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segunda-feira, 1 de abril de 2013

O melhor educador é…

por Rute Vitorino

Hoje li um provérbio oriental que me despertou a atenção e me fez reflectir um pouco, enquanto professora, mãe e consequentemente educadora. O provérbio era bastante curto e apenas dizia "o melhor educador é o que conseguiu educar a si mesmo".

Por vezes, estamos tão preocupados em criticar e ver os defeitos daqueles que nos rodeiam, que nos esquecemos de olhar para nós próprios. E isto fez-me lembrar algumas situações a que já assisti ao longo da minha carreira profissional.


Muitas vezes, tentamos impor às nossas crianças certas regras e modos de vida, que consideramos ser os corretos na sociedade em que nos encontramos, que nos esquecemos de todo o resto. Como por exemplo, que a criança não é um ser vazio de saber. Pois até chegar até nós, já adquiriu muito conhecimento junto dos familiares, amigos e da sociedade onde se insere. Muitas vezes, este conhecimento, não é considerado o mais correto por nós, mas deverá ser respeitado.

O educador deve preocupar-se sim em mostrar à criança a diferença entre o bem e mal. O educador não deve impor os seus valores e ensinamentos à criança, deve sim respeitá-la e desta forma ajudá-la a descobrir dentro de si própria o caminho que considera mais correto seguir, mostrando-lhe sempre os prós e os contras da sua possível escolha.


Para finalizar, resta lembrar que no nosso papel de educadores, enquanto pais, professores, catequistas, etc, não nos podemos esquecer que a melhor maneira de educar uma criança, ou um jovem, é dando-lhes o nosso próprio exemplo. Pois, segundo Joseph Joubert "as crianças têm mais necessidade de modelos do que de críticas." E só dando o nosso exemplo pessoal, é que podemos dizer que somos bons educadores, pois ao tornarmo-nos num modelo para o outro é sinal que nos conseguimos educar a nós próprios primeiro.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Uma Educação Pró-Social

por Sara M. Garcia




        Há dias, em contexto de sala de aula, na qualidade de aluna-futura professora, observava um grupo de crianças, as suas atividades, comportamentos e formas de expressão. Uma fruição autêntica da realidade escolar. Deixei-me ficar. Compenetrada nos sorrisos espontâneos, no espírito aguçado, na sua natural pré-disposição em saber e aprender, nas expressões engraçadas assinalando “novidades” e, de repente, fui como que atingida por uma onda de responsabilidade. Pensava para comigo serem crianças e, portanto, seres frágeis, mas capazes de “mover montanhas”, pedaços de vida em ebulição, cada um com um percurso singular, no qual terei o privilégio (e acrescida responsabilidade) de deixar a minha “marca”, ainda que passageira. Senti que poderia contribuir, de alguma forma, para a sua formação e crescimento, enquanto alunos e pessoas.

            Na verdade, esta é uma das mais humildes e complexas constatações de um educador/professor. Uma missão fulcral na preparação de um “cidadão do mundo”.

            Ali, observava fragmentos que pertencerão ao futuro e pude lembrar-me da máxima socrática, a de tornar as crianças boas e inteligentes.

            É nesta linha de pensamento que sinto que cabe ao agente educativo, nomeadamente, educadores e professores, delinear um ensino/aprendizagem no qual sejam fomentadas estruturas sólidas em princípios e valores de uma educação para a cidadania (o assumir-se como pessoa), alicerçadas em condutas pró-sociais.

            Incutir, desde cedo, na criança comportamentos de disponibilidade, generosidade, solidariedade, de apreço e atenção para com os outros, segundo um perfil altruísta (isento de “recompensas” e “compensações”) é, sem dúvida, uma mais-valia para o educando e para a sociedade em geral.

            Estas práticas “pró-sociais” (de cariz transversal ao ser humano) deverão ser abordadas atendendo aos diferentes níveis de escolaridade e de desenvolvimento pessoal em que a criança se encontra.

