Blogue de divulgação cultural, escrito por 28 pessoas. Um texto por dia, todos os dias.
Mostrar mensagens com a etiqueta Cinema e Televisão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cinema e Televisão. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Looper - Reflexo Assassino: Uma Crítica

por Jorge Diniz

Uma das estreias do mês passado foi Looper, de Rian Johnson. Ao que parece, este filme de ficção científica/acção causou um burburinho nos media, que já o chamam de o filme mais original do ano. Será?

Contém spoilers!

Looper passa-se num presente -que é nosso futuro, 2044- e apresenta-nos um grupo de assassinos, chamados Loopers, que trabalham para a máfia. No entanto as suas vítimas são enviadas trinta anos do futuro para o presente com o intuito de as fazerem desaparecer de forma limpa. Neste presente, desenvolveu-se uma mutação nos humanos que os permite serem portadores de telecinese. Um factor importante para o desenvolver da história mas, a meu ver, um pouco fora de contexto e introduzido de uma forma quase forçada.

A premissa é esta e já por si revela uma originalidade rara nos dias actuais. Rian Johnson, um realizador novato (que nos trouxe Brick e Os Irmãos Bloom) é também, aqui, argumentista, consegue tornar esta ideia simples de viagens no tempo num novelo de paradoxos quando deixa que o personagem principal se encontre com o seu futuro. Johnson mostra-se ser capaz de controlar este acaso e o desenrolar da história preocupando-se, acima de tudo, com a construção das personagens e os diálogos  exímios, que são, muitas vezes, esquecidos neste género de películas.

O ambiente noir criado por Johnson, doseado com uma boa dose de acção sensata, custa, por vezes, avançar no tempo. No entanto, possui uma boa fotografia e uns planos de câmara originais, de alguém que ainda anda a experimentar.

Joseph Gordon-Levitt é Joe, o looper principal, que personifica um Bruce Willis mais novo, isto porque, Willis é o Joe do futuro. O trabalho de JGL está fantástico ao tentar não imitar um Bruce Willis dos anos 80 e os efeitos especiais que o caracterizam foram muito bem produzidos, tornando o personagem do actor muito credível. Willis, já regular na ficção científica (Os Substitutos; 12 Macacos; 5ºElemento) é um Joe condenado pelo amor que decide aparecer para matar o rei do crime do futuro, obrigando o Joe do presente a passar pelas lições da idade e do amor. O trabalho de Bruce Willis é mais do mesmo e Levitt sai a ganhar.

Quem surpreende, também, é Emily Blunt, num papel de mãe preocupada e enigmática (especialmente no terceiro acto) que se torna mais que do que a “menina indefesa do herói”. Além disso, há também as agradáveis participações de Paul Dano e Jeff Daniels.

Com algumas referências a filmes do género, Johnson dirige e escreve de forma espantosa de modo semelhante ao que Cristopher Nolan fez com A Origem há uns anos atrás. O que se extrai de Looper é a coragem e dedicação do “jovem” Johnson em criar um conto original e não uma adaptação ou uma sequela ou um remake.


A SENTENÇA: Um filme de ficção científica inteligente e com estilo, bem escrito e realizado que, embora não sendo perfeito e tendo algumas falhas, ganha por colmatar o que é actualmente feito neste género. É por isso o filme de ficção científica mais original de 2012.

8/10

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Trilogia da Morte

por Inês D.

A Morte não é um tema fácil de expor. Nem todos o conseguem fazer tão espetacularmente como o realizador mexicano Alexandre Gonzalez Iñarritu. Associado a Guillermo Arriaga, criou 3 dos melhores e mais duros filmes sobre a dificuldade e o terror da Morte: Amores Perros, 21 Grams e Babel, conhecidos como Trilogia da Morte. Iñarritu disse em entrevistas que os seus filmes não giram em torno da morte mas sim sobre as casualidades da vida. De facto, nestes filmes vemos muitas formas de vida, vemos vidas em várias partes do Mundo. Mas, em todas elas, e em cada uma daquelas pessoas, vemos a dor da perda e o sofrimento.


A sua primeira longa-metragem Amores Perros de 2000 foi rodada na Cidade do México. Partindo de uma cena inicial de um acidente de automóvel, a história é desmontada em três partes, três mundos diferentes que confluem nesse momento do acidente. Temos Otavio (Gael García Bernal) e Susana (Vanessa Bauche), o rapaz apaixonado pela esposa do irmão, que se dedica às lutas de cães para conseguir juntar dinheiro suficiente para fugir com Susana. Otavio perde o cão no acidente, o dinheiro, e a mulher que ama. Temos Daniel (Álvaro Guerrero) e Valeria (Goya Toledo), o pai de família apaixonado pela modelo mais nova em quem embate o carro de Otavio. Como consequência do acidente Valeria perde a perna, arruinando a sua imagem e a sua carreira. Temos ainda El Chivo (Emilio Echeverria), um criminoso andrajoso que é contratado para matar um homem, ato interrompido no momento do acidente. É um homem com muito pouco, dedicado aos cães que cria, e que procura comunicar com a filha que abandonou em criança.

