Blogue de divulgação cultural, escrito por 28 pessoas. Um texto por dia, todos os dias.
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terça-feira, 30 de abril de 2013

O ETERNO RETORNO


Com uma ajudinha dos conselheiros Acácios

por Luiz de Mont'André

 – Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá… O empréstimo faz-se ou não se faz?
E acirrou a curiosidade, dizendo para todos os lados que aquela questão do empréstimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episódio histórico!... 
O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respondeu, com autoridade, que o empréstimo tinha de se realizar «absolutamente». Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministérios era esta – «cobrar o imposto» e «fazer o empréstimo». E assim se havia de continuar…
Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, o país ia alegremente e lindamente para a bancarrota. 
– Num galopezinho muito seguro e muito a direto – disse o Cohen, sorrindo. – Ah, sobre isso, ninguém tem ilusões, meu caro senhor. Nem os próprios ministros da Fazenda!... A bancarrota é inevitável: é como quem faz uma soma…

Os Maias, claro, livro sempre e cada vez mais actual em mais lugares. 
Publicado em 1888. 
E o país foi, mas só em 1892. 
Outros tempos, mais lentos, mais remansosos, menos eficazes.
Sabe-se como agora é tudo mais acelerado e certeiro. E os conselheiros Acácios velam por que não haja mais delongas do que as estritamente necessárias.

Tempo é dinheiro.

sábado, 20 de abril de 2013

Para o leitor que leu tudo

por Rui Filipe

Talvez por uma extrema falta de criatividade, ou então por um gosto pouco saudável, dou por mim a falar de um tema, e de um herói, que já tratei anteriormente. Falo exactamente do Super-homem e de uma das múltiplas análises que é feita ao seu lado humano. Voltando a tratar, ainda mais outra vez, o senhor Alan Moore (que para alguém que tem o pouco discernimento de seguir as minhas entradas neste blog, nota que este autor causa em mim uma estranha devoção) e as suas histórias, neste caso debruçamos sobre o pequeno (algo que em nada influência o seu valor) For the Man Who has Everything.

Já falei anteriormente de uma história em que se expunha o homem de aço nos seus medos. Agora, mesmo voltando a haver uma manifestação da parte humana deste herói, esta ocorre, tal como o título indica em certa medida, a partir de uma outra coisa que sem nos aperceber também mostra em grande parte quem somos – os nossos desejos mais profundos.

Devido a um estranho plano, vemos um dos inimigos do herói aqui em causa a dar-lhe a coisa mais contra sensual possível, a obtenção do contentamento pela realização do que ele mais quer. Claro que de início, aliando a estranheza ao estranho, pode parecer um pouco bizarra a premissa de se dar o desejo mais profundo que se encontra presente do coração de um homem que voa, tem super força e velocidade, e que consegue cozinhar qualquer refeição a 5000 quilómetros de distâncias apenas com os olhos. Mas é exactamente aqui que nos voltamos a aperceber da verdadeira pessoa que está por detrás de toda aquela imagem heróica que é este símbolo da cultura popular.

Não vou, como é claro, dizer especificamente como é possível que tal se cumpra, e quais são os desejos em causa para o nosso Super-homem. Apenas direi que talvez seja surpreendente o resultado, especialmente quando, ao olharmos bem, notamos que há algo de estranho neste desejo concretizado. Acima de tudo, percebemos que possivelmente, para um herói, a sua visão do mundo e de si mesmo enquanto tomando este lugar é tal que, mesmo no seu maior desejo, já é impossível separar a imperfeição daquilo que é cobiçado. Porque afinal de contas, se um herói desejasse um mundo perfeito onde não é preciso heróis, então qual era o lugar do herói que deseja neste?

terça-feira, 26 de março de 2013

MERCEEIROS E ESPECIALISTAS ou O CLUBE DOS GRAMÁTICOS MORTOS ou como vos aprouver

por Luiz de Mont'André



Mais uma vez nas suas buscas internáuticas minha avó Georgina advertiu em artigo que a impressionou (desta feita sabe-se qual: semanário Sol, 19.02.2013), mas em sentido contrário ao de «Acertar», outro dia aqui comentado, – agora por ver tachar de «merceeiros dos tempos verbais» os professores de português que ensinam gramática, comparados com o que deviam ser: membros do Clube dos Poetas Mortos. Com tão nefando ensino e método, «a disciplina de Português é um crime contra o futuro», denuncia e alerta o articulista.

