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domingo, 7 de outubro de 2012

"Sobre a leitura"

Marcel Proust

por Francisca R.

Quando me foi proposta esta oportunidade de escrever para o id est, confesso que demorei algum tempo a decidir o tema para este primeiro texto. A literatura, para alguém como eu, torna-se num mundo de possibilidades a perder de vista. Alguns olham para esta como um meio de se exibir em eventos sociais de cariz intelectual (mais para o pseudo, se estiverem interessados na minha opinião), mas para mim, é o cerne da vida humana. Foster Wallace acertara em cheio quando disse que "fiction's about what it is to be a human being". A literatura, para aquele que estiver interessado em conhecer-se a si mesmo, torna-se num espelho do que devemos ver em nós mesmos a determinado instante e será este o foco de todas as análises literárias. Terei sempre o maior cuidado a julgar o conteúdo do que a forma.

Quando era mais nova, a minha mãe decidiu que o processo de passagem dos livros infantis para a escrita "adulta" deveria ser feita através de um pequeno livro que dá título a este post. Mais tarde compreendi a astúcia da minha mãe pois ainda hoje, dificilmente encontro melhores palavras que as de Proust para descrever a beleza da leitura e o que esta nos proporciona. Dificilmente farei uma crítica sobre a estrutura ou a semântica de um texto. Raramente me debruço sobre a gramática, gosto de me focar, exclusivamente, na concepção de ideias. A capacidade que uma boa narrativa tem para nos conduzir à resolução das nossas dúvidas ao mesmo tempo que as suas personagens desvendam o seu destino, é algo divino.
Marcel Proust, neste pequeno livro, faz uma analogia que traduz o impacto cativante que a literatura pode ter sobre nós, tornando-se esta num medicamento para o espírito. Para mim, contudo, a noção que mais me aliciou quando li esta pequena obra pela primeira vez, foi a ideia de que os livros tornam-se amigos que estão sempre presentes, capazes de nos contar em cada reencontro, uma nova história.


domingo, 30 de setembro de 2012

PLUTÔT UN CARESSEUR…


por Luiz de Mont'André
Armance, de Stendhal


Na manhã do dia 28 de Outubro de 1824, perto da Porta de Saint-Denis, no tempo em que Paris ainda as tinha, um cocheiro que por ali passava deu com o corpo de um homem estendido no chão, sem roupas e exânime. O homem parecia um cristo, de tanta pancada que apanhara. Fora atacado por um grupo de desconhecidos, que, depois de lhe malharem forte e feio, lhe levaram as roupas. Mas afinal não estava morto, gemia e, recobrando os sentidos, indicou uma morada aonde foi conduzido.
Tratava-se de um moço de trinta e poucos anos: cometeu a imprudência de apresentar queixa crime. O assaltante e seus cúmplices entregaram-se voluntariamente à polícia. Logo se descobriu a verdade: o jovem marcara encontro naquele lugar remoto com um hussardo ou um dragão que só aceitara o prazo-dado com o virtuoso fito de lhe partir uns ossos à laia de escarmento. O militar e seus camaradas vestiam o uniforme de uma unidade de escol, e a justiça deixou-os em paz.
Comenta aqui minha avozinha que, se fosse agora, outro galo lhes cantara; e mais não disse… Mas não receie o leitor benévolo que minha avozinha nutra alguma prevenção contra os que se dedicam ao… sentimento grego. Assegura a boa Senhora que não a incomoda o que discretamente fazem dois cavalheiros das suas portas adentro, ou até num discreto canto de jardim… A doce velhinha está perfeitamente à la page, como toda a gente.
Mas tornemos ao conto. Chamava-se o nosso rapaz Astolphe, marquês de Custine. Ficou famoso por ter escrito um livro de viagens: La Russie en 1839, em que pelos modos farejou que aquilo já então parecia o que depois foi ainda mais. Não é porém o livro que interessa agora; continuemos com o nosso Astolphe. Antes de preferir dragões, ainda arranjou tempo e disposição para ficar noivo da filha do general Moreau, da filha de Madame de Stäel e da filha da duquesa de Duras, duquesa que para vingar a filha escreveu Olivier, romance anónimo que conta a história de um «amante platónico por natureza» que serviu de modelo ao romance que aqui nos traz: Armance de Stendhal.
É a história de outro jovem aristocrata, Octave de Malivert, visconde, belo, educado, espirituoso e… razoavelmente incapaz de levar a coisa até ao fim. Gosto muito de Stendhal, um dos meus escritores favoritos, mas confesso que este romance me deixou uma impressão mista: a primeira parte custou a despachar; a coisa porém começa a animar aí pelo meio do romance, com cenas e diálogos de grande brilhantismo, do melhor Stendhal, do mais fino retoque de que a prosa francesa foi capaz. Exemplo: o bilhete do marquês de Créveroche ao nosso herói Octávio: «J’ai, naturellement, Monsieur, assez de mépris pour toutes les affectations, on en voit tant dans le monde, que je ne m’en occupe que lorsqu’elles me gênent. Vous me gênez par le tapage que vous faites avec la petite d’Aumale. Taisez-vous. J’ai l’honneur d’être, etc…»
Isto tudo porque o nosso Octávio se meteu no caminho do digno marquês nos seus esforços, aliás infrutíferos, de enfeitar o marido de Madame d’Aumale. O homem até tinha alguma razão de estar amofinado, já que o nosso Octávio era um tipo da categoria dos empatas, ou seja, nem… avançava nem saía de cima. Mas isso são pormenores; o que importa é o duelo que se seguiu àquele simpático bilhetinho: a meu ver, a parte mais interessante do livro: a elegância da escrita chega à afectação, o que no contexto vem ao pintar. Sai ferido o nosso Octávio; mas, depois de despachar o marquês de Créveroche, ainda tem a presença de espírito de dizer: «Ce n’est qu’en fat de moins.» Mister se faz reconhecer: o moço tinha-os no lugar; só que, por infelicidade, não funcionavam onde sobretudo deviam…
Se esta teoria de Stendhal colhe, ou seja, se o homem passou a vida a escrever sobre si próprio, e não só sobre o que era na realidade, mas principalmente a idear como gostaria de ser, suspeito que ele se entreteve principalmente com esta última actividade. Se esta tese procede, então o problema do nosso Octávio de Malibert não seria de todo ignoto de Stendhal. Aliás, esta triste ocorrência explicaria muita coisa na sua vida social e sentimental, a sua relação algo problemática com as mulheres. A principiar pelo o amor apaixonado que votava à mãe, e o ódio ao pai, o exemplo mais acabado do um clássico complexo de Édipo descrito na sua autobiografia Vie de Henry Brulard, obra-prima de que um dia falaremos, em havendo oportunidade. Curioso: o nosso Octávio tem justamente uma mãezinha, a quem também adora… Perpassa por todo o livro um saber de experiências feito, muito significativo a esta luz.
Stendhal sempre teve uma relação muito problemática com as mulheres, sempre foi incapaz de manter amantes por muito tempo. Pondo isto em linguagem chã: foi sempre levando com os pés… Ora uma boa explicação para isso pode vir das suas deficiências nesse particular campo da alcova, tema a que por alguma coisa consagrou um capítulo («Fiascos»), a ressumar experiência, no seu De l’Amour. Ou, usando a expressão de Simone de Beauvoir acerca do seu Sartre, o homem était plutôt un caresseur qu’un fouteur (e vamos e venhamos: haverá língua como o francês para falar de amor!), o que acaba sempre por desconvir a toda a senhora, por muito compreensiva que seja. Deve ter sido um drama para o nosso romancista e uma estopada para as eleitas, primeiro todas transportadas pela conversa espirituosa de Monsieur Henri Beyle e pela teoria e exemplos dos seus livros, e à certa confita confrontadas com o seu desempenho au lit.