Mais do que a morte, vemos a perda: todos os personagens perdem algo que lhes é querido. Todos vêm ser-lhes destituído o futuro que idealizaram. Todos esquecem a compaixão quando levados ao extremo. No filme vemos as ruas, vemos a cidade e os gangs. Facilmente se consegue imaginar estas histórias a passarem-se em nos nossos dias. Três mundos tão diferentes que existem quase independentes num mesmo sítio, ignorando-se mutuamente, cruzando-se inevitavelmente. 


No seu segundo filme, 21 Grams (2003), temos o mesmo estilo narrativo fragmentado. Desta vez com uma história passada nos EUA, temos um filme mais “limpo”, mas americano. A morte tem uma presença muito mais intensa neste filme. Paul Rivers (Sean Penn) é um homem doente que precisa de um transplante de coração para sobreviver. Cristina Peck (Naomi Watts) é a mulher do homem que morreu e cujo coração salvou Paul. Jack Jordan (Benicio del Toro) é o ex-presidiário que acidentalmente atropelou o marido de Cristina e as suas duas filhas. Vemos a forma desastrosa como Cristina lida com a morte do seu marido. Vemos o caminho de arrependimento de Jack e vemos uma nova demanda numa vida pouco desejada de Paul. Vemos o desespero levado ao extremo de todos eles e, em cada um, o seu calvário na sua busca de paz e redenção.

Este é, dos três, o meu filme favorito. Destaque para a fantástica interpretação de Benicio del Toro, que lhe mereceu uma nomeação para o Oscar de melhor ator secundário.


A concluir esta trilogia, saiu em 2006 o filme Babel, talvez o mais ambicioso dos três filmes. Mais uma vez apresenta-nos uma história fragmentada, passada em quatro locais distintos. Ao longo do filme percebemos como todas as histórias se relacionam e percebemos finalmente a sua ordem sequencial. Algures em Marrocos, Richard (Brad Pitt) e Susan (Cate Blanchett) viajam num autocarro turístico. Inesperadamente Susan é atingida por uma bala vinda de alguém desconhecido. No cimo de um monte dois garotos brincam com uma arma que encontram e atiram no autocarro onde estava o casal americano. Outra parte da ação passa-se na América: os filhos de Richard e Susan ficaram ao cuidado de uma ama mexicana (Adriana Barraza) que os leva com ela ao casamento do filho no México. Uma outra parte decorre no japão, onde Chieko (Rinko Kikucho), uma jovem surda-muda, procura encontrar-se emocional e sexualmente. 
É um filme nervoso; sente-se no filme a dificuldade em comunicar – ou devido à língua diferente num país estrangeiro, ou devido à posição social inferior e ao preconceito e, mesmo levado ao extremo, por incapacidade física. Vemos de novo as falhas nas relações humanas, a crueldade nos diferentes mundos, os mesmos sentimentos expostos no momento da eventualidade da perda, independentemente do meio onde se está. 


São três filmes execionais. Os mundos são feios e as imagens são belas; os personagens são complexos e muitas vezes odiáveis. A Morte está lá, sob tantas faces. Tudo parece tão real, tão explícito. Notam-se detalhes deliciosos, nada acidentais. Com uma estética peculiar Iñarritu faz um retrato verídico da vida e da morte, que se percebe ser semelhante no México, nos Estados Unidos ou em qualquer outra parte do Mundo.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Regresso de James Bond (ou como manter uma saga durante 50 anos)

por David N.


E esta sexta, em dia de estreia nacional (e mundial) do novo James Bond, Skyfall, lá fui eu ao cinema prestar a minha homenagem à grande saga que adoro e da qual nunca tinha visto nenhum filme nas salas de cinema e que faz este ano o 50º aniversário. Decorria o ano de 1962 quando o primeiro filme estreou pela pele do eterno Sean Connery em Dr. No.

E bem, depois de sair da sala, fica a questão: É um bom filme e será que faz uma boa homenagem aos 50 anos? E as respostas são ambas positivas. Sam Mendes conseguiu criar um filme visualmente muito apelativo, principalmente em termos de cenários e jogos de luzes, com muito crédito a ter de ser dado ao director de fotografia. Uma pequena parte do filme decorre em Xangai e Macau, essas terras onde se escreve com gatafunhos, há luzes coloridas por todo o lado e existe a magia oriental no ar. Aí temos umas das melhores partes, onde chegamos a ter uma cena de luta às sombras, num arranha-céus em Xangai, apenas com os contornos dos intervenientes recortados por projeções e efeitos de luzes no edifício da frente.

Por outro lado, o filme é bastante fluído, bem ritmado e cheio de acção, sem por isso descurar na classe e no estilo de gentleman britânico.  Apesar de o argumento não ser nada por aí além, e até ser um dos Bonds com a história mais simples, mostra que é possível fazer um bom filme (mesmo fora do contexto da saga) diferente dos anteriores, mas sem deixar de ser fiel aos seus princípios. O Javier Barden está muito bem caracterizado e empresta corpo a um vilão mais bem construído, que apesar de não ser tão megalómano como alguns dos vilões das primeiras décadas de Bond, é mais arrojado do que os seus antecessores em Casino Royale e Quantum of Solace. E aqui, Bond volta a fazer uso da típica frase "Bond, James Bond" que, vá-se lá saber porquê, tinha ficado ausente no último filme. No contexto humorístico, voltamos a ter uma ou outra piada, situação rara ou mesmo inexistente nos últimos dois filmes, mas que era uma imagem de marca da saga.                                    
Podemos contar com um Bond que mostra o seu lado mais negro (e todo o filme anda um pouco à volta das sombras, aqui com duplo sentido) e que às vezes, aponta que a maneira antiga é melhor. Por isso, ele é visto a fazer a barba à navalha (já fiz uma ou outra vez e confirmo que fica muito melhor!) e até chega a conduzir o velhinho Aston Martin DB5 dos filmes antigos, porque os novos têm sensores de localização e ele quer "sair do alcance". Mais uma vez, é feita a referência aos clássicos de forma sublime e não se pode dizer que pareça forçada.

Por outro lado, temos o regresso das personagens Q e Moneypenny à franquia, o que anima os fãs e deixa a cereja no topo do bolo. Em suma, é um filme para todos, que evoca a magia de meio século do espião mais famoso do mundo, num regresso a Londres alvo de um ataque terrorista, e que põe a nú o facto que os inimigos já não são nações ou impérios com uma bandeira, mas indivíduos à margem, na sombra e que actuam por conta própria. Acção, piadas, óptimos efeitos visuais, grandes cenários, bom guarda-roupa, o clássico Aston Martin, Bond girls e o martini da praxe são todos bem mexidos, mas não agitados neste bonito cocktail. Na verdade pouco mais há a dizer senão que vão ver, e tirem as vossas conclusões.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Polémica: Ideais ou Propaganda?


por Isabel Chalupa

Aproveitando a deixa do novo filme de Paul Thomas Anderson (um dos meus realizadores favoritos, por sinal), The Master, que se foca alegadamente no tema da Cientologia, venho hoje falar-vos de polémica no Cinema. Todos os filmes que procuram tocar assuntos sensíveis enfrentam uma grande dúvida: serão feitos como um afirmar e defender dos ideais em que os seus realizadores acreditam ou como simples movimento de mercado? Grito de alerta ou golpe propagandístico? Arte ou entretenimento?

De facto, não só a obra referida, como muitas outras caminham sobre esta ténue linha que distingue os filmes que pretendem passar uma mensagem daqueles que simplesmente procuram atrair espectadores às salas com uma premissa sumarenta. Títulos como A Rainha, W., Frost/Nixon e o vindouro Diana pegam em assuntos delicados e discursam sobre os mesmos sem quaisquer pruridos ou medo da crítica sensacionalista. Embora os filmes enunciados sejam obras de grande nível, nem todos os exemplos no mundo do Cinema podem assim ser considerados. Pegar em assuntos políticos está na moda, resta perceber se para criticar ou fazer dinheiro...

Porém, compreenda-se que por vezes a publicidade e a imprensa pegam num filme e transformam-no em algo completamente diferente. Pegando especificamente em The Master, PTA veio afirmar publicamente que não é sobre a Cientologia, tendo apenas pegado no exemplo da ceita/religião em questão por ser um tema tão badalado nos dias de hoje. De facto, as parecenças da personagem de Philip Seymour Hoffman com L. Ron Hubbard, o criador da Cientologia, são assinaláveis, tal como as situações em que o filme se movimenta. Contudo, como o realizador já referiu por diversas vezes, este é um conto sobre dois homens, um que gosta de orientar e outro com sentimentos antitéticos sobre ser orientado, que se cruzam e constroem uma relação peculiar. Alguém entrevê nesta descrição uma reflexão sobre a Cientologia e as suas mentiras e controvérsias tão faladas?



