir ao cinema, pagar e investir nesta arte, para que ela tenha retorno para os produtores continuarem a apostar em muitas e grandes produções e não se continuarem a acanhar. Numa nota para os mais poupados, é possível ver grande parte dos clássicos sem piratear. Para quem não sabe, na maioria das bibliotecas existe um vasto leque de filmes que é possível requisitar gratuitamente. Fica a dica.

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Falando de clássicos, esta semana as minhas sugestões vão para Bicycle Thieves (1948), que é uma verdadeira obra-prima do neorrealismo italiano e Paths of Glory (1957) de Stanley Kubrick com Kirk Douglas no principal papel, onde ele tenta defender em tribunal três soldados que são acusados injustamente de cobardia e desobediência num ataque a uma posição estratégica alemã. Filme pouco popular, mas muito interessante.

Com a letra ‘B’, esta semana recomendo o clássico Ben-Hur (1959), que, para além de pertencer ao meu top 5, detém o recorde de maior número de Óscares da Academia, 11 (os outros dois filmes que partilham o 1º lugar são o Titanic e o The Lord of the Rings: The Return of the King). Ben-Hur oferece-nos três horas e meia de uma das mais épicas aventuras de Hollywood. Passa-se no século I, e começa com a amizade entre um judeu, Judah Ben-Hur, e um romano, Messala. Apesar da guerra entre os seus povos, eles eram amigos, até terem uma desavença. A partir daí, temos uma magnífica história de determinação, coragem e esperança. Quem o vir, para sempre se lembrará da corrida das quadrigas ou a batalha em alto mar, enquanto escravo militar, extremamente bem filmadas para a época. A meu ver o único defeito é a extensão, sendo fortíssimo nas primeiras horas e amolecendo para o fim, sem no entanto, deixar de ser espectacular.


sexta-feira, 29 de junho de 2012

Meryl Streep

por Isabel Chalupa

Este será um texto mais expositivo, uma homenagem a um dos grandes artistas da actualidade e de sempre.

No passado dia 22 de Junho, aquela que é, para mim, a melhor actriz de sempre, fez anos. Meryl Streep completou 63 maravilhosas Primaveras, repletas de desempenhos que não estão ao alcance de nenhum outro artista, marcadas por uma constante sublimação e auto-superação que ainda hoje continua. Assim, é apropriado revermos a carreira de uma mulher que marcou para sempre o cinema.

Primeiro de tudo, os factos: Streep detém o recorde de maior número de nomeações para o Óscar da Academia de sempre para um actor: dezassete. É a actriz viva com mais Óscares ganhos: três. Tem também o recorde do maior número de nomeações para os Globos de Ouro para um actor, com vinte e seis. É, igualmente, quem ganhou mais vezes: oito. Recorde de maior número de nomeações para os BAFTA: catorze. Importante mencionar que Streep já está no restrito lote de vencedores de prémios em Cannes e Berlim – só falta mesmo Veneza.

Meryl Streep tem uma forma de actuar diferente de tudo o resto. Enquanto outros se especializam em certos papéis (Al Pacino é o eterno gangster, Kate Winslet é para sempre coitadinha, Katharine Hepburn a mulher forte e poderosa com fragilidade escondida, Robert De Niro o durão...), a artista americana revela uma versatilidade impressionante. Não só faz tudo, como é a melhor em tudo o que faz.

Vejamos os seus últimos sete filmes: O Diabo Veste Prada, Mamma Mia!, Dúvida, Julie e Julia, Amar... É Complicado!, A Dama de Ferro e o próximo Hope Springs. Partimos de uma rainha da moda sem escrúpulos, em que a sua expressão favorita é um frívolo “That’s all” com que dispensa as suas funcionárias que mais parecem escravas. Vemos um musical em que ela anda aos saltos, feliz da vida, dançando e cantando a plenos pulmões. Logo a seguir, nova mudança radical de registo: uma freira autoritária que luta para fazer justiça, mas que nem da sua própria fé está cem por cento segura. Entretanto, passagem por uma espécie de biopic em que dá corpo a uma cozinheira algo excêntrica, fotocópia autêntica da verdadeira Julia Child. Tempo para uma comédia romântica de Nora Ephron, realizadora de autênticos sucessos (e bons filmes do género) como Você Tem Uma Mensagem (Tom Hanks e Meg Ryan) e Alguém Tem Que Ceder (um dos meus favoritos, com Diane Keaton e Jack Nicholson). Este ano, Margaret Thatcher. E, por fim, nova comédia romântica em que um casal mais velho lida com questões da meia-idade mais avançada e da vida em conjunto. Não há margem para dúvidas: quem viu, no mesmo ano (2008), a actriz no espampanante Mamma Mia! e, logo a seguir, no austero Dúvida, não pode fugir à realidade: Streep é a actriz (e o actor) mais versátil que existe e, muito provavelmente, que alguma vez existiu e existirá.