«Não fui educada nessas ideias!», comenta a boa velhinha, alçando o fino supercílio.      
E com efeito, chamar «merceeiros dos tempos verbais» a professores que ensinam gramática faz-me lembrar aquelas sumidades, ordinariamente economistas, que, quando um governo «ameaça» só de tentar pôr as contas em dia, logo o tacham de se limitar a fazer contas de merceeiro. Em Portugal, terra de gente altamente especializada, como oficialmente se sabe, os merceeiros parece que não andam lá muito bem vistos. Entretanto, vai dizendo e repetindo Henrique Medina Carreira, «um velho de aspeito venerando», que o que faz falta em meio de tanto especialista e tanto perdulário são donas de casa com as contas em dia.

Se o sacrossanto Jovem, como agora lhe chamam, não aprende gramática – que está para a língua, letras e humanidades como a matemática para as ciências – na escola, nunca jamais em tempo algum a aprenderá, e os resultados estão à vista todos os dias na miséria que por aí se vai gaguejando e escrevinhando na imprensa, rádio, tv e disco.

Para alguém poder esquecer a gramática, precisa primeiro de a aprender. Ora o pessoalzinho quer todo e logo ser filósofo e pensador e criativo, sem se dignar suar primeiro as estopinhas a apetrechar-se com o bê-á-bá.

Mas «a gramática vinga-se dos que a ignoram» (Lutero), e «Um homem é tanto mais livre em espírito quanto mais os seus gestos são regulados por um ritual, e a escolha das suas palavras por uma sintaxe rigorosa» (André Maurois).

Dá-se infelizmente o caso de que este ritual e esta sintaxe rigorosa não caem do céu. Aprendem-se com estudo e aplicação e mais ou menos esforço consoante as capacidades de cada aluno, – estudo e aplicação que implica sacrifício e enfado, quase por definição; e cultivam-se ao longo da vida com exercitação mais ou menos regular segundo a profissão e necessidade de cada qual.

Já a deliciosa Guidinha, que, ainda tão novinha, já sabia escrever com sujeito, verbo e caso, mas que fez a 4.ª antes do 25 do 4, se queixava de que «Nestas coisas da vida uma pessoa ou tem sorte ou não tem eu cá por mim tenho de confessar que não sou das que tiveram mais sorte e tudo porque comecei a tirar a minha instruçãozita primária antes das reformas contra-reformas sugestões de reformas propostas de reformas discussões sobre reformas questões sobre reformas estudos sobre reformas esperas por reformas e o mais que há sobre reformas e o resultado deste meu azar de ter começado a ir à escola antes de tudo isto foi que tive de estudar uma data de coisas para fazer exame da primeira classe mais uma data de coisas para fazer o da segunda classe mais uma data de coisas para fazer o da terceira classe e nem digo quantas coisas para fazer o da quarta classe para verem como as coisas eram tenebrosas até tive de aprender a ler para tirar a quarta classe o que mostra como a gente era perseguida torturada e maltratada nos tempos antigos» («Vou-me licenciar por obra e graça do Espírito Santo», in A Guidinha antes e depois, de Luís de Sttau Monteiro, 2004, p. 115; a falta de pontuação é por a Guidinha ser moderna...)

Quanto ao mais, frioleiras e votos pios da costumada bem-pensância oficial, que deu com os burrinhos na água – e na educação.

terça-feira, 19 de março de 2013

Take-away do submundo

por Rui Filipe

Para não me acusarem de qualquer tipo de anti-patriotismo (uma acusação que se calhar nem é descabida), depois de ter andado a mostrar o melhor que há tanto do outro lado do oceano como na nossa amigável ilha acima de nós, viro-me hoje para um dos grandes frutos da criatividade destas areias de Portugal. Na realidade, se calhar é um pouco prematuro colocar este rótulo na obra que decidi divulgar aqui, se olharmos com atenção percebemos que tanto o seu desenhador como colorista pertencem igualmente aquele conjunto de pessoas que vive do outro lado do oceano, mais especificamente na América do Sul. Porém, dado que o criador da história, que irei falar mais à frente, e toda a narrativa desta, pertencem ao habitat do peito ilustre lusitano, é bastante seguro rotular esta obra, que é de uma invulgar criatividade e entusiasmo nestas zonas, como pertencendo a estas terras. Para os mais entendidos na matéria, já percebem que estou a falar das Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy.