            Na Educação Pré-Escolar a criança situa-se numa fase de egocentrismo (segundo Piaget), o que pode dificultar o desenvolvimento altruísta e a perceção do outro. Porém, há que alertá-la para a existência da dimensão social, para o cumprimento de determinadas normas de respeito pela dignidade humana, para que esta nas suas ações possa atuar de forma (quase) autónoma perante determinadas situações, identificando “o bem” e “o mal” (podendo aqui referir-se os estádios de raciocínio moral defendidos por Kohlberg).

            No 1º Ciclo do Ensino Básico, a criança apresenta uma maior fluidez em compreender que, numa atitude de partilha, mesmo que se “desfaça” de determinado bem, é capaz de recolher benefícios desta despojada atuação (a nível material, psicológico e ético/moral). Além disso, será capaz de se colocar no lugar do outro e de refletir a relevância da sua generosidade.

            Acredito que uma educação pró-social e, consequentemente, mais humana não se esgota num conjunto de prescrições (ou “receitas”) de formas corretas da criança atuar, mas sedimentar-se-á numa ampla construção do ser pessoa, de saber como agir sobre determinado conflito/ situação problema, de forma autónoma, responsável e conscienciosa. Conteúdos que deverão ser incrementados, desde cedo, pelo ambiente escolar e familiar, a fim de crianças e jovens, conhecedores das variadas áreas de formação (linguística, artística, matemática, científica, entre outras), bem como com um vasto sentido de humanismo, construam um melhor rumo para a vivência presente e futura em sociedade.


           
           
           
           
            

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

“Maravilhar-se: reaproximar a criança da natureza”

por Manuela Livro

«Para que uma criança mantenha vivo o seu sentido inato do que é maravilhoso sem que lhe tenha sido dado tal presente pelas fadas, ela necessita da companhia de pelo menos um adulto com quem possa partilhá-lo, redescobrindo com ele a alegria, o entusiasmo e o mistério do mundo em que vivemos.»

Assim preconiza Rachael Carson (1) no seu livro, “Maravilhar-se: reaproximar a criança da natureza” (The Sense of Wonder) quando nos propõe uma verdadeira lição sobre o que é essencial na educação para o ambiente e a Natureza.

Redescobrir com as crianças este nosso mundo, os mistérios que ele encerra e as especificidades de cada lugar é uma demanda que deveria ser considerada, não como um acessório, mas uma obrigação da escola atual.

Se ao estudar a constituição de uma flor uma criança conseguir entender a importância que ela tem para que novas plantas surjam, o seu olhar sobre a flor mudará, porque será mais completo e, certamente, mais respeitador. Compartimentar os saberes é sempre redutor. António Gedeão (2), no seu “Poema das árvores” demonstra sabiamente como o todo é muito mais que a soma das partes e nos “avisa” do saber que nos liga ao sentimento e vice-versa.

“As árvores crescem sós. E a sós florescem.
Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.
Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.
Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes, e as sementes preparam novas árvores.
(…)"

O livro que hoje recomendo foi coeditado pela Campo Aberto e pelas Edições Sempre-em-Pé e foi apresentado por Viriato Soromenho-Marques, a 23 de janeiro deste ano, em Lisboa, na Faculdade de Ciências.
A edição teve apoio do Programa Gulbenkian Ambiente da Fundação Calouste Gulbenkian.


(1) Rachael Carson (1907 – 1964), zoóloga, bióloga e escritora americana reconhecida como principal impulsionadora do movimento global sobre o Ambiente.
(2) António Gedeão, pseudónimo de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho (1906 – 1997), químico, professor, pedagogo, investigador, divulgador da ciência e poeta. O dia do seu nascimento foi adotado em Portugal como Dia Nacional da Cultura Científica.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Do Alto do Cavalo Azul volto a ser criança

por Sara M. Garcia


Em que alto cavalo azul
Inda serei menino?
                               - Vergílio Alberto Vieira.


Tempos idos. Lembranças reavivadas nas brincadeiras, cheiros, sorrisos, pessoas e lugares que nos fazem querer sentar ao lado daquela criança que conhecemos tão bem e que ainda trazemos em nós.