A abordagem de Meryl ao envelhecimento é deveras interessante e prova a sua qualidade como actriz: disse que não gosta de esconder as rugas e que envelhecer é bom, pois já não a chamam para ser a estonteante actriz principal; pode, em vez disso, escolher papéis mais maduros em que lhe é permitido explorar as idiossincrasias das suas personagens e da raça humana. Uma visão acertada e que demonstra que os quarenta anos de um actor não são a sua morte cinematográfica, senão a oportunidade de viver uma nova vida como intérprete.

Hoje, aos 63 anos, Meryl Streep é a actriz mais respeitada da situação cinematográfica mundial. Porém, não se pense que ela acumula somente créditos no grande ecrã: a sua magnífica carreira já lhe granjeou inúmeras referências no teatro e até na música. Theatre World, Drama Desk, Obie, Outer Critics Circle e Tony Awards homenageiam o seu talento teatral e várias nomeações para os Grammy Awards já homenagearam a sua veia musical.

Não tenho, por isso, quaisquer dúvidas em afirmar que estamos a falar da actriz – e, quiçá, da artista performativa – mais completa que existe. Ninguém, no panorama actual, se equipara à versatilidade de Meryl Streep e ao modo como ela consegue manter um nível acima de todos os outros em tudo o que faz – todos os papéis e mais algum, sejam cómicos, românticos, dramáticos... até num macabro A Morte Fica-vos Tão Bem. Mais papéis virão e, embora duvide que Streep suba mais alguma vez ao palco dos Óscares (muitos interesses reinam na fábrica dos sonhos), é indubitável que outras nomeações se sucederão e que, um dia, Meryl seja por fim unanimemente considerada a Melhor Actriz de Todos os Tempos.

84ª Cerimónia dos Óscares, em 2012 - Prémio de Melhor Actriz pela performance em Iron Lady

sábado, 23 de junho de 2012

Sobre-racionalizar

por Isabel Chalupa

Fernando Pessoa lamentava-se por não ser capaz de sentir sem racionalizar, sendo que sempre que os seus sentidos captavam alguma coisa, a sua mente apressava-se a intelectualizá-la. Assim acontece connosco, hoje em dia, em relação a todos os filmes que vemos – mas não lamentamos. Não temos a capacidade de ver e sentir um filme sem começar a emprestar-lhe uma dimensão muito maior do que, muitas vezes, o próprio filme tem. Porém, não nos apercebemos do erro que estamos a cometer.


Vi hoje um documentário de Sophie Fiennes, The Pervert's Guide to Cinema, que filma um conhecedor Slavoj Žižek, psicólogo e psicanalista, a analisar inúmeros filmes sob a perspectiva das teorias freudianas. Muitos autores são incluídos nesta extensa reflexão sobre as pulsões cinematográficas, uns com maior coerência, outros com menor – Hitchcock, Fritz Lang, Ingmar Bergman, Francis Ford Coppola, Kubrick, Chaplin, David Lynch... Um documentário a não perder, mas que por vezes exagera na profundidade da sua análise.

Falar de Alfred Hitchcock é falar de Sigmund Freud. O mítico realizador era um confesso admirador das teorias do austríaco, autor de obras como a famosíssima A Interpretação dos Sonhos, e a utilização dos modelos psicanalíticos nos filmes do realizador britânico é por demais evidente, sendo inegável que Hitchcock estava para o cinema como Salvador Dalí estava para a pintura, ambos interpretando à sua maneira a visão freudiana dos sonhos. Em Psycho, a forma como os três andares da casa de Norman representam o modelo estrutural da psique, id, ego e superego, é clara; em Os Pássaros, a relação incestuosa e super protectora da mãe para com o seu filho é uma expressão das pulsões sexuais e do complexo de Édipo sobre o qual Freud disserta; no filme Vertigo (ou, em português, o absurdo A Mulher Que Viveu Duas Vezes), está bem patente o modo como para haver uma afirmação do seu desejo, primeiro o homem tem de humilhar e mortificar o desejo da mulher, impondo-se sexualmente sobre ela antes de passar ao acto em si.

Contudo, o mesmo não acontece com os filmes de muitos outros realizadores: reduzir a loucura de Lynch a mero calculismo psicanalítico é cruel. O próprio autor já declarou por diversas vezes que inclui certas coisas nos seus filmes simplesmente porque lhe apetece incluí-las. Em títulos como Veludo Azul, Mulholland Drive, Estrada Perdida ou Um Coração Selvagem, Lynch vai muito mais para além de Freud, ficando simultaneamente muito aquém. A sua insanidade cinematográfica é um misto de lógica e incongruência, sendo impossível caracterizar os seus filmes e a sua forma de pensar de acordo com um autor definido, ou dizer “ele fez isto porque queria dizer aquilo”. Esqueçam. Não é possível. E talvez seja mesmo aí que reside a beleza dos filmes de David Lynch.

Claro que é possível fazer uma reflexão psicanalítica de autores como Gaspar Noé, Christopher Nolan, Ingmar Bergman, Fritz Lang, Murnau, Coppola, Kubrick ou Chaplin (este sendo já algo rebuscado). Mas não podemos partir daí para começar a fazer semelhante abordagem a todos os filmes que nos aparecem a fime. Elevar uma simples comédia romântica a pulsões sexuais ou um Saw a pulsões de morte ou mesmo um musical à interpretação dos sonhos é absurdo. E houve um ponto nesse documentário – tal como há um ponto em todos nós – em que se começou a enveredar por caminhos ilógicos e sem sentido. Nem tudo tem um significado profundo e psicologicamente incerto.

É aí que incorremos no erro: por vezes, por maior dimensão de significância que um filme possa assumir, faz-nos bem recostar-nos e apreciá-lo sensitivamente; não desatar numa complexa análise intelectual. Por vezes, há que desfrutar verdadeiramente do filme, não começar a pensar em tudo o que ele encerra. Simplesmente ver – ou, como diz a sabedoria popular, comer – e calar. Desfrutem inocentemente do cinema, amigos, pois se não o fizerem, cedo se verão engolidos por uma espiral de raciocínio e intelectualização da qual, tal como Fernando Pessoa, lamentarão um dia não poder escapar.

FIM

'Pervert's guide to cinema'

Terá Prometheus prometido demais?

por DavidN.

Antes de mais, uma curta apresentação. Sou um grande aficionado pelo mundo cinematográfico e quando surgiu o convite para escrever duas crónicas/críticas ao mês, a proposta pareceu-me deveras interessante e difícil de recusar. E portanto, eis-me aqui então!


Dito isto e passando à estrutura das crónicas, espero, sempre que possível, no caso de ter ido ver algum filme ao cinema, poder dar o meu parecer sobre uma das estreias do mês. Como nem todos os meses vou ao cinema, este será um tema que apenas algumas vezes abordarei.

Para além dos recentes, tenderei a recomendar ou a comentar um ou dois clássicos, porque sou grande fã das obras antigas e acho que existe muito público que os desconhece e que poderia ser fã se lhes desse uma hipótese. Para terminar, irei varrer o alfabeto, e a cada post irei referir um a três filmes que goste e que comecem com essa letra, tendo já assim material para 26 crónicas.

Para esta semana, irei comentar o muito aguardado Prometheus. É de facto um filme visualmente muito cuidado e trabalhado, e que entra bem na temática do Alien. Para quem viu o Alien de 1979 do mesmo realizador, Ridley Scott, e que imortalizou Sigourney Weaver como um ícone feminino, são notórias as ligações. Essas pessoas irão gostar de saber como é que a nave que eles encontram no Alien original vai parar àquele planeta e a origem da mensagem (de aparente socorro) que é emitida a partir desse planeta. Para quem nunca viu, e vai ao cinema ver este filme como um evento singular, pode de facto, parecer um filme um pouco vulgar, mas ainda assim interessante. Creio que grande parte da deceção que muitos sentem depois de saírem da sala de cinema se prende com as elevadas expetativas criadas pelos media, pelos vários vídeos virais que iam surgindo e pelo trailer extremamente apelativo. Contudo, é preciso dar os parabéns ao realizador e aos produtores, porque não basta fazer bons filmes, é preciso também saber “vendê-los.” Voltando atrás, creio que o filme começa bem, lança umas boas premissas mas para o fim, acabar quase por se tornar num filme de acção e perde um pouco o fio às meadas filosóficas que soube lançar no início. Ainda assim, creio que é um dos melhores filmes do género deste século e um óptimo regresso do Scott às ficções científicas e fico então agora a aguardar a sua sequela ao clássico Sci-fi Blade Runner (1982) que também recomendo. Portanto, para mim o filme foi um 8/10 e creio que daria um 7 se nunca tivesse visto o Alien.

Nos clássicos, as minhas sugestões vão para duas obras menos famosas de Hitchcock, Notorious (1946), com o famoso Cary Grant e a bela Ingrid Bergman, num papel em que ela tenta infiltrar-se dentro da elite nazi da América do Sul para recolher informações e Strangers on a Train (1951), em que um sujeito apresenta a um desconhecido uma teoria de ambos verem morta uma pessoa que detestam, trocando entre eles os homicídios, cada um cometendo o crime do outro e não havendo portanto, nada que os ligue ao crime do seu “conhecido”.

Com a letra ‘A’, esta semana recomendo Annie Hall (1977) do mestre Woody Allen, com as suas neuroses do costume, as óptimas tiras filosóficas e o humor a que tão bem nos habituou desde o início da sua carreia. Imperdível para qualquer fã do Woody e do cinema em geral. Noutro contexto, escolho Atonement (2007) de Joe Right com Keira Knightley e James McAvoy nos principais papéis, por achar que está de facto bem construído, tem boas interpretações e um final diferente do expectável.


'Prometheus' - Official Trailer

Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.