Se alguém neste momento está um pouco de pé atrás porque tem um estranho preconceito de que qualquer banda-desenhada europeia (e Portugal ainda é Europa) se trata de algo chato e introspectivo, em que basicamente existe muito diálogo e nu artístico, caso o nome ainda não o tenha feito, não tem que se preocupar com esta saga. Em vez deste cenário pouco apelativo, o autor Filipe Melo (alguém que por si só merece menção e que aconselho uma vista de olhos por todas as coisas que fez), ressuscitando em grande parte o espirito dos filmes de terror clássicos, traz-nos para uma Lisboa onde acima de tudo vive o fantástico e o terrível.

Eurico, um tanso alfacinha que inicialmente surge como um entregador de pizzas, encarna o papel de protagonista neste conjunto de histórias onde por obra estranha do destino encontra um dos investigadores mais bizarros que se pode esperar. Em conjunto com este, Eurico acaba por descobrir uma nova Lisboa e arredores onde, para além dos cenários que maior parte de nós conhecemos, também descobrimos toda uma população obscura que compartilha esta cidade.


Dado que supostamente somos seres humanos normais, a viver num mundo aparentemente natural, a única forma de aceder a esta face de Lisboa é pela nossa imaginação. Logo, a qualquer pessoa que queira conhecer uma nova visão deste local onde vivemos (chegando até a haver algumas referências á nossa amada senhora de Fátima), ou que então tenha apenas um gostinho especial por tudo o que tenha aquela aura do terror clássico, aconselho vivamente esta banda-desenhada. E já vai em dois números, portanto já há muito material suficiente para manter a malta ocupada!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Acertar

por Luiz de Mont'André



Juntamente com as boas-festas da «sazão, que sói ser fria», e está a corresponder ao costume, tornando ao que era, recebi há obra de um mês, por correio electrónico, um artigo enviado por minha avó Georgina, que o encontrou por acaso na internet quando buscava elementos sobre a missão diplomática do seu dilecto conde de Gobineau junto da corte imperial de D. Pedro II, no Rio de Janeiro.
Sim, Deus nos livre de paixões serôdias! Esta da pobre Senhora teve a virtude de a fazer sucumbir ao virtual, e ei-la percorrendo o ciberespaço em demanda de quanto se relacione de perto ou de longe com o autor das Pléiades.
Mas é ainda aprendiz nestas lides, e no copiar e colar acabou por perder a referência ao autor e sítio, jornal ou blogue de publicação do artigo, – que muito a impressionou pela clarividência da análise do «estado a que isto chegou», como ela diz. «Deve ser pessoa bem posicionada e que tem seguido de perto e com muita atenção a coisa pública nos últimos 20 anos. Fez-me lembrar aquele dito de Bertrand Russell, filósofo sobre lorde, de que a civilização consiste em prever e prover.»
Eu, mais uma vez, e ressalvando algum empolamento do estilo e defeito de português, abundo no parecer da boa Senhora, o que me costuma suceder com mais frequência do que talvez conviesse a um neto, como os meus amigos me vão significando, com alguma irritação mal disfarçada.
Mas vós direis.
Eis o artigo:
«O homem de Estado digno desse nome deve tudo prever, tudo calcular, – e ter sempre presente que os homens são homens nascidos com paixões humanas, e não anjos, abstracções ou princípios encarnados.
O interesse de quem tem o poder está todo e unicamente em acertar. Se não já por dever de consciência e de patriotismo, ao menos por egoísmo, por vantagem própria e individual, por ambição mesmo do poder, o esforço constante dum governo deve ser acertar. Entre nós tem-se visto governos [sic] que parecem absurdamente apostados em errar, errar de propósito, errar sempre, errar em tudo, errar por frio sistema. Há períodos em que um erro mais ou um erro menos realmente pouco importa. No momento histórico a que chegámos, porém, cada erro, por mais pequeno, é um novo golpe de camartelo friamente atirado ao edifício das instituições e da economia; mas ao mesmo tempo tal é a inquietação do futuro e do desconhecido que cada acerto, cada bom acerto, é uma estaca mais, sólida e duradoura, para esteiar [sic] a economia e as instituições. Toda a dúvida está em saber se ainda há ou se já não há, em Portugal, um governo capaz de sinceramente se compenetrar desata grande, desta irrecusável verdade.
Que resta pois? Resta, como esperança, o sabermos que as nações têm a vida dura, e que o nosso Portugal tem a vida duríssima. E se os que estão no poder porfiarem sempre em cometer a menor soma humanamente possível de erros e realizar a maior soma humanamente possível de acertos, muitos perigos podem ser conjurados e a hora má adiada.»
*
Calcular, prever e prover, acertar…
Enfim, já agora agradece-se a quem lhe saiba da origem – autor ou publicação – que por favor a queira informar neste blogue.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Histórias Extraordinárias