Ali corríamos, pulávamos à corda, inspecionávamos carreiros de formigas, trepávamos árvores, jogávamos à macaca, inventávamos estórias e vivíamos felizes entre bonecas e carrinhos na certeza de sermos heróis, com a boca suja de chocolate, sentindo o vento na cara e o tempo suspenso nos baloiços (voadores!) do jardim.

            Acreditávamos, brincando.

Aquele era um mundo à parte. Nosso. Dos nossos amigos. Uma das muitas dimensões que compõem a Infância. Recantos onde o estado das coisas parecia possuir a dose certa de imprevisibilidade, espontaneidade e imaginação.
            - Estou a brincar! – Retorquíamos inúmeras vezes, com a maior naturalidade.
            
De facto, é com esta mesma simplicidade que devemos encarar que inerente à Criança está o próprio acto de brincar. Brincando Ela cresce de forma saudável e desenvolve-se, relacionando-se e aprendendo com o meio e com o Outro. Não devemos, por isso, desvalorizar este processo nem tão-pouco as múltiplas formas de expressão (simples ou complexas) que dele advêm, pois é na interação com diferentes contextos, no desencadear de aventuras, na capacidade de criar, no resolver de situações-problemas, entre outros que a criança, brincando, acaba por aprender, iniciando um decurso de formação identitária.
            
Assim, quando falamos em brincar há que ter em consideração de que é uma estrutura indispensável ao crescimento do ser humano, capaz de aliar dois ambientes distintos que se complementam: o lúdico e o educativo (aprendizagem progressiva/ aquisição de diversas competências).
            
Para pais e professores o brincar acarreta uma série de formas de ser, pensar e agir específicas das crianças, daí ser essencial para os educadores estarem atentos às manifestações dos seus educandos, pois as diversas brincadeiras são não só o confronto entre elementos do mundo real e do mundo fictício, bem como a exteriorização da criança segundo um código comunicativo bastante particular e variado que difere segundo o histórico pessoal, os estímulos, os recursos, os ambientes, as limitações e a cultura (passando de geração em geração).
            
Numa visão mais didáctico-pedagógica, não podia deixar de mencionar a ligação que existe entre o acto de brincar e o jogo (destaque para a figura de Karl Groos, 1899), sendo este último uma ferramenta indispensável ao desenvolvimento sensório-motor, cognitivo, afectivo, social e da saúde de qualquer indivíduo.
            
No concerne à instituição escola, é comum os professores recorrerem a diferentes jogos, em conformidade com os conteúdos curriculares e objetivos que pretendem promover dentro ou fora da sala de aula (é, ainda, corrente encontrarmos, nas escolas, as chamadas “Ludotecas”), utilizando-os como eficazes ferramentas de trabalho.
            
O jogo insere-se, portanto, numa das muitas possibilidades do brincar (marcando uma vez mais a ideia “brincando e aprendendo”). Na verdade, ambos mais do que actividades de entretenimento (de cariz funcional), inscritos no comportamento da criança, são, antes, parte de um caminho de maturação e de aprendizagem que a mesma percorre, sendo capazes de promover tempos e espaços de lazer, mas, também, uma variedade de desafios intra e interpessoais.
            
Para terminar, realço novamente a importância que o brincar exerce no pleno crescimento da criança, sendo por excelência a conjugação de vastas dimensões, nas quais a criança explora o mundo, adquire valores, supera medos, aguça interesses, desperta e interage (conhecendo-se e conhecendo o que lhe rodeia), à medida que nutre a sua aprendizagem. Tornando-se essencial, numa sociedade marcada pela inactividade, por pais oprimidos pela sobrecarga horária e por crianças, desde cedo, habituadas a estarem sentadas em frente a computadores e demais programas, haver uma (re) avaliação do conceito do brincar, na tentativa de se promover um equilíbrio dos contextos/ realidades e recursos que são disponibilizados à criança, com vista a que se reúnam as condições necessárias à sua prática. Não esquecendo que brincar é um direito. A criança pelo e no acto de brincar usufrui daquela singular essência da “meninice”. É criança.