Epílogo
Octávio, ferido no duelo, «compromete» Armance, suave menina das relações de sua mãe, apaixonada desde a primeira linha pelo nosso visconde. Ora, como naquele tempo diria a marquesa de Merteuil das Liaisons dangereuses, lá muito do caro Stendhal (que julgo chegou a conhecer o respectivo modelo): soit belle, si tu peut; vertueuse, si tu veux; mais soit considérée: il le faut. Beliscado pois l’honneur, segue-se o casamento coonestador – funesto passo. Octávio, a seguir à sua boda, foge à doce e natural consumação, embarca para bem longe, suicida-se três dias depois...
Deixou de empatar. Um pouco tarde…            

domingo, 29 de julho de 2012

O MAIOR ESFORÇO DA IMAGINAÇÃO HUMANA


A Cozinha Cristã do Ocidente, de Álvaro Cunqueiro
29.07.2012.M


         Se em igualdade de talento um escritor francês será infinitamente mais conhecido que um espanhol, que fará se o espanhol escrever em galego? Deixa-se este paralelo, já outrora sugerido por Ortega, à imaginação do leitor reflectido, que certamente o actualizará estendendo-o, já agora por maioria de razão, aos escritos em inglês, de que o exemplo inultrapassável (até ao próximo…), segundo me noticia minha avó Georgina num intervalo da enésima leitura do seu conde em que por desfastio folheou uma gazeta, será a Sr.ª E. L. James, dona de casa inglesa que se tirou dos seus cuidados domésticos, pegou em si e na pena ou tecla, e da noite para o dia botou romance que já vai em não sei quantos milhões de exemplares vendidos, desbancando olimpicamente a sua compatriota dos feiticeiros, primeiro, e a dos vampiros depois, e ameaça ultrapassar a mesmíssima Bíblia, parece que só com assoalhar a anatomia da personagem Grey em várias e mui esmiudadas posições: portanto, ela, sim, exibindo literalmente a… anatomia de Grey. E, depois de contar It’s raining men (and women), bem pode cantar It’s raining money. Sim, leitor perplexo (no melhor dos casos), ensinaram o bê-á-bá ao respeitável público, mandam boa parte dele para universidades, institutos e escolas de toda a casta e pinta, onde aguça o engenho e aperfeiçoa o gosto tirando cursos cada vez mais céleres (e celerados, rosnam os malédicos), e depois escolhe e «consome estes produtos», como agora se diz de tudo: mercearia ou poesia. Aí tens o belo resultado de uma educação democrática.
                  
         …Mas a resposta mais que óbvia patenteia-a o caso de Álvaro Cunqueiro, nado em Mondoñedo, Norte da Galiza, tão próxima de nós em geografia quão desconhecida em artes e letras desde os tempos idos da lírica galaico-portuguesa. Tínheis porventura, já não digo lido, mas ouvido falar de Cunqueiro? Nem eu. Corrijo: ecoava-me vagamente na memória uma referência numa das crónicas com que o actual secretário da Cultura, também apreciador dos prazeres da mesa, costumava ir lembrando discretamente alguns caminhos menos frequentados dos leitores e até editores. Foi o suficiente porém para que, quando numa feira do livro se me deparou o título em epígrafe entre tantos outros, pelo menos o abrisse e folheasse. E imediatamente o comprasse: já não apetecia fechá-lo, antes continuar a sua leitura em lugar retirado e cómodo para melhor a saborear e digerir, de preferência com o adjutório intermitente de um desses licores e néctares de que nela se fala, e enquanto a mão vai passeando deliciada pelo sedoso pelo do velho gato obrigado em toda a casa.
    
Porque é de um prazer que se trata: a prosa de Cunqueiro, repassada de harmonia e suavidade, sensibilidade e bom senso, temperada de ironia – «o mais perfeito fruto da humana inteligência», – mas também de ternura – timbre da grande arte, segundo Proust, – inclui-se entre as que, como as queria o nosso Eça, realizam por si sós «uma absoluta beleza». Com efeito, como resistir a uma pena que ao já quase obrigatório e cediço ateísmo opõe o fino asteísmo, ao sórdido hedonismo a clássica eutrapelia, e à ordinária aravia o estilo mais consumado?

Mas… «ternura» a propósito de uma obra sobre cozinha?! Sim, leitor suspicaz. Nesta obra deparar-se-te-ão tradições culinárias e vinícolas do Ocidente, mas também os seus fautores e intérpretes ou representantes, conspícuos uns, obscuros outros, nem todos cristãos por aí além, e outrossim a cultura, histórias e anedotas que foram tecendo, todos considerados com o mesmo olhar compreensivo, benigno e deliciado do nosso autor, que, como verdadeiro senhor à l’Ancien Régime só parece pôr reservas às demasias, quer do rigorismo: «As aguardentes de Armagnac são como as boas aguardentes de Ribeiro. Quando Calvino esteve por lá, não provou uma única gota, e creio, em consciência, que este é um dos argumentos de maior peso contra o Calvinismo»; quer das invencionices e assepsias modernistas: «Nos vinhos, tal como na cozinha, não se pode inovar…» «Ficámos à espera, e confiámos no seu saber culinário, no seu espírito exigente de gourmet, ramo de que estão excluídos os liberais, porque o diálogo não tem cabimento na cozinha, e é preciso ser fiel à letra, à santidade e veracidade das receitas comprovadas: por vezes, inovar num molho é como acrescentar umas pinceladas em Las Meninas» «Provavelmente o decreto é muito bom do ponto de vista asséptico, o que é culinariamente, como se sabe, um ponto de vista falso. Os excrementos de corvo do Turquistão são absolutamente necessários para fixar o almíscar, e os jane galupí dedicados ao comércio de Samarcanda consideravam que o depositado pelo corvo pela manhã nas mãos delicadas, suavizadas com gordura de galinha, das suas mais jovens esposas é que era excelente. Os sucos do estômago de uma lebre mantida com fome durante o cio eram necessários, na pastelaria bizantina, para dar à compota bizantina de cerejas esse cálido aroma que um poeta ousou comparar com o próprio perfume do amor.»

Entre essas tradições da cozinha ocidental e seus fautores, que vão do Sacro Império ao Português passando pelo país galego, merecem especial atenção do nosso autor as de França, tanto na culinária como na vinicultura. O que bem se compreende, pois de todos é conhecida e reconhecida a supremacia da mesa francesa, talvez ainda mais do que a da sua literatura. Já o advertiu o bom epicurista Anatole France: «La cuisine française est la première au monde. Cette gloire éclatera par dessus toutes les autres quand l’humanité, plus sage, mettra la broche au-dessus de l’épée.» E, ainda não há muito, E. M. Cioran, romeno e portanto com voto mais isento, atestava que aprendera duas coisas com os Franceses: a escrever e a comer. A julgar porém pelas recentes manifestações da literatura, palpita-me que a tradição se manterá já agora mais na culinária… Seguem-se pois vários capítulos, mormente sobre «os sumptuosos sumos daquelas províncias cristãs»: «A mesa do rei de França», «Apresentação dos vinhos de França», «Os vinhos do Hospital», «O tonel do rei», «O rei das adegas de França»: «Le vin est mieux qu’une boisson, c’est un dieu. Assim começa o Senhor Conde de Clermont-Tonnerre o seu elogio dos vinhos das Gálias». Destes contudo, e ao invés do que parece mais corrente, o palato do nosso gastrónomo demora-se e praz-se mais nos da Borgonha do que nos de Bordéus, como já também Guy Debord, o mentor do Maio de 68, que sabia do que falava: pois, se escreveu menos do que a generalidade das pessoas que escrevem, bebeu mais do que a generalidade das pessoas que bebem. E este vosso criado também vos pode assegurar que de uma pequena estada em Tours lhe ficou especialmente na memória e gosto um Châteauneuf-du-Pape, «o primeiro de todos os vinhos para as grandes tardes outonais, quando o vento do oeste já passeou o grande rebanho das folhas secas».

Mas também as tradições de Portugal e seus cultores: se nós desconhecíamos Cunqueiro, esse desconhecimento não é mútuo. Aí estão a comprová-lo os capítulos «…E Lisboa», «Da China para Portugal, «Teoria do bacalhau», «Tertúlia de aves para assar», e várias referências especialmente ao pescado: «Os gastrónomos portugueses sempre pretenderam que fosse concedida aos linguados lisboetas a primazia sobre todos os linguados de todos os mares do Mundo. Uno a minha voz à deles»; «Outra capitania que Portugal não cede é a do bacalhau. Quando os lugres zarpam para a Terra Nova, com a bênção do cardeal-patriarca, todo o apetite português assoma ao Tejo para lhe desejar uma pesca feliz»; «Os direitos portugueses e a primazia da cozinha bacalhoeira começam em Sebastião Palhação, o inglês, o inventor do bacalhau com natas, o rei dos bacalhaus no forno, com pão ralado, queijo e cálice de vinho do Porto. Isto e o folar de Chaves eram o que Eça de Queirós pedia para descansar das comidas puríssimas do fidalgo Galeão. Como sobremesa pedia arroz-doce com muita canela.» Mas também à doçaria: «A única pastelaria europeia que conseguiu, nos seus tempos, competir com a eslava foi a lisboeta. Ananás, canela, banana, açúcares de cana, frutas de África, da Índia e do Brasil vinham para as pastelarias de Lisboa.» Sem falta dos imprescindíveis presunto, capão e folar: «Bragança pretendeu ser uma espécie de Sedan no tempo dos Bulhões. A serrania dá-lhe uma severa e forte cozinha, uns presuntos excelentes, uns capões soberbos, gordurosos, suaves, de pernas curtas, como os príncipes de Bragança. Em Bragança bebe-se vinho da Madeira à saúde de António Nobre, o poeta que tinha os pés gelados pela Lua que ilumina a torre de Anto…»; «Camilo Castelo Branco recomendava que perante um grande capão de Trás-os-Montes, colocado no meio da sua mesa minhota, flamejado com aguardente velha que trazia no seu corpo a memória em tanino de todos os carvalhos de Portugal, úteis para navios e barricas, se fizesse mentalmente a biografia da ave, desde o momento em que o pintainho saíra do ovo até ter sido vendido na feira da Barcelos, e desde que entrava no forno até, na mesa, o próprio Camilo o trinchar…»
   
Toda a iguaria porém, por mais deliciosa que se ofereça, é sempre tomada não só como alimento, mas sobretudo como ensejo de jantares e ceias conversáveis, em que os comensais prolongam os prazeres da alegre convivência e da boa companhia demorando os da mesa: «Comam pausadamente, bebam de vez em quando. Foi o meu bispo Guevara quem recomendou trazer para estas refeições familiares, como coisa boa, histórias da casa, acontecimentos de antepassados, casos da juventude dos mais velhos presentes. Tudo isso autoriza um pouco mais de vinho. E, pelo amor de Deus! mantenham-se nestes assados, contra as pílulas vitamínicas de encher com que nos ameaçam. Defendam o vaidoso pato, protejam – especialmente – a grande pintada. Exijam o capão de capoeira dourado como um lusitano… E que toda a família se sente à mesa, tão irrepreensivelmente como nos tempos antigos, quando ainda existia isso que se chama família. As duas coisas, assado e família, fazem parte de uma ordem que eu me atrevia a chamar celestial.»
             
Enfim, depois de ler só estas notas sobre cozinha não parece muito a opinião da escritora brasileira Nélida Piñón, prémio Príncipe de Astúrias das Letras de 2005, num vídeo que corre no You Tube, de que Álvaro Cunqueiro compendia toda a literatura europeia, e que bem merecia ter recebido o Nobel (resta saber se o Nobel o merecia a ele…). Compêndio aliás que parece espelhado já nos próprios títulos das suas obras, quer em galego, quer em castelhano: Cantiga nova que se chama Riveira, Merlín e familia, O Incerto señor Don Hamlet, Se o velho Sinbad volvesse ás ilhas, Baladas de las damas del tiempo pasado, Las mocedades de Ulisses, Un hombre que se parecía a Orestes, Vida y fugas de Fausto Fantini della Gheradesca, etc.
           
Leitor amigo, quando fores ou tornares pelos caminhos de Santiago de Compostela, prolonga a tua peregrinação, agora no signo da literatura e da gastronomia, até Mondoñedo, terra a que bastou ser berço de Álvaro Cunqueiro para representar um alto lugar das letras e da cozinha. Cozinha que, certo, como outras coisas da ordem dos sentidos – libido sentiendi, na expressão de Pascal, – também melhor será experimentá-la que explicá-la; mas, depois de saboreada, nada perde e muito ganha em ser assim contada e cantada.

Porque «a cozinha é o maior esforço da imaginação humana. Ninguém duvide».

domingo, 22 de julho de 2012

Da doença e da cura dela, “O Mal de Montano” – Enrique Vila-Matas





Pois e hoje o remanço é do lar esse afrodisíaco de eleição da leitura, entre os rumores de gente que espinoteia cabriolando as férias que ansiou e agora  esbanja na curva do sol, na esquina do quotidiano que se tornou de repente não mais que veraneante ou nem isso, que é por dever ser que agora ali está carregadas as prateleiras das chamadas, oh tristeza, leituras de verão.

Tudo isto a propósito ou a despropósito da literatura da vida e da morte dela nesta era digital ou o que é o mesmo dizer: O Mal de Montano, Enrique Vila-Matas.

Livro que li nestes dias de aflição , de modorra e de calor para que brisa suave da  loucura  lúcida, nos sopre as ideias empoeiradas do convencional. Ora bem pois será uma leitura de qualquer época do ano, uma leitura feita de leituras dentro de leituras dentro de leituras, onde perdemos o conto aos personagens que são reais ou nem por isso ou assim-assim ou afinal eram sombras chinesas das almas que não dominamos.

O mal de Montano é o ar do tempo, o ar da literatura, a doença de quem acha que só com literatura a vida vale a pena. Quando a vida se espelha nos livros é uma calmaria, reencontramos os nossos dizeres que nunca foram ditos porque não o sabíamos ou podíamos fazer, mas partir da literatura para a vida isso  é uma doença... O mal de Montano... Suspender a vida pelos pés e fica a ver quanto tempo ela se aguenta assim suspensa no ar rarefeito da literatura. Encontrar Kafka, Montaigne, Gide, Pessoa, Dali,  Walser,  Michaux,  Pavese, Pitol, Rebard, Sebald, através dos seus diários íntimos, e visitar o Pico e o Faial com olhos que não existem em quem vê a vida sem literatura., encontrar quem??

Encontrar o homem novo no Pico, o Teixeira,  a solidão das ilhas sempre desertas,  a vida que mais não é que andar de ilha em ilha... Encontrar Lisboa, Cardoso Pires,  Hermínio Monteiro meu pessoal e saudoso amigo...

Um turbilhão  de avanços e retrocessos, em que o que parece normalmente não é, em que o que é agora pode nunca ter sido ou sê-lo desde sempre.

Não nos guia Vila-Matas, empurra-nos, rasteira-nos, fustiga-nos, mostra-nos o abismo, assoma-nos a vertigem, sufoca-nos, suspende-nos.

Raramente vi capa tão bem conseguida. Assusta-nos de repente a morte pendurada, com a leve suspeita de que algo não está certo. teremos coragem de ver melhor, com detalhe o abismo? Salvamos a literatura? Vila-Matas propõe-se salvá-la, o contrario do que faz em “Dublinesca” que lhe concede as exéquias...

Mas salvamo-la para quê? De quem? Quem assim a trucida?

Afinal, digo eu num eterno retorno ao que era simples e se conjurou em artifícios  burlescos,  ela é que nos salva da falsa simplicidade da aparência.

Não fora a literatura, quem seriam os outros?

Quem seriam os  que padecem do Mal de Montano?

Que(m) afinal somos nós a final?

domingo, 15 de julho de 2012

O Sul na volta do correio - ou coisas que já lá vão (indo)


Às vezes – as mais das vezes – é para o lado que me dá, ou seja, para o Sul.
Bate-me o sol na fonte da preguiça, e fico com o azeite, os alhos, os coentros, tudo a laurear aos dias. Agitam-se-me na vista searas douradas que o zéfiro vai ondulando em direitura de uma faixa azul, lá longe. Engulo a saliva que a imaginação tempera de sal e azeitona. E entrevejo uma casa branca, de piso térreo; pressinto gaivotas e velhos dentro das tabernas, uma nuvem de moscas secular…

 Certo, tudo isto ideal, e, tirando-lhe o branco das casas e a carícia do sol, fica-se com o Norte. O Sul, miragem de uma outra margem, já não existe, devassado, trespassado que foi por aguilhões de betão, por bocas hiperbóreas e vândalas consumido: – consumada a waste land. O pouco que resta poupou-o somente a sua mesma exiguidade para albergar as hordas imbecis de veraneantes.

Resta-nos o nosso Sul pessoal: o lugar dentro na gente, a sul de nós mesmos, onde mora e demora o tempo, a memória e o sentido… Que o outro Sul não volta.

E o velho correio, cada vez menos…

Rebenta lá fora uma tempestade súbita: avisos vermelhos à população e toda a parafernália de alertas, cuidados e caldos de galinha… É quando sabe melhor o remanso da sala, a ouvir as persianas agitando-se às estocadas do vento furibundo. No outro sofá, uma pilha de revistas aguarda leitura próxima. Entre elas, a LER do mês, dedicada à críptica Agustina, que me enviou minha avó Georgina, num intervalo das suas leituras do seu dilecto conde.

Uma delícia, receber revistas pelo correio! Ameniza a solidão e atenua a secura da correspondência bancária/tributária tão cinzenta como o cinzento receptáculo de onde a extrai-o diariamente. Apesar das troadas arcanas da nossa sibila – diz-me minha avó, senhora fiel à velha escola das ideias claras e distintas à Monsieur Descartes, ce chevalier français qui s’en allait d’un si bon pas, que a boa da autora segue e pratica na escrita a maneira do pato na água: ambos mergulham de vez em quando, e então deixamos de ver um e de entender a outra, até que lá assomam uns metros ou frases à frente, e mais imaginamos a custo do que sabemos ao certo por onde andou a ave, e o que disse a romancista, – apesar disso, sempre é um pouco do velho mundo, do ar do tempo real que vem até nós. E neste caso, também a lembrança da vovó: com a sua idade canónica, mas sempre alerta, ainda se vai dando ao trabalho de ir aos correios e espraiar a sua bela letra no rosto do sobrescrito que intrépidos carteiros do bom Portugal e do vetusto Reino de Leão e Castela trazem até ao meu exílio asturiano. Em dias tão propensos ao ruído, ao estrépito e movimento inútil, estas relíquias do tempo da boa senhora dão um gosto pausado ao quotidiano.

Dantes, recebia cartas a rodos, todas de solícitas amigas, que me proporcionaram as primeiras alegrias postais. Com o advento do email, onde estão as cartas de outrora? Adeus, cartas de amigas. Bem aviado estaria eu se dependesse somente de vós a minha vida sentimental! A morte da carta, do papel, do «Cara Maria Eduarda», etc., também representa a extinção de mais um e bom pretexto para se escrever, e para se escrever bem: para mimar e apurar a língua. Já nem falo da abjecção das caligrafias que por aí grassam, degradadas por uma uniformização de estilos quase orwelliana. A caligrafia bem merecia uma nota à parte, mas vou já denunciando a infâmia que se está a fazer ao ensino da letra manuscrita…

Tudo isto só para lamentar que, qual coronel de Gabo, já ninguém me escreve. Pior: quando me escrevem, dou por mim a desejar que o não tivessem feito, tal a qualidade da escrita com que me obsequiam. Certo, vão restando sempre as tais honrosas excepções da praxe. Para essas, restará também sempre um postal na volta do correio. Os outros que façam por merecê-lo...


domingo, 8 de julho de 2012

Ofidiofobia

por Mita Jacinto

Gerard Castello-Lopes


Há quem diga que nunca há-de ler, que leu e não gostou ou mais frequentemente que não consegue ler, mas eu cá muito para mim duvido se alguma vez leram ou tentaram ler sem antes terem decidido o que iam sentir ou precisavam de não sentir que isto de sentimentos tem muito que se lhe diga e a ninguém é lícito querer fazer seus os sentires dos outros ainda que se ache com toda a razão do mundo, se é que o mundo tem alguma, por pouca que seja, mas também quem é que pode saber uma coisa dessas, ou mesmo quem é que está interessado no discorrer sobre tal assunto, interesse interesse sim só esse em aprender alguma coisa ou passar o cursor para baixo, que seca, que tem isto a ver com literatura, tanta letra fechadinha por aí fora e a pontuação uma miséria quem e que se lembraria de coisa assim, pois bem ainda assim mais um esforçozinho que isto de ser diferente afinal por vezes tem surpresas e novos mundos, uns que acabam outros que começam.

Disse o revisor, Sim, o nome deste sinal é deleatur, usamo-lo, quando precisamos suprimir e apagar, a própria palavra o está a dizer, e tanto vale para letras soltas como para palavras completas, Lembra-me uma cobra que se tivesse arrependido no momento de morder a causa, Bem observado, senhor doutor, realmente, por muito agarrados que estejamos à vida, até uma serpente hesitaria diante da eternidade, Faça-me aí o desenho, mas devagar, É facílimo, basta apanha-lhe o jeito, quem olhar distraidamente cuidará que a mão vai traçar o terrível círculo, mas não, repare que não rematei o movimento aqui onde o tinha começado, passei-lhe ao lado, por dentro, e agora vou continuar para baixo até cortar a parte inferior da curva, afinal o que parece mesmo é a letra Q maiúscula, nada mais, Que pena, um desenho que prometia tanto, Contentemo-nos com a ilusão da semelhança, porém, em verdade lhe digo, senhor doutor, se me posso exprimir em título profético, que o interesse da vida onde sempre esteve sempre foi nas diferenças(...)

Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não ouvia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como só dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de mugidos e rugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo.

Dos escritos (...) não se aclara a dúvida sobre que língua terá sido aquela, se o músculo flexível e húmido que se mexe e remexe na cavidade bucal e às vezes fora dela, ou a fala, também chamada idioma de que o senhor lamentavelmente se havia esquecido e que ignoramos qual fosse, uma vez que dela não ficou menor vestígio, nem ao menos um coração gravado na casca de uma árvore com uma legenda sentimental, qualquer coisa no género amo-te, eva. (...) tudo pode ser. (...) o senhor quis comprovar que o seu erro havia sido corrigido, e assim perguntou a Adão, Tu, como te chamas?, e o homem respondeu, Sou Adão, teu primogénito, senhor. Depois, o criador virou-se para a mulher, E tu, como te chamas tu, Sou eva, senhor, a primeira dama, respondeu ela desnecessariamente uma vez que  não havia outra. deu-se o senhor por satisfeito, despediu-se com um paternal Até logo, e foi à sua vida. então, ela primeira vez, adão disse para eva, Vamos para a cama. (..) mas a rotina conjugal, agravada, no caso destes dois, pela nula variedade nas posturas por falta de experiência, já então se demonstrou tão destrutiva como uma invasão de carunchos a roer a trave da casa. por fora, salvo alguns pozinhos que vão escorrendo aqui e ali de minúsculos orifícios, o atentado mal se percebe mas por dentro a procissão é outra, não tardará muito que venha por aí abaixo o que tão firme havia perecido.

(...) quanto ao senhor e às suas esporádicas visitas, a primeira foi para ver se adão e eva havia tido problemas com a instalação doméstica, a segunda para saber se tinham beneficiado alguma coisa da experiencia da vida campestre e a terceira para avisar que tão cedo não esperava voltar, pois tinha de fazer a ronda pelos outros paraísos existentes no espaço celeste.

Acabastes de ler os inícios de “História do Cerco de Lisboa “ e de “Caim” do polémico nobelizado José Saramago.
Dizíeis então exactamente o quê sobre Saramago?

José Saramago, CAIM, Editorial Caminho, 2009, Lisboa, pp. 11-14
José Saramago, HISTÓRIA DO CERCO DE LISBOA, Editorial Caminho, 1989, p. 11

domingo, 1 de julho de 2012

Um Faraó em Paris

por Luiz de Mont'André

Mendigos e Altivos, de Albert Cossery

Tenho adiado a redacção definitiva das notas respeitantes a este livro, por pura perplexidade. Quer dizer, há já muito tempo que um livro me não deixava tão enleado, estupefacto até. Apesar de descobrir vários fios condutores, várias pistas, não consigo atinar com um quadro geral explicativo que me satisfaça completamente.

Livro que me foi oferecido e muito recomendado por minha avó Georgina da Encarnação Bettencourt de Medeiros, suave senhora de mais de oitenta anos, mas ainda e sempre desperta para as coisas boas dos livros e da vida. Foi o primeiro Cossery que li; tenho mais um em português: Os Mandriões no Vale Fértil, que comprei por tuta-e-meia em qualquer feira do livro, já lá vão alguns anos; depois encomendei as obras completas no texto: inevitável.

Mas tornemos ao livro propriamente dito: o que primeiro salta à vista é o estilo. Imperioso, ler o livro em francês; duvido que uma tradução lhe faça justiça à perfeição do estilo. Representa um hiperfrancês tão depurado e simples no seu equilíbrio, que talvez só um estrangeiro o pudesse escrever tão bem, quer dizer, tão desligado do que uma língua tem de material e instrumental. Reza a lenda que o nosso autor apenas escrevia uma linha ou duas por dia, o que lhe dava muito tempo para ponderar bem as palavras, como quem dispõe da duração dos antigos impérios egípcios, de que descende. E tempo não lhe terá faltado: nem quotidiano nem casado e, suponho, pouco tributável, viveu os seus últimos 60 e tal sempre no mesmo quarto de hotel, no coração de Paris, em pleno Saint-Germain-des-Prés, dispondo realmente de todo o tempo do mundo.

Há-de haver muito de verdade nisto, que por outro lado faz lembrar mais um estrangeiro a escrever em francês igualmente depurado: o romeno E. M. Cioran, que viveu e escreveu também em Paris, a escassas centenas de metros e na mesma altura do nosso egípcio, com quem se parece não só em língua, mas em filosofia e mundividência. Os livros de um podem olhar-se como casos práticos da teoria do outro. É pelo menos um paralelo que se recomenda ao novo Plutarco destes autores ilustres. Fique a pista. 

Minha avó Georgina, senhora mui perspicaz, sugeriu, e eu concordo (como quase sempre: quando discordo, venho a descobrir que errei escusada e portanto lamentavelmente) e eu concordo em que se trata de uma paródia ao romance Crime e Castigo, de Dostoievski, autor muito lá de casa, ou hotel, do faraó Cossery. O leitmotiv é o assassínio de uma rapariga; as semelhanças porém acabam aqui; o resto cifra-se na inversão completa da obra do grande russo. Com efeito, enquanto Rodion Romanovich Raskolnikov mata por dinheiro uma velha onzeneira sem préstimo visível, só com o fito de custear os seus estudos e ascensão social, Gohar, o nosso herói ou, mais à moderna, anti-herói – um velho sábio que inverteu na sua pessoa a ascensão almejada pelo outro, pois de professor universitário desceu por moto próprio e alta recreação pessoal a contabilista da maison de plaisir de Set Amina, a madame respectiva, – Gohar suprime Arnaba, a boazona do alcouce, por nenhuma razão especial, por uma álea muito… aleatória: estava aborrecido, sentia falta de droga, em linguagem carocha: «ressacava», enfim em calão psi: estava «descompensado». E a complacente Arnaba, que lhe pedira que lhe escrevesse uma carta para a família nas berças, até se propunha pagar-lhe de boa mente e em espécie o pequeno serviço… 

Arnaba, que, vamos e venhamos aqui entre nós, merecia melhor sorte – e sobretudo melhor uso. Realmente, a mais dos dotes do corpo, não lhe faltavam as prendas do espírito: saiu-lhe um dos mais finos e acertados ditos do livro, dito corroborado pela história e experiência antigas e modernas, e livro em que aliás abundam: «Quand on a un beau derrière, on n’a pas besoin de savoir écrire.» 

À semelhança de Crime e Castigo, também Mendigos e Altivos são um romance moral, só que a insinuada pelo seu autor é uma moral alheia à costumeira. Como no clássico russo, ao crime segue-se todo o caminho até à expiação e redenção; aqui porém não é o criminoso o «redimido», mas sim o polícia lilas ou, mais à moderna, gay, que resolve abandonar uma vida dedicada ao cumprimento do dever e, no fim do livro, mudar-se em mendigo.

Nos Mendigos o humor depurado é um estilo e uma arma; ironia, irrisão, escárnio, tudo é usado para solapar o mundo moderno e seus valores mais correntes, numa visão do outro lado do espelho

Pois também Cossery fez a sua Umwertung aller Werte, a sua reavaliação de todos os valores, não foi só o bom Fritz (justamente outro dos autores do panteão pessoal do nosso homem), embora não exactamente no mesmo sentido, nem tão-pouco diametralmente oposto. Aqui o inimigo público número um é o trabalho rotineiro (the curse of the drinking classes of our country, como já muito antes advertira o delicioso Óscar, mas curse que minha avó assevera ter-se entretanto abatido especialmente sobre as classes abstémias), que exclui a nonchalance reflexiva, só ela geradora do summum bonum: a paz e harmonia, a contemplação e compreensão do mundo. Uma pulsão filosófica que vem dos finais do mundo antigo e helenístico, dos cínicos gregos em particular, mas que continuou a latejar noutros bons espíritos de eras não menos clássicas: «À ociosidade do sábio só falta um melhor nome, e que meditar, falar, ler e estar tranquilo se chamasse trabalhar»: insuperavelmente, La Bruyère. Nem deixa de ser significativo que um egípcio, um homem vindo de uma civilização antiquíssima, seja tocado por semelhante postura antiga. E não só egípcio, mas também copta, logo gnóstico: o livro regurgita de alusões endereçadas aos iniciados happy few

Em Cossery o humor depurado é um estilo e uma arma… Não terminemos pois sem realçar e apontar ao leitor curioso alguns achados. – A eleição do burro para presidente da câmara: era um asno muito pensativo e respeitado, a ponto de ser eleito, creio que por unanimidade. (Comenta minha avó que perante o panorama actual será caso menos extraordinário do que ao primeiro lance pode parecer ao olhar desprevenido.) – O edredão, em certo hotel, única peça de roupa de cama que servia todos os hóspedes na mesma noite, mas à vez, passando deste para aquele à medida que cada um ia aquecendo e adormecendo. – O mendigo que se recusa, muito escandalizado, a receber de uma só vez a esmola toda de um mês, não o tomem por funcionário público. – O homem-tronco: um varão desprovido de membros, mas não do membro, e que pelo visto o usa com tal e tamanha destreza e proficiência, que são as mulheres que se enciumam por ele, não ele pelas mulheres, numa vida radicalmente dedicada ao sexo. Este homem-tronco bem podia parafrasear o dito da boa (em mais de um sentido) Arnaba: quand on a un beau… Etc.

Sim, amigo Alberto, arvorar o trabalho, a eficiência e eficácia nos últimos fins da existência parece mais de formigas ou abelhas e outros insectos do que de homens conversáveis. A escravidão reveste mais formas do que Proteu. 

E só a beleza importa.

domingo, 24 de junho de 2012

Carlos de Oliveira (1921-1981), Finisterra

por Mita Jacinto

Aço na forja dos dicionários
as palavras  são feitas de
aspereza:
o primeiro vestígio da beleza
é a cólera dos versos necessários

Mãe  Pobre, 1945


seguindo o fio
da tinta
que desenha as palavras
e tenta
fugir ao tumulto
em que as raízes grassam,
engrossam, embaraçam
a escrita
e o escritor.

Micropaisagem, 1969


O neo-realismo, a intervenção que não recusa, antes assume e paulatinamente vai aprofundando até ao seu último romance “Finisterra – paisagem e povoamento”.

Ler esta prosa poética resulta numa estranheza íntima que não se percebe logo porque nos mergulha com aquela criança sentada no osso de baleia que teimosamente pretende reconstruir, de variadas formas, copiadas no entanto da obsessão familiar que a criança mimetiza, a paisagem do peso da alma que a assola.

Estranha-se que a casa e o jardim desgrenhado e de contornos mais incertos que as dunas em contínua progressão percorridas elas, o jardim e a casa pela salinidade da bruma que regurgita túrgida pelas gisandras dela prenhes.

Estranha-se que os silêncios dos diálogos não nos atinjam a dormência da alma mas se atirem como  areias grossas como penedos, contra a mica das janelas.

Estranha-se sobretudo que a criança e a família se tenham transformado na casa, no jardim e nas labaredas lá longe que reverberam nas dunas.

Estranha-se que este romance nos transporte a cada leitura à perfeita magia de um mundo que só a literatura poderia ter criado.

Estranha-se que fiquemos para sempre presos na vontade de reproduzir aquela paisagem, tão individualmente íntima e secreta. Fomos um dia aquela criança. Ai de quem nunca mais o seja. 

Fotografia por Mita Jacinto