Por Rui Filipe

Até agora, no que toca ao meu tema predilecto dentro da minha curta participação neste blog, tenho andado a escrever sobre histórias pontuais, que sobressaem pela sua excelência, dentro de um mundo gigante coberto de inúmeras histórias pontuais. Mudando um pouco a estratégia, desta vez vou falar exactamente num desses mundos gigantescos, neste caso, o da Liga de Cavalheiros Extraordinários.

Para aqueles que conhecem esta saga (e não um certo filme horrível que aparentemente, na tentativa de “filmificar” este mundo, apenas suscitou apreensão por parte de qualquer ser humano inteligente que estivesse com intenções de ler a BD) é óbvio o porquê desta decisão. Mais uma vez, o já referido Alan Moore (senhor que, possivelmente por causa da barba, inspira grande admiração deste lado) apresenta-nos uma narrativa imprescindível, mas de tal forma elaborada, e com uma quantidade tão colossal de personagens, que seria impossível referir uma parte deste universo sem cair necessariamente em todas as outras.

Em vez do habitual pegar num herói já conhecido de banda-desenha, ou até o criá-lo de base a partir de uma gramática já conhecida neste meio (exposição a radiação ou origem alienígena), o autor terá aqui uma estratégia extremamente diferente. Apelando aos fãs de todo o tipo de literatura, e também aos amantes de referências que brotam desta, somos apresentados a um mundo onde as mais célebres personagens literárias ganham de novo vida para se envolverem nas mais variadas tramas.

Podem perguntar, e muito bem, como é que uma premissa tão inverosímil se converta na base destes contos. Aqui entra em jogo o nome da própria saga. Neste mundo, que em grande parte aparece no que eu gosto de chamar o mito do universo vitoriano, mas que se perlonga até aos nossos dias, surge uma liga, com  fim de proteger o império de sua majestade, composta pela mixórdia mais variada de sujeitos extraordinários.


É com este ponto de partida, que até pode parecer pouco apelativo, que somos introduzidos a um conjunto de aventuras onde as nossas personagens favoritas da literatura passada, desde a fantasia até aos policiais, voltam a existir como heróis e vilões. Trazendo uma mistura que, desenvolvendo um fantástica narrativa contemporânea tem, no entanto, um conjunto de referências e de personagens pertencentes a um mundo mais antigo, não existe nada melhor que consiga ao mesmo tempo fazer-nos recordar o nosso passado cultural sem porém cair num certo tom arcaísta que não traz nada de novo ao mundo (e mando o aviso, não vejam o filme baseado nesta banda desenhada. Em caso de o terem visto, as minhas condolências). 


(fujam a isto como se fosse o demo!)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Foster Wallace


Part II

Os medos

por Francisca Russo

Books

Eu não sei se isto acontece com muitos de vós, mas de tempos a tempos deparo-me com uma daquelas fases em que leio excelentes escritores, e fico tão centrada em absorver os seus benefícios que não sou capaz de escrever uma palavra que seja. Por isto, penso que não seja surpresa que este texto tenha requerido todo o esforço muscular de que o meu cérebro é capaz. 

Ontem, enquanto a minha tecla de delete era pressionada vezes sem conta, pensei que só havia uma coisa a fazer, ir ler. Ainda só me encontro nas primeiras 200's páginas do Infinite Jest para poder ser capaz de fazer uma crítica com alguma coerência. Contudo, de x em x páginas vão surgindo lições que parecem mensagens divinas para o meu desespero. Nomeadamente, numa das perfeitas descrições que F.W. faz sobre a essência do desporto de alta competição, ele descreve como é fundamental repetir constantemente certos movimentos até que estes saíam tão fluídos que quando a consciência começa a bombardear a mente com dúvidas de insucesso, o atleta não vai estar ocupado a coordenar o modo como se mexe ao mesmo tempo que lida com o terror provocado pelo medo.  Isto fez-me pensar em como tudo na vida que vale realmente a pena adquirir (sejam virtudes ou sucessos) requer um treino constante. Não digo que o talento não seja crucial, mas se este não for posto à prova, nunca sairá desse planalto familiar. 

Isto fez-me pensar que mesmo quando temos a sorte de presenciar o talento de outros, ainda que seja numa patamar longínquo do que esperamos alcançar, não o devemos usar como desculpa para não trabalharmos no nosso ofício. Seja este público ou privado, os limites e oposições são criados por nós mesmos nas áreas que mais gozo nos dão. Se há algo que a literatura faz, é pôr a nu o que muitas vezes gostaríamos de esconder sobre nós próprios, o que neste caso significa continuar a escrever até que o medo deixe de existir. 

domingo, 16 de dezembro de 2012

CHORUDOS MISTÉRIOS

por Luiz de Mont'André



Como de costume, li este ano mais um Camilo, prática que já vem de alguns anos a esta parte, a conselho de minha avô Georgina: «Quem a escrita quer melhorar a Camilo deve tornar.» Ou não pertencesse ela à segunda espécie de miguelistas na classificação da sobrinha progressista do reaccionário António Sousa Homem, outro macróbio camiliano com mais de dois carros de anos: «A minha sobrinha alega que apenas existem três tipos de miguelistas hoje em dia: o primeiro, é composto de remediados descendentes dos fidalgos transmontanos e minhotos; o segundo, constituído de leitores de Camilo (à falta do próprio Camilo); o terceiro, contando apenas comigo a representá-lo, sentado à mesa da biblioteca no eremitério de Moledo, manejando a velha Parker que herdei e que ela herdará. Conto que a caneta a faça um nadinha conservadora. O resto vai por si» (Um Promontório em Moledo – Crónicas de Um Reacionário Minhoto, Bertrand, 2011, págs. 151-152, «O Senhor Marquês de Chaves e Outras Minudências da Pátria»).

Pois este ano estou virado para os grandes romances: reli Guerra e Paz. Não, não se trata de repetir a consabida fórmula dos que só nos aparecem a dizer que releram isto ou aquilo, nunca que leram, o que incita a concluir que conseguem reler sem ler, apanágio por certo de adiantados mentais que assim realizam verdadeiramente a quadratura do círculo, de que um modesto leitor nada sabe – quod nihil scitur, como da «mui nobre e alta ciência» confessava o nosso Francisco Sanches, percursor de Monsieur Descartes. Mas Guerra e Paz já eu lera em tenra idade, já lá vão portanto bons anos (receio que os melhores), saga que conta bem as suas 1600 ou 1700 páginas, mas que o leitor só lamenta que não estire por outras tantas; e agora acabei de levar a cabo estes Mistérios de Lisboa, três volumes numa velha edição do Círculo de Leitores, aí de 1980, que fazem bem umas 750 páginas por junto.

Até hoje é certamente o romance mais chato que já li de Camilo, e eu já lhe li uns quantos, pelo que não será dizer pouco. Custou a acabar. Paradoxalmente este romance originou um filme de êxito do realizador chileno Raul Ruiz. Depois de acabar de ler esta chatice, custa a crer; mas, se calhar, no cinema, com outro ritmo, a coisa – quer dizer, o repolhudo melodrama ensopado de comoção e lágrimas de que desta vez Camilo usou e principalmente abusou – talvez seja tragável. Não sei, não vi, não quero ver, mas dou de barato que sim.

A obra parece provir mais ou menos direitamente do romance-folhetim Mistérios de Paris, de Eugène Sue, que em meados do século XIX conheceu um êxito tremendo e foi copiado por toda a Europa. Houve mistérios de Londres, mistérios de Berlim, e portanto, em Portugal, obrigatoriamente mistérios de Lisboa, da pena do nosso Camilo, que aproveitou a deixa e até reincidiu lá mais ao diante com outros mistérios, desta feita com os Mistério de Fafe; e até o velho Castilho, pena mais recta-pronúncia do que romanesca (embora aquilo não tenha necessariamente de matar isto: prova, o mesmo Camilo), lá se foi descosendo com os seus Mil e Um Mistérios, ambientados por sua vez na Bairrada (curiosamente disponíveis em linha!). Dos mistérios da Bairrada o mais sápido e sábio consta que continua a ser o do leitão à dita, regado com «frisante» frappé. E quem o experimentar dificilmente discrepará.

Estas boleias eram (continuam a ser) muito aproveitadas: por exemplo, à voga da Chute d’un ange, de Lamartine, e do Roman d’un homme pauvre, de Octave Feuillet, respondeu o nosso visconde de Correia Botelho com a sua Queda de Um Anjo, o seu Romance de um Homem Rico (e cuido que até com um Romance de Um Homem Pobre, a menos que seja tradução do de Feuillet), em que, valha a verdade, não pilhou ou inverteu senão os títulos. Reconheça-se porém que desde a invenção da imprensa e o advento da escolaridade obrigatória, reforçada pelos cursos de escrita criativa, o escritor novel não atina facilmente com títulos originais cabonde para baptizar com foros de novidade a sobejidão de partos espirituais da imaginativa, assim continuamente arroteada, de tanto cidadão – observa a minha boa avô, que me dá ainda conta do último caso de repetição de títulos de que teve notícia: a recente Création du monde, de Jean d’Ormesson (2006), depois da mais antiga Criação do Mundo, de Miguel Torga. Repetição certamente fortuita, mas por isso mesmo ainda mais significativa da inópia de títulos por estrear para tanto trabalhador intelectual, e da extrema dificuldade com que se debaterá neste particular a legião de autores registados na sociedade dos mesmos.

Os mistérios lisboetas foram publicado em folhetins no diário portuense O Nacional. São de Lisboa, mas vieram a lume no Porto. Pinto da Costa, se andasse por cá nesse tempo, havia de ter reclamado, sem falta. Informa Alexandre Cabral, no prefácio, que Camilo publicou estes folhetins no ano de 1854: foi o segundo romance do autor, tinha ele 29 anos, depois de se estrear com Anátema, já sem falar em Maria, não me Mates, Que Sou Tua Mãe! – um começo prometedor. Apetece dizer que já então parece que havia de ser o que depois foi; mas não: depois foi muitíssimo melhor.

Mas, quanto aos Mistérios, nem sei por onde começar: a história é uma girândola louca de acontecimentos e de personagens, a acção derrama-se pelas sete partidas do mundo: Portugal, França, Bélgica, Inglaterra, África, Japão, Brasil. É um mundo excessivo, sem lugar para a moderação nem para o bom senso rotineiro e feliz. Até as boas qualidades são abnegações heróicas, dignas de coroa e altar; dos crimes, então, melhor nem falar.

O livro é varrido por um vendaval de violência emocional e física que chega a incomodar. Com ressalva do incesto e do homoerotismo, reservados, três décadas depois, à imaginativa dos autores dos Maias e do Barão de Lavos, respectivamente, apenas haverá excesso nem crime que não apareça neste livro. Tudo tremendo, os pecados e a expiação obrigada.

Anacleta dos Remédios, bacalhoeira, leva a filha ao suicídio querendo dá-la por amante a um duque (imagine-se). Pecado tremebundo; expiação, portanto, terrível. A celerada, compenetrando-se da enormidade do seu flagício (Camilo havia de apreciar o vocábulo: vá em sua lembrança), arrasta-se depois descalça e rota pelos caminhos de Portugal, vagueando e rezando, ao frio, ao vento, à chuva, com o céu por tecto e as estrelas por luzeiro, e vai comendo de esmola só pão e água. Consome nisso anos. Boa saúde – férrea – devia de ter a penitente para aguentar assim tanta chuva e tanto frio com aquele mantimento. Leva anos até ser perdoada por Deus, e morrer então descansada, absolvida por padre Dinis. Este homem misterioso é a mola – o pivot, como dizem agora na TV – do enredo. Ao longo do livro vai acudindo a todo o lado, nem sucede episódio em que não apareça. É uma espécie de anjo do Senhor, «instrumento cego de Deus», escreve Camilo.

Resumindo: obra algo coriácea, nunca li nada de Camilo que deixe tanto que desejar. Desta feita nem sequer a língua escapa. Aos 29 anos o autor está ainda longe do seu esplendor como estilista e mestre exímio da língua portuguesa, e isso sente-se nestas páginas. Sente-se, e o leitor ressente-se da estafa maior da marca. Mas para o ano há mais Camilo, mormente o velho Camilo, ou pelo menos o de Coração, Cabeça e Estômago, A Queda de Um Anjo, Novelas do Minho, A Brasileira de Prazins, talvez a obra-prima, e, para a cascalhada grossa, as comédias do Morgado de Fafe Amoroso e em Lisboa, e sobretudo Eusébio Macário e A Corja, a arremedar os naturalistas da «ideia nova», e que compensam largamente os maiores desvarios ultra-românticos e outras verduras da mocidade. E, mistérios por mistérios, antes os de Fafe, mais puxados aos vernáculo, e em que sempre se vai exercitando alguma justiça da mesma procedência, para desfastio das demasias do sentimentalismo.

Não se recomenda pois a leitura destes mistérios alfacinhas, salvo que o leitor seja um fanático admirador do homem de São Miguel de Seide. Parece que o livro foi até recentemente um êxito de vendas, «coisa espantosa», para usar um título do seu autor. Aposto que, se muitos o compraram, poucos o terão lido até ao fim.

Terminam assim tantos mistérios: «Consegui o que o seu cadáver fosse enterrado na sepultura imediata… O mundo ignora que estas duas sepulturas são o leito nupcial daqueles dois desgraçados.»

Ah, o ultra-romantismo! Como se já não bastasse sem o «ultra». Depois disso o nosso homem melhorou muito; mas, convenhamos, aos 29 anos… Palpita-me que andaria ali míngua de saias com menos «mistérios», mais palpáveis… Sim, tais empolamentos melodramáticos costumam ser sintoma dessas carências. Ana Plácido ainda vinha longe. Também aqui, cherchez la femme, ou a sua falta. Um sujeito com o seu exutório e quantum satis do eterno feminino não sói cogitar muito em cemitérios…

Mas vou-me cerrando por onde comecei: não haja ano sem o seu Camilo. Langue oblige. E, nestes dias de medra do portinglês, mais do que nunca.


Pois não só a «gramática da vida», também a da língua pede tento e reflexão. E, cara Francisca, para se melhorar o conhecimento e domínio desta última, o único meio é conversar com mão diurna e nocturna o que Camilo chamava «caldeirada de favas clássicas, com as quais o espírito opila, mas a língua cresce». Ingerindo, esmoendo e digerindo dessas caldeiradas, entre as quais as da cozinha camiliana, a língua... são favas contadas.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Gramática da Vida

por Francisca Russo


Hoje não vos venho falar de nenhuma obra em específico. De momento, fiz uma breve pausa na minha leitura de Balzac para começar a ler Infinite Jest de David Foster Wallace. Esta obra foi recentemente traduzida para Português e, para quem ainda não conhece o autor, Foster Wallace é um daqueles escritores com tamanho domínio da língua e da arte de escrever, que simplesmente se pode dar ao luxo de brincar com as palavras o que reflecte na minha incapacidade de ler uma obra sua em Inglês (para já) apesar de me considerar fluente. 

Nestes últimos tempos tenho sentido necessidade de estudar com afinco a gramática portuguesa (pré-acordo ortográfico) que é o meu refugio quando sinto que não sei escrever, ou pior, que não tenho ponta por onde se pegue para expor qualquer tema. Esta minha táctica é um pequeno truque tenho para ultrapassar os bloqueios visto que de todas as vezes que leio mais sobre a nossa língua ou sobre a linguagem, em geral, encontro novos temas para explorar, nomeadamente, metafísicos. 

David Foster Wallace deu um brilhante discurso na Kenyon College, que vos convido a ler, sobre dois peixes que vão a nadar - como todos os peixes parecem fazer - até que aproxima-se um peixe mais velho e pergunta-lhes: "então rapazes! como está a água hoje?" - ao qual os outros retribuem o cumprimento como jovens educados mas que mais adiante, vira-se  um para o outro e pergunta: "mas o que é a água?". O que sempre achei curioso desta pequena história é o modo como retrata, realmente, a forma como a maioria das pessoas leva a vida. Do mesmo modo que existem aqueles que falam e utilizam a língua sem se darem conta das várias regras que estão a empregar instintivamente, o mesmo acontece com a maioria das pessoas que vive sem se dar conta de que está a viver. Com isto não quero dizer que uns sabem o segredo da existência por inteiro e outros não. 

A meu ver, se o homem em todos estes milénios de existência já tivesse encontrado o segredo para aliviar o peso da humanidade, já não estávamos cá. Contrariamente às teorias de Darwin, não sei até que ponto as espécies que entram em vias de extinção não serão as mais fortes. Por favor, aguentem um pouco enquanto elaboro antes de me atirarem com teses bolorentas. Aristóteles dizia que se o homem estivesse satisfeito não teria necessidade de se mover. Ora, o movimento é uma parte constante da vida. Vivemos uma junção de momentos presentes até ao dia em que a eternidade nos congela a nossa conta existencial e viramos pó das estrelas ou "da matéria de que são feitos os sonhos". Tendo isto tudo em mente, não serão essas espécies extintas seres que atingiram a perfeição? Estavam tão perfeitos para o seu propósito de vida tal como para o ambiente onde viviam? É por isto que acredito que a extinção é sinal de que certos seres atingiram o pináculo da existência e como tal, a natureza compensa-lhes o contributo com o descanso eterno. No caso do homem, deixei-me que vos diga que esta tão orgulhosa capacidade de "adaptação" mais não é que um sinal de que ainda temos um longo caminho a percorrer. Muito falta para nos integrarmos por completo na natureza em vez vivermos à sua margem. O Homem mais não é que um Caim ainda perdido na circunferência do seu umbigo e que se alimenta do seu ego ferido. 

Dedico, por fim, esta última nota a todos os "peixes" que tentam compreender a sua substância onde vivem. Já Eça dizia que com todos as árvores, pássaros e livros como é que alguém não pode estar sempre bem disposto? 

Desejo-vos uma excelente semana. 

domingo, 25 de novembro de 2012

Superman: o homem de carne e osso

por Rui Filipe


Mantendo a atitude que mostrei na minha última participação (e que espero vir a ser identificada comigo) volto mais uma vez a falar dessa mitologia contemporânea que é a banda-desenhada.

Desta vez, saindo da penumbra dos becos de Gotham, e olhando para as luminosas ruas de Metropolis, veremos agora o Homem de Aço que é possivelmente o herói de banda desenhada mais conhecido de sempre – o Super-Homem.

Tendo este título é quase impossível falar-se dele sem haver um grande conjunto de pessoas que já saiba bastante acerca deste herói. Conhece-se tudo: desde a sua introdução (“um avião? Um pássaro?”) até à sua origem alienígena, passando, pois claro, pelo seu amplo cartório de super-poderes quase ridículo. Porém, em tudo isto, existe uma parte importantíssima que é discriminada. 

Até aqui, isto que foi dito versa apenas acerca do Super que é a primeira parte do seu nome, a segunda parte mais importante, a do Homem, que faz o cerne do personagem, é muitas vezes discriminada pela maioria dos leitores. Ora, foi exactamente isto que estava na mente do grande autor Alan Moore (esse mago dos tempos modernos) numa das suas mais célebres histórias acerca do kriptoniano – Whatever happen to the man of tomorrow.

Eu bem disse que ele era um mago

Numa história, que é apresentada a titulo de hipótese, aparece-nos uma imagem invulgar – uma estátua póstuma em memória de Super-Homem num mundo onde as pessoas por vezes ainda vêm algo no céu, mas ou é apenas um pássaro ou é apenas um avião. Com um início tão inesperado só falta então saber todos os acontecimentos que o nosso herói viveu  perto da sua derradeira hora.

Tal como seria de esperar nada nele se apresenta em falha, continua a ser aquele símbolo altruísta incapaz de ser corrompido, tradutor de tudo o que é louvável na humanidade. Porém, por alguma causa desconhecida acontece o impossível – ele vê-se encurralado numa situação onde os seus piores medos tornam-se realidade. 

Os seus inimigos tornam-se incompreensivelmente violentos e, acima de tudo, começam a tornar aqueles que lhe são próximos como alvos.

 Isto, tal como foi salientado, não é um ataque ao heroi na sua supremacia, mas sim ao homem que se situa por detrás dele e que acaba por lhe dar forma. É neste contexto que surgem os momentos mais bizarros, mas também os mais interessantes, que se podem esperar numa banda desenhada em que um Super-Homem danificado nos aparece mostrando os seus medos mais secretos (que na sua maioria não divergem dos nossos). 

No que toca ao final de toda esta trama, querendo apimentar a curiosidade dos possíveis leitores, não falarei de nada em concreto, apenas direi que um homem sobre tensão acaba eventualmente por ter de abdicar de parte de si para poder continuar, seja super ou não.