Bibliografia consultada:
Borràs, Lluís (2001). Os Docentes do 1º e do 2º Ciclos do Ensino Básico: Recursos e técnicas para a formação no século XXI – Volume 2. Setúbal: Marina Editores.
Condessa, Isabel Cabrita, Org. (2009). (Re) Aprender a Brincar: da Especificidade à Diversidade. Ponta Delgada: Universidade dos Açores.
Vieira, Vergílio Alberto (2000). Do Alto do Cavalo Azul. Lisboa: Caminho.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Sou professora

por Rute Vitorino


Já lá vai o tempo em que a profissão de professor era bem conceituada.

Já lá vai o tempo em que todos respeitavam os professores. Em que estes eram considerados profissionais tão importantes como o médico e o padre da freguesia. Já lá vai o tempo em que se via no professor um ser detentor de autoridade e sabedoria.

Já lá vai o tempo em que o professor era respeitado…

Claro que nos dias que correm, não se pretende que o professor continue a ser visto como detentor do saber e como autoritário. Queremos que os alunos questionem e vejam no professor um amigo, um confidente…

Contudo, caiu-se no exagero. O professor é “gozado”, é desautorizado, é posto em causa, é inferiorizado em relação a todos os outros profissionais. São agredidos, física e verbalmente, em vez de se tentar o diálogo, para apurar a verdade e solucionar os problemas. Hoje em dia o professor tem culpa de tudo e nunca o aluno.

Não quero com isto dizer que todos os professores agem da forma mais correta em todas as situações. Simplesmente, que nós somos como qualquer outro profissional. Também erramos, claro, e não somos perfeitos. Mas tentamos dar o nosso melhor, para que amanhã possamos ver o nosso trabalho refletido em cada membro da sociedade. Pois é preciso não esquecer que, somos profissionais iguais a todos os outros, mas com uma pequena diferença, somos nós, professores, que formamos todos os outros profissionais.

Muitas vezes, quando andava na universidade, ouvia comentários um pouco desagradáveis. Comentários do género: “ ah, vais ser professora? Isto é fácil. O meu curso e a minha profissão é que são exigentes…” Inicialmente aborreciam-me bastante, mas depois comecei a sentir “pena” destas pessoas. Pois não percebiam que eram os seus professores que lhes estavam a preparar para enfrentar uma profissão “difícil e exigente” como a que tinham escolhido.


quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Solidariedade e partilha

por Rute Melo


Estamos na época do ano em que todos falam em partilha e solidariedade. Embora o velho ditado diga que “ Natal é sempre que um homem quiser”, a realidade é que a maior parte das pessoas só se lembra destes valores na época natalícia.

Como professora/ educadora cabe-me também a mim transmitir estes valores aos meus alunos. Fazê-los compreender que é importante partilhar o que temos, seja muito ou pouco, com quem ainda tem menos que nós. Que é importante ser-se solidário, dar sem olhar a quem, e sem ter o interesse de receber algo em troca daquela pessoa. Pois, afinal, partilhar também é receber. É receber a alegria e a gratidão de alguém que conseguimos, por vezes, com um pequeno gesto, fazer feliz.

O espírito de solidariedade e partilha são, entre muitos outros, valores que nós, professores, falamos com os nossos alunos durante todo o ano letivo, sempre que surge alguma situação específica, ou nas aulas de Cidadania. No entanto, é na época de Natal que se lhes dá mais relevância, principalmente, quando nas escolas se faz recolha de bens alimentares, para organização de cabazes, de brinquedos e livros usados, para serem doados a outras crianças; entre tantas outras iniciativas.



Felizmente, a escola onde leciono promove algumas destas iniciativas, e geralmente os alunos são bastante participativos. Contudo, qual não foi o meu espanto, este ano, ao ver as reações e comentários de algumas crianças quando abordadas sobre este assunto. Foi com muita tristeza que percebi que algumas das crianças com mais possibilidades económicas foram as que menos contribuíram e, pior que isto, não deram a mínima importância ao assunto. O importante, para estes alunos, era se no Natal iam receber ou não as ofertas que pediram aos pais, como por exemplo um mp4, um iPad, uma Play Station3, entre muitas outras coisas.