Não obstante, a imprensa e a própria máquina de promoção de The Master insistem na mesma tecla: guerra aberta contra a Cientologia por todo o mal que esta provoca. No entanto, será de facto pelos males da ceita/religião que os media chovem no molhado ou porque anunciar um tema tão controverso é fonte certa de dinheiro? P. T. Anderson é um realizador distinto, respeitável e com as suas próprias ideias estéticas, morais e comportamentais. Não é um Michael Bay, que realiza filmes de máquinas-veículos falantes só porque os mesmos dão origem a cheques com muitos zeros. Não pretendo julgar tal opção – pelo contrário, admiro quando feito às claras, não quando (como no caso do mecanismo de marketing da obra de PTA) disfarçam um filme de algo só para atrair a clientela. The Master é decerto uma película singular e a ideia pré-definida que a comunicação social tem criado à sua volta poderá prejudicar o entendimento do filme como reflexão sobre a condição humana e as relações interpessoais.

Concluindo, é bem sabido que hoje em dia temas polémicos são fonte certa de papel verde. Todavia, tal controvérsia é muitas vezes originada pelos media em si, que mascaram um filme de outro com o mero propósito de atrair o espectador comum às salas. Ainda assim, isto não invalida que uma obra produzida e promovida nesses moldes seja de qualidade: casos como os acima referidos foram apresentados como ensaios sobre temas delicados e nem assim deixaram de ser títulos de alto quilate. Tudo depende do que repousa sob todo aquele mecanismo propagandístico: se o que encontramos é arte, não devemos hesitar em dar uma espreitadela. Até porque podemos estar perante uma verdadeira obra-prima.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Os filmes de Hitchcock

por Jorge Diniz

Para o bolo de bolacha vai precisar de 2 colheres de... Oh! Estou no sítio errado! 
Vou-vos falar de Hitchcock.



Alfred Joseph Hitchcock (1899 – 1980). Iniciou-se no cinema em 1920 começando a trabalhar como designer de title cards para os filmes mudos e, mais tarde, foi promovido a Diretor de Arte (era um artista competente!), interessou-se também pela escrita e foi em 1922 que se estreou como realizador em Number 13. Não teve sucesso.
Mas não desistiu. Continuou com o cinema mudo inglês e oficializou-se como realizador com The Pleasure Garden, onde começa a revelar as suas características distintas (homens voyeristas e psicopatas), passando por O Hóspede até Chantagem, do qual fez um versão sonora, sendo, assim, o primeiro filme sonoro da Grã-Bretanha. 

Em 1934 dá-nos 39 Degraus, a sua primeira obra-prima. Alterou o romance de espionagem de John Bucham, introduziu uma loira na história e ficámos, então, com um thriller tipicamente hitchcockiano de uma perseguição, já com um cheirinho a paranoico. Consegue, aqui, manter a audiência sempre na dúvida e agarra-la com os seus twists inesperados.

O seu primeiro filme em Hollywood é Rebecca (1940), um misto de drama e ,atrevo-me, comédia romântica. Ao longo dos anos 40 fez mais 15 filmes, dos quais destaco Difamação e A Corda.

Chegamos aos anos 50 – o auge da carreira de Hitchcock. A Janela Indiscreta, com James Stewart e Grace Kelly é a epítome do cinema do realizador. Entretenimento  autêntico num quarteirão, que traz ao de cima o prazer do voyerismo. 
Apresenta-nos Vertigo em 1958, com Kim Novak, que substituia Vera Miles, e Stewart. Inovador a nível artístico, no qual desenvolveu o vertigo shot, técnica ainda usada no cinema actual. Um filme desconcertante sobre a obsessão e o suicido mas que é considerada a sua obra prima mais brilhante. 
Entre outros, destaco O Desconhecido No Norte-Expresso(1951), A Chamada Para a Morte(1954) e Intriga Internacional (para ver!).

Nos anos 60, realiza Os Pássaros e Cortina Rasgada, entre outros. Dedica-se à televisão com duas séries de pequenos filmes tipicamente hitchcockianos e eis que chega Psycho. Filmado a preto e branco, porque a cores seria ‘repugnante’, segundo o realizador. Redefiniu o terror, mostrando-nos que os sentimentos nos tornam vulneráveis. Hitch mostrou-se sem medo quando decidiu eliminar a personagem principal de Janet Leigh ao fim de 40 minutos, estando o espectador a ver um filme errado sobre uma mulher que rouba 40 mil dólares para o namorado e que acaba morta no chuveiro.
A película celebrou recentemente 50 anos e terá direito a um filme que retrata as dificuldades passadas pelos actores e do próprio realizador durante a produção do mesmo.


Hitchcock deixou-nos um legado rico e que merece ser descoberto por quem ainda não o conhece e deve fazer parte na colecção de qualquer cinéfilo. 
Quem não adora Hitchcock, não adora cinema.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Festival Queer de Cinema em Lisboa


por Inês D.

Durante a segunda quinzena do mês de Setembro decorreu o Queer Lisboa  – Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa. Já na sua 16ª edição, este festival tem contado com uma seleção alargada de filmes. O cinema queer tem vindo a ganhar cada vez mais público, mesmo fora da comunidade LGBT e, como tal, a edição deste ano trouxe às salas do Cinema São Jorge cerca de 7500 espectadores.
Dos 91 filmes do cartaz, entre curtas e longas-metragens, de ficção e documental, escolhi duas longas de ficção para ver na edição deste ano do festival: Weekend (Andrew Haigh, 2011) e Keep the Lights On (Ira Sachs, 2012).

Não foi por acaso que o filme inglês Weekend foi o escolhido para abertura do Festival: foi um dos filmes de temática gay mais premiado e aplaudido do ano.
 O enredo do filme é relativamente simples: dois homens conhecem-se uma noite num bar e passam um fim-de-semana juntos. Mais do que a história de engate aparentemente banal, é nos dois protagonistas e nas conversas entre eles que está o interesse do filme. Russell (Tom Cullen), menos aberto sobre a sua orientação sexual, vê-se confrontado com uma visão diferente do mundo por Glen (Chris New). Glen não entende o porquê da vergonha em ser-se homossexual e em falar-se abertamente sobre isso, da mesma forma que os heterossexuais o fazem, despreocupadamente. Por outro lado, Russell não entende a recusa de Glen em procurar uma relação séria com alguém. Ainda assim procuram passar o pouco tempo que tem - um fim-de-semana, juntos, mesmo sabendo que não se voltarão a ver.
Mesmo não tendo um “final feliz”, é um filme bonito, com o qual facilmente qualquer pessoa se pode identificar; fala sobre as diferentes expectativas que cada um tem numa relação, sobre a necessidade de ter alguém e a busca pela aprovação e aceitação.


            Bem diferente de Weekend, o filme Keep The Lights On foi vencedor do Prémio Para Melhor Longa Metragem no Queer Lisboa e ainda do Prémio para Melhor Actor para Thure Lindhart. Foi, aliás, este ator um dos motivos que me levou a ver este filme – já o havia visto na edição deste ano do Festival Indie Lisboa, no filme alemão Formentera (Ann-Kristin Reyels, 2012).
            Este filme fala também da história de um casal mas, desta vez, não num fim-de-semana, mas sim no período de uma década. Erik (Thure Lindhart) e Paul (Zachary Booth) conhecem-se através de uma linha erótica e, depois de alguns encontros, começam uma relação que irá durar vários anos. Desde o princípio que Erik está a par do hábito de consumo de drogas de Paul, “o seu pequeno segredo”, que se agrava ao longo do tempo. Cruamente real, o filme vai mostrando de forma explícita os viciosos ciclos de euforia e depressão das dependências de Paul – de crack e de Erik - e as suas reabilitações e recaídas.
            Não é um filme fácil nem é propriamente um filme “bonito”. No entanto, é impossível não pensar nele ao sair da sala de cinema. Sem dúvida, grande destaque para a belíssima interpretação de Thure Lindhart e ainda para a banda sonora (que “não é mero papel de parede”).



            Quase sempre afastado das salas de cinema e do sucesso comercial, o cinema queer tem-nos mostrado boas películas nos últimos anos. Estes dois filmes são bons exemplos disso. Tenho esperança que no futuro se vejam mais destes filmes nas salas de cinema, que comecem a aparecer mais personagens LGBT nas grandes e pequenas produções sem que, para isso, seja necessária a existência de uma “categoria” especial para os classificar e publicitar. 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Regresso de férias

por David N.


Férias é sempre aquele tempo extraordinário para pôr o cinema em dia. Mais uma vez, foi isso que aconteceu, e queria partilhar o melhor do que vi.

Nos melhores apresento 12 Angry Men (1957) com Henry Fonda no principal papel. Um jovem é acusado de homicídio e 11 dos 12 jurados acham-no culpado. Todo o filme é passado numa única sala, e gira em torno de Henry Fonda a tentar convencer os seus pares de que o jovem pode ser considerado inocente até que se prove o contrário, e que todos os indícios são inconclusivos. O filme espelha bem a máxima americana do reasonable doubt na barra dos tribunais e mostra como as vivências de cada pessoa alteram os seus juízos de valor.


No outro lado dos classificados com 9 em 10, recomendo It's a Wonderful Life (1946) com o clássico James Stewart no principal papel. Retrata a história de um bom homem frustado com a vida, que pensa no suicídio, a quem o céu decide enviar um anjo para o salvar e que lhe mostra o quanto a sua vida tem sido importante para os que o rodeiam. É o mágico clássico natalício, e mais não digo para não fazer spoilers e manter a magia intacta para vossa 1ª visualização.


Depois, decidi ver o Batman original e gostei, apesar de nem tanto como os do Nolan. Num pulo, fui logo buscar outro do Tim Burton e deliciei-me com o Big Fish (2003), que é sem dúvida um filme fabuloso e comovente.

Na onda dos westerns, fica a recomendação para o Once Upon a Time in the West (1968) do mítico Sergio Leone, mais uma vez, com Henry Fonda.

Numa incursão pelo cinema europeu, apostei na French New Wave, nome dado ao cinema francês dos anos 60 e 70. Comecei com o realizador Jean-Luc Godard e não podia ter feito melhor. No seu bom reportório, encontram-se obras de diferentes estilos, e bastante atractivos ao cinéfilo comum, que não costuma ver cinema de fora dos EUA. Bande à Part (1964) foi o meu primeiro, e de facto, tem aquela magia parisiense. Tal como Woody Allen tem como musa Scarlett Johansson, Godard tinha Anna Karina, que entra em vários filmes seus, e demonstra ser uma actriz bastante capaz e muito expressiva. Do mesmo realizador, recomendo também Alphaville (1965) passado numa cidade governada de forma fascista e tirânica onde as pessoas já não sabem o que é o amor, e Pierrot le Fou (1965), com Anna Karina e Jean-Paul Belmondo, sempre em fuga e levando uma vida boémia.


Também francês, temos La Grande Illusion (1937) de Jean Renoir. Passa-se na Primeira Guerra Mundial, e mostra a amizade entre soldados franceses capturados pelos alemães  e o cavalheirismo entre militares mesmo de facções opostas, vivido naquela época, bem como uma fuga audaciosa.

Depois, numa antevisão da futura estreia de The Great Gatsby em 2013 com Leonardo DiCaprio, decidi ver a versão de 1974, com o Robert Redford. O filme é bom, mas vale mais pela história, que é uma adaptação directa da obra de F. Scott Fitzgerald, do que pelo filme em si. É por muitos considerada uma das melhores obras do século XX. Fica a recomendação de leitura!

Com a letra ‘D’, esta semana recomendo Dances with Wolves (1990) dirigido por Kevin Costner, que é também o actor principal. Ele é um oficial americano que escolhe servir num posto avançado, na fronteira, onde se acaba por tornar amigo dos índios nativos. Como runners-up, Dead Poets Society (1989) pela filosofia, Dirty Harry (1971) pela interpretação do Clint, Dr. No (1962) por ser a primeira aparição do agente James Bond e Drive (2011) pelo impacto visual e sonoro.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O sonho resplandescente de Ruby


Já ouviram aquela história do rapaz geek, tímido e socialmente inadaptado que inventa a rapariga perfeita na sua cabeça e se torna completamente incapaz de amar qualquer outra? De certo não vos parece nova a ideia de um criador que, no final de contas, se apaixona pela sua própria obra de arte. Sim, a história certamente não vos é estranha. Mas, por mais que ela já tenha sido contada vezes sem conta, garanto-vos que nunca o foi assim.



Calvin (Paul Dano), um jovem escritor que atingiu um sucesso estrondoso aos 19 anos com o lançamento do seu primeiro livro, tem um bloqueio criativo. Na tentativa de o soltar dessa pressão, o seu psicólogo, Dr. Rosenthal (Elliot Gould) manda Calvin escrever uma página sobre a primeira coisa que lhe vier à cabeça, mesmo que o resultado acabe por ser desastroso. Pouco confiante, o jovem escritor é surpreendido quando, depois de sonhar com uma rapariga, começa a escrever sobre ela e não consegue parar. A verdadeira surpresa dá-se, no entanto, quando essa rapariga, Ruby Sparks (Zoe Kazan), aparece na sua cozinha. Aparentemente, Ruby ultrapassa as barreiras da ficção e ganha corpo numa pessoa real. Ou quase real? Já lá chegamos.

O trailer colorido, divertido e com música apelativa irá provavelmente induzir-vos em erro. Não vos censuro se, como eu, se forem sentar na sala de cinema com o vosso pacote de pipocas na mão e a postura descontraída de quem vai ver o típico filme de Hollywood com actores bonitos, as piadas do costume e um final feliz.* O elenco, com alguns nomes sonantes como Annette Bening e António Banderas, também desperta a curiosidade do espectador, já para não mencionar o regresso de Jonathan Dayton e Valerie Faris, os realizadores do muito bem sucedido Little Miss Sunshine. A surpresa é Zoe Kazan, que não só dá corpo a Ruby como é a sua criadora. Zoe vem, aliás, de uma família de guionistas: o avô escreveu o argumento de On the Waterfront, o seu pai o de Reversal of Fortune e a sua mãe o de Curious Case of Benjamin Button. Com Ruby Sparks, Zoe conseguiu não só escapar aos clichés dos grandes blockbusters dos últimos anos como puxar por um lado mais introspectivo do espectador, que o convida à reflexão.


Desde o início que o filme brinca com a nossa percepção do real e testa-nos para ver até onde vamos. Se, a princípio, achamos que Calvin está a ter alucinações quando vê Ruby, produto da sua criação literária, na sua cozinha, já no momento em que ela é vista na rua por outras pessoas, na altura em que o irmão a conhece ou até quando é apresentada aos pais de Calvin, começamos a entrar na “brincadeira” e a pensar “Bolas, mas ela afinal existe mesmo!”. Mais do que isso, à medida que nos envolvemos com ela, começamos a desafiar o senso comum e a desejar que ela exista com todas as nossas forças. Não nos importa realmente de onde é que ela veio, como é que tal fenómeno foi possível… só sabemos que ela lá está, e queremos certificar-nos de que lá continua.


Contudo, à medida que o filme avança, o primeiro sentimento de euforia é substituído por uma profunda angústia, provocada pela instabilidade da situação de Zoe. Se a princípio somos capazes e até nos voluntariamos a ignorar o facto de que ela é uma criação de Calvin, quando ele começa a usar esse controlo para tentar moldá-la e mantê-la feliz, ou por perto, ou demasiado dependente dele, o filme ganha um tom mais negro e nós começamos a levantar questões que antes não nos tinham passado pela cabeça: mas, afinal, quem é Ruby? Na sua essência, quero dizer… quem é ela? Será que ela sabe quem é? Será que Calvin sabe? Será que nós sabemos? Será que algum dia sabemos quem somos na totalidade, ou quem é a pessoa que está do nosso lado? O que faríamos se a pudéssemos controlar? O que faria ela se nos pudesse moldar a nós? Há algum tipo de amor que reste neste relacionamento? Ou estamos sempre à procura de nos amarmos a nós próprios?

O ponto alto destas questões, que é também quando o filme atinge o seu auge, dá-se quando Calvin mostra a Ruby, numa perturbadora cena, que é o seu criador e que a tem nas suas mãos. A ilusão é desfeita, partida em pedaços, e percebemos que Ruby não voltará… não da mesma maneira. Aquilo que a princípio parece inocente, encantador, um conto de fadas em que estamos dispostos a acreditar, torna-se em algo pesado, doentio. E as perguntas viram-se novamente para nós: quando imagino esses ideais, estou a violentar assim tanto a realidade? Estou a violentar-me assim tanto?

Sejam quais forem as respostas a estas perguntas, ou a outras que podem ser levantadas, é sem qualquer sombra de dúvida que descrevo Ruby Sparks como uma das maneiras mais bonitas, ternurentas, cruas e tocantes de explicar não só o processo criativo, a entrega total a um universo e a uma história, como o poder da nossa imaginação, da projecção de ideais e do pensamento.



Sem ser pretensioso ou demasiado intelectualizado, Ruby Sparks levanta uma série de questões acerca do modo como gerimos as nossas relações, de como equilibramos o nosso lado idealista e sonhador com o que lida com a realidade e de como nos definimos a nós próprios e aos outros. Lida com um território extremamente perigoso, não só por aflorar assuntos como o abuso de controlo nas relações ou a dependência exagerada do outro, a título de exemplo, mas também por nos estender a mão a uma história que, ao mínimo deslize, deixaria de ser credível, envolvente e comovente.

No final de contas, acho que a proposta mais arrojada de Ruby Sparks é a de acreditarmos. Não só na fantasia, não só no reconhecimento de que não existem relações perfeitas, ou a pessoa perfeita, mas naquele momento em que uma Ruby, de facto, aparece sem que seja fruto da nossa imaginação, sem que a consigamos controlar e sem deixar de ser um constante mistério.



*recomendo a leitura do artigo de Isabel Chalupa, acerca das comédias românticas e de quantas seguem a fórmula que referi

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Comédias Românticas: o Circo no “Cinema”


por Isabel Chalupa

Há uma realidade preocupante e cada vez mais premente a que se assiste actualmente: o género da comédia romântica apresenta-se cada vez mais formulaic e sem originalidade, caindo no mero propósito de entreter um público que se satisfaz com um par de risadas e um final feliz demasiado previsível. Não digo que não goste de me rir ou de saber que um filme vai acabar bem – mas já lá vamos.

Hoje em dia, a comédia romântica tornou-se um entretenimento das massas, uma fórmula de sucesso garantido que, independentemente da qualidade do produto, assegura desde logo a entrada de vários milhões nos cofres das produtoras. O espectador torna-se, assim, um mero meio para atingir um fim, uma simples ferramenta num cuidadosamente bem montado esquema de contornos maquiavélicos delineado com um único objectivo: fazer dinheiro – o público torna-se, assim, a roda dentada essencial que faz carburar um negócio extremamente rentável.

Porém, o grande problema é que o público aceita este decair de arte do que lhe é entregue. Quando vamos comprar uma televisão, não escolhemos uma fraca e barata só porque tem um exterior bonito; quando vamos comprar um computador, não escolhemos um fraco e barato só porque sabemos logo à partida como funciona. Então, por que nos acomodamos com um filme fraco e de entretenimento barato só porque tem actores bonitos e já sabemos como acaba? De facto, o espectador não só é alimentado de material cada vez mais fraco, como se conforma com cada vez pior...

Assistimos, por isso, a uma degradação preocupante e vertiginosa de um género que muita arte pode encerrar e que, quando bem executado, pode resultar numa obra-prima. No entanto, no momento presente, a comédia romântica já nada traz ao cinema. Claro que não posso dizer que tenha detestado Porque Sim!, Engana-me Que Eu Gosto ou muitos outros filmes sofríveis do mesmo estilo. Não obstante, preocupa-me que, neste momento, este seja o único nível qualitativo que Hollywood – e cada vez mais mercados internacionais, como Inglaterra, França, Espanha e Itália – tenha para dar.

Engana-me que eu gosto (2011)
O argumento é dolorosamente simples, os actores dolorosamente simplificados. O realizador encosta-se atrás para deixar o rumo dos acontecimentos fluir e as componentes visual e sonora são um mero acessório. Menino e menina conhecem-se, menino e menina apaixonam-se, menino e menina têm problemas e menino e menina ficam juntos no final. All’s well that ends well. É assim que tudo anda, com ligeiras nuances aqui e ali – por exemplo, um affair ou uma relação de amor-ódio caem sempre bem junto do público – mas, olhemos por onde olharmos, o plano geral é sempre o mesmo. Simples, tão simples que até dói.

O mais preocupante é que, à medida que se vai alimentando cada vez mais o sucesso de títulos de tão fraco nível, estes assumem cada vez mais o preponderante estatuto de ganha-pão de muitos actores de qualidade. Até os bons e grandes intérpretes já tropeçam neste género em decadência, sendo “obrigados” a alinhar na trapaça por força da necessidade de ganharem dinheiro – porque também eles precisam, por vezes, de equilibrar as contas. Assim, vemos um grande Robert DeNiro num pequeno Não Há Família Pior!, uma excelente Diane Keaton num fraquinho Porque Sim!, uma deslumbrante Amy Adams num desapontante Tinhas Que Ser Tu..., os fascinantes Depp e Jolie num apagado O Turista, um excepcional Jack Nicholson num excrementício Man Trouble ou mesmo uma absolutamente perfeita Meryl Streep num defeituoso Amar... É Complicado!. Mas o que é mesmo complicado é ver tão grandemente fabulosos artistas caírem nas garras de tão grandemente básicas comédias românticas.

Amar...é complicado! (2010)

Todavia, não se pense que tudo está perdido. Apesar de quaisquer adversidades, o cinema sempre nos deu, continua a dar e perpetuamente dará de comer algumas obras de qualidade genuína. Desde Alguém Tem Que Ceder, passando por O Amor Acontece, O Diário de Bridget Jones e o mais recente Amor, Estúpido e Louco, além do novo Terapia a Dois, para citar apenas uma pequena parte, as nossas expectativas e avidez de comédias românticas capazes foram sempre encontrando filmes à altura, com os ingredientes essenciais a um grande filme: argumentos originais, grandes interpretações, realizações personalizadas, Fotografias cuidadas e bandas sonoras acertadas (e não somente cravejadas dos maiores hits do momento).

Alguém tem de ceder (2003)
Amor, estúpido e louco (2011)
Assim, apesar do estado doentiamente financeiro do cinema actual, especialmente da manufactura do cinema cómico romântico, há esperança. Nem toda a sétima arte se encontra numa necessidade desenfreada de ganhar milhões produzindo zero, nem todos os espectadores se satisfazem com o pretty package sem nada lá dentro. Certos realizadores e temas remam ainda contra a maré e são-nos oferecidos ocasionalmente títulos verdadeiramente encantadores. Basta pensar nos anteriormente referidos e em muitos mais que pelos nossos olhos já passaram. Basta pensar no vindouro e extremamente promissor Silver Linings Playbook, por exemplo, para nos lembrarmos que ainda se fazem comédias românticas de qualidade... O problema é que a cada uma dessas que surge, quinhentas das outras são sobre nós despejadas.