E eu perguntei-me “Onde está o espírito de solidariedade e de partilha destas crianças? Será que não ficou nada daquilo que nós lhes falamos sobre os valores?” Por outro lado, alegrou-me muito ver que alguns dos meus alunos, mesmo com certa dificuldade, conseguiram tirar, do pouco que têm, algo para partilhar com quem ainda tem menos que eles.

Talvez seja necessário repensar os valores. O modo como estes são transmitidos e postos em prática, não só pelos nossos alunos, mas também pela nossa sociedade em geral e, talvez, por nós próprios. Contudo, e voltando ao exemplo supracitado, de alguns alunos da minha escola, ainda existem grandes corações, onde cabe sempre mais um e onde impera a grandeza da partilha e da solidariedade.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

“Hoje a alegria não passou pelo meu coração”


por Manuela Livro

“Tia Lena, hoje a alegria não passou pelo meu coração” disse a Inês, uma menina de 5 anos com uns olhos enormes de ver o mundo.

O dia não correu nada bem na escola.
Estava no cantinho das histórias, tinha acabado de pegar num livro e a Amélia chegou ao pé de mim, tirou-me o livro e disse que estava na escola há mais tempo e por isso ela é que tinha o direito de ler o livro

No intervalo, as minhas amigas desapareceram e…
E o que fez a minha rica Inês?
Sentei-me na escada do pátio e fiquei assim.
Assim como?

Assim, e a Inês entrecruzou os braços, baixou a cabeça e fez cara de zangada.
Mas, então porque não foste à procura das tuas amigas?
Não fui porque veio a senhora auxiliar, disse-lhe que as minhas amigas tinham desaparecido e se me podia ajudar a procurá-las, mas ela disse-me que tinha outras coisas para fazer e que não tinha tempo para me ajudar.

Na hora de almoço, estava quase a acabar de comer quando tive vontade de ir à casa de banho e fui. Demorei um bocadinho e quando voltei a maçã que tinha deixado na mesa já não estava lá.
Tia, então não é mesmo um dia onde a alegria não passou no meu coração?
A tia Lena pegou na Inês, sentou-a no seu colo e disse-lhe com ternura:
Inês, vais prometer à tia que logo à noite irás recordar o dia de hoje, pedacinho por pedacinho e tenho a certeza que encontrarás algo de bom que te aconteceu.
A tia Lena despediu-se da Inês e foi para a sua casa.

No dia seguinte a Inês telefonou à tia, logo de manhazinha, e disse-lhe toda feliz:
Tia, descobri uma coisa boa que aconteceu ontem!
O que foi minha linda? Perguntou-lhe a tia.
“Salvei uma formiga tia”
Salvaste una formiga? Mas salvaste como? Questionou a tia Lena.
Olha, foi no intervalo. Quando estava sentada na escada vi que tinha uma fenda e que uma formiga ia para lá. Com medo que caísse, pus a minha mão à frente dela e ela subiu, subiu… e foi assim que a afastei da fenda. Vês tia, salvei a formiga e isso foi uma coisa boa que me aconteceu.
Inês, já pensaste que talvez a formiga quisesse ir para a sua casinha naquela fenda?
Não tia, se ela fosse para lá caía num buraco fundo e aí é que não podia salvá-la.

Nesta história real, a Inês, do cimo dos seus cinco anos, fez um relato sábio de ausências.
Ausência de um diálogo sereno com a Amélia e de uma lição de partilha.
Ausência do apoio que permitiu que uma maçã ganhasse vida e se evaporasse, sem explicação.
Ausência de educadores atentos à integração de uma criança num grupo novo. 

Como diz o cantor “a vida é feita de pequenos nadas” e, por isso mesmo, não podem ser deixados ao acaso.


Este artigo foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico