Blogue de divulgação cultural, escrito por 28 pessoas. Um texto por dia, todos os dias.
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domingo, 18 de novembro de 2012

E Óscar Tinha Razão

por Luiz de Mont'André



Por que persistirá em nós a lembrança de certas criaturas com quem, feitas as contas, pouco privámos, em verdade mal conhecemos, e pouco ou nada nos influíram, e se esvai a de outras que nos foram muito mais efectivas, senão decisivas?


Foi não sei há quantos anos, numa noite de sábado como tantas outras, ao balcão dessa tasca da Rua da Atalaia, a Leitaria Belita (Tasca Azul para os não iniciados), que por assim dizer tropecei em Fraulein Dorit Slaby, berlinense incógnita que desbastava a poder de abafadinho os momentos inaugurais de uma pândega que ela prometera a si mesma. No estabelecimento taberneiro, as conversas cruzavam-se habitualmente com a naturalidade de um cruzar pernas, e já não sei precisar de que forma o nosso grupo, já algo mais avinhado do que permitiria a ética protestante e luterana, chegou à conversa com Dorit, o que em tais conjunturas faz parte do protocolo da noite ou noitada e, como diz o francês, va de soi.

Uma ressaca e poucos dias volvidos, seríamos uns quantos reunidos num apartamento o seu tanto escalavrado, também no Bairro Alto, precisamente na Rua da Rosa (de camiliana memória: nasceu ali o «bruxo de Seide», o que se pode figurar algo inesperado a quem o associe principalmente aos sertões e fidalgotes nortenhos; mas a verdade raro é verosímil, e, sendo berço a um príncipe da boémia e das letras, parece que já então o Bairro se preparava para ser o que hoje é…), prontos para receber a sua lição gratuita de alemão, e donde havíamos de sair sempre com a roupa e cabelos polvilhados do estuque que ia caindo do tecto qual neve no Monte Branco, e perplexos e piscos por entre bárbaras declinações teutónicas.

A personalidade e figura excêntrica desta pequena alemã, combinada com um percurso pessoal atribulado, despertavam-me vagas reminiscências de não sabia eu que personagem literária, paralelo que durante anos não logrei apurar. Nada se lhe conhecia de seu, e muito provavelmente nada possuiria dos burguesmente chamados bens da fortuna: ganhara uma televisão em certo sorteio, que vendeu imediatamente para subsistir em Portugal durante uns meses. E vagueara um pouco por todo o mundo, dos arrozais cambodjanos às florestas finlandesas, sempre à custa de expedientes tais e quejandos.

Não obstante, a sua postura perante a vida e os outros antes se diria francamente aristocrática. Sem horas certas para nada, cultivava um total desprendimento dos compromissos assumidos. Desprezava toda a ambição que fosse além do dia seguinte, do próximo bródio. Depois de partir, jamais escreveu a alguma das suas amizades, apesar das facilidades oferecidas pelo correio electrónico, mas igualmente sem que ninguém lhe guardasse rancor por isso, até ao dia de hoje.

A pouco e pouco, na correnteza de algumas visitas a Berlim, fomos-lhe sabendo a infância, passada no Bloco de Leste, o padrasto polaco, o câncro vencido, um maxilar reconstruído, etc. Enfim, um vale mais de lágrimas do que de rosas.

Até que lhe perdemos o rasto…

Dizia eu mais acima que durante muito tempo não atinei com a criatura livresca que esta rara avis in terra me evocava. Foi então que este desaparecimento súbito acabou de me restituir a figura inefável de Holly Golightly, personagem igualmente mirífica, a transcender a realidade da sua condição impressa no livro do primoroso Truman Capote e a materializar-se ante os meus olhos na figura intangível e fugaz da amiga alemã!

Afinal, existem, ou, como diria, e aliás disse, o grande Wilde: «Life imitates Art far more than Art imitates Life… Life holds the mirror up to Art, and either reproduces some strange type imagined by painter or sculptor, or realizes in fact what has been dreamed in fiction.» 

domingo, 11 de novembro de 2012

Gonçalo Manuel Tavares (n.1970)

por Mita Jacinto

(«nuca», Gérard Castello-Lopes (D.R.)

Há instantes em que a realidade desconexa, se desliga das premissas lógicas que normalmente intuímos como certas, da vulgaridade com que tomamos a vida de todos os dias, ordenada sem arrepios ou sobressaltos de maior que afectem a banalidade risível das coisas.

Mas na verdade, a realidade para cada um de nós não é assim: saltamos de um para outro assunto, entrelaçamos pensamentos em histórias reais ou imaginadas das personagens conhecidas ou não, com quem nos cruzamos, temos uma vida interior em que, como agora se diz, se desconstrói a cada momento a linearidade primária em que bocejamos as mais das vezes, produzindo enviesadas sinuosidades que nos fazem crer que afinal somos diferentes do comum dos mortais.

Trazer à luz os mundos interiores de que cada um é tecido, através das artes, nomeadamente da literatura, é obra não ao alcance de muitos escribas. Expressar através de palavras sentires de cada um de nós, de uma forma que nunca antes havíamos pensado e reconhecer nela a diversidade de que o mundo é feito, só raros o conseguem. Conseguir surpreender a cada livro, inovando o que já antes se achou original sem bizarria, só me apercebi como leitora, em português, com Saramago, Nuno Bragança, Lobo Antunes, Virgílio Ferreira e agora Gonçalo M. Tavares.

Ler “água, cão, cavalo, cabeça”, prosseguir por “Um Homem: Klaus Klump”, devorar “Jerusalém” cirandar pelo bairro dos génios e emocionar-se com “Uma Viagem à Índia” é uma obrigação que nos devemos pelo respeito que nós e os outros nos impõem.

“Uma bala entra na pedra. Faz buraco. Animal impaciente e rápido (a bala). Nos tijolos de pedra contamos uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete. Sete balas. Umas por cima das outras. E há pelo menos mais uma que acertou no menino. E uma outra que acertou no pai.
O pai tentava protegê-lo dos tiros, mas não protegeu o filho todo. Não lhe tapou por completo o corpo com o seu corpo. Também se encolhia, ele próprio, o pai. Porque o pai não é a mãe. Ao todo, no mínimo, nove balas. Duas que mataram dois seres vivos, e sete balas na pedra (…)”
“água, cão, cavalo, cabeça”, pag. 37. Ed Caminho

“ Quando se está preso, uma das vontades é urinar para cima de uma árvore. É completamente estúpido, mas penso vezes sem conta nisto. Com o pénis entumescido e a bexiga cheia, chegar ao pé de uma árvore e urinar. Apenas isto.
Aqui dentro a natureza usa farda e tem botas, e por vezes até é simpática. E o mais difícil de suportar é quando eles são simpáticos. Quando o inimigo é simpático é sinal que somos completamente inofensivos. És tão fraco que até o teu inimigo te ajuda (…)”
“Um Homem: Klaus Klump”, pag 77. Ed. Caminho

domingo, 4 de novembro de 2012

La Comédie Humaine - Balzac

por Francisca R.


Agora que o ano está a chegar ao fim, apercebo-me de que não cumpri completamente as minhas resoluções de 2012. Todos os anos estabeleço uma lista de livros que quero ler nos próximos 12 meses. Por vezes sigo por esse roteiro, outras vezes, fico-me a meio. 

Este ano decidi que ia enveredar pela leitura da La Comédie Humaine de Balzac. É com alguma vergonha que admito que ainda só vou no segundo. Porém, a leitura deve ser saboreada com alguma calma de modo a podermos usufruir de todos os seus benefícios. 

No primeiro volume, como em todos os outros que lhe seguem, são-nos apresentadas várias personagens em pequenas histórias e cenários diferentes. Por vezes tão aliciantes que me vi levada por uma profunda tristeza quando certas personagens ficaram para trás. É o que aconteceu com as personagens em  Mémoires de deux jeunes mariées

Todo o enredo é conduzido através da correspondência entre Louise de Chalieu e Renée de Maucombe, duas amigas que se conhecem num convento e que após renunciarem, ambas, à vida dos serviços religiosos  prometem continuar a união das suas almas através da troca de cartas. Antes de aprofundar a essência que as torna no ponto máximo do primeiro volume do autor francês, tenho que sublinhar a deliciosa narrativa e a profundidade  com que ficamos conhecendo tanto as suas vidas exteriores como interiores, apenas e exclusivamente, através das sublimes descrições que ambas fazem reciprocamente sobre o mundo que as envolve.  

Não irei conceber um resumo desta narração epistolar, mas antes, criar uma ponte destes casos particulares para a vida da mulher, em geral. Tema arriscado mas que me traz para um ponto que penso ser necessário: Balzac descreve, a meu ver, ambas as personagens sob uma luz especialmente importante para as  mulheres que sintam que a sua força de carácter não tenha sido devidamente apreciada no mundo actual e na história do ser humano. Estamos habituadas a um ideal de mulher emocional, frágil e por vezes levada aos desequilíbrios de um temperamento inconstante e mesquinho, mas raramente encontramos descrições dos casos que tornaram essas "fragilidades" no pináculo da sua grandeza. Tanto Louise como Renée demonstram que existe algo de profundo e extremamente poderoso nesta vulnerabilidade feminina. Cada uma segue por um caminho diferente, no entanto, somos levados a conhecer o paralelismo da virtude e moral de ambas.  Os sacrifícios sofridos por Louise e Renée mostram que a mulher, seja qual for a identidade que procure para si mesma,  não deixa de sofrer sozinha na sua própria sensibilidade e por vezes tremenda necessidade de amar para lá dos contornos de si mesma. Este ponto é visto nesta obra através de uma luz que celebra a possibilidade de existir estoicismo numa alma que é sensível ao invés da imagem que é projectada comummente de incompatibilidade entre ambas as coisas. 

Sem prosseguir muito mais - até porque espero que este pequeníssimo vislumbre vos incentive a ler a obra - Balzac faz uma descrição perfeita dos caminhos que uma mulher de fortes convicções pode seguir ao dar a sua vida em prol dos que ama, ainda que tenha de prescindir de uma liberdade material, é-lhe concedido o respeito por parte daqueles com quem convive e recebe a paz de espírito resultante da actividade da alma que se sente livre em qualquer circunstância.  A sua sensibilidade não a torna em nada mais que uma força capaz de dar à luz aquilo que a vida tem de melhor. 

domingo, 28 de outubro de 2012

Batman - Na busca da Loucura


por Rui Filipe


Antes de começar aqui a disparatar, que é o mais provável, gostaria só de agradecer à pessoa que teve a bondade, e a enorme coragem, de me convidar a escrever neste blogue (dando assim a possibilidade de alguém descobrir em mim um talento secreto, que eu não consigo).

            Como me vejo a escrever pela primeira vez aqui, decidi pegar num herói de banda desenhada, neste caso o Batman, de forma a tratar um tema ligeiro bom para começar aqui as minhas participações - a loucura (o titulo já tinha estragado a surpresa).




Na verdade, quando se trata um tema a partir de um herói deste formato, é preciso fazer só uma pequena observação prévia. O Batman, mesmo sendo um daqueles símbolos da pop-culture que toda a gente sabe mais ou menos quem é, no entanto, tem a característica de ninguém saber realmente como ele é. Isto dá-se não tanto por um problema interno do próprio personagem, mas antes porque os heróis deste género podem ser trabalhados de formas diversas pelos autores que neles pegam. Existe certamente um conjunto de elementos comuns, mas já a forma como estes são elaborados muda de autor para autor, dando assim um gostinho muito especial a este género que defendo ser também literatura.

Seja como for, o Batman de nenhuma forma foge a esta regra, até aos dias de hoje já foi tratado de inúmeras maneiras, porém, na década de 80, deu-se algo de singular. Até então a ideia de uma homem que se vestia de morcego, tal como seria de esperar, era tomada de ânimo leve. As histórias eram no mínimo apalhaçadas e o seu propósito não ia muito além de fornecer um ligeiro entretenimento a quem pegasse nelas. Mas então surge no tempo referido uma reviravolta que se pode sintetizar com esta pergunta – O que está implicado no facto de alguém cair num extremo tal como é visto nestas bandas desenhadas? Isto abriu um campo gigantesco de possibilidades: o papel e, acima de tudo, as características da mente do herói. A análise desta última trouxe uma conclusão arrepiante – este herói não está completamente são, existe um trauma na sua vida que o danificou a tal ponto que ele se tornou numa quiméria incapaz de uma vida normal.

Esta última ideia, que teve um começo subtil, chegou à sua melhor forma no conto sublime de Grant Morrison - Arkham Asylum: A serious house on a serious earth. Em vez de ver-mos a imagem apolónia do herói ou, no mínimo, o apalhaçado senhor que se veste de morcego, temos uma macabra sombra negra na qual habita um homem que é incapaz de se libertar desse exterior, uma “fortaleza de carne que não consegue sair duma postura defensiva” segundo a descrição do autor. Mas esta caracterização não se fica por aqui, devido a uma insurreição no manicómio o “herói” em causa vê-se forçado a entrar numa viagem onde, ao ser confrontado pela loucura dos seus inimigos, lentamente se apercebe do quão semelhante ele é deles, ou que então que ele, tal como uma doença, é um factor de insanidade naqueles que o rodeiam.

Não, não é o Lex Luthor, é mesmo o
autor, Grant Morrison
Como contraponto de toda esta narrativa temos a história paralela da ascensão à loucura do criador do próprio manicómio - um homem no qual a loucura é como que uma herança deixada por uma mãe num estado senil. É nesta segunda narração que toda a história vai buscar a sua riqueza e se compreende o próprio empreendimento do herói. 

É aqui que se encontra a expressão do conflito sempre presente que habita em todos os homens – o mundo luminoso da razão contra a noite da irracionalidade. E, para surpresa nossa, apercebemo-nos que este conflicto não tem um lado preferível. O mundo da noite não é o do aleatório e do sem porquê, esta por si mesma comporta um nova vivência incapaz de ser conhecida por todos aqueles que vivem na pequena prisão da sanidade. É só quando esta última se quebra no eterno confronto que conseguimos aceder à simbologia e à lógica da irazão.

[texto editado a pedido do autor]

domingo, 21 de outubro de 2012

BOM TEMPO NO CANAL


Dispensa subtítulo





Já se sabe, é costume sempre observado, e porventura ainda mais correntio nesta admirável Idade Mídia: o Lusíada esclarecido – que hoje é como quem diz: informado e sobretudo informatizado – conhece primeiro a última novidade literária (mas não só nem principalmente literária) bifecamone ou franciú, e até colombiana, russa, arábica, indiana, nipónica ou chim, ou de qualquer lugar ou lugarejo da dita «aldeia global», do que os autores nacionais do cânone. Já por causa desta balda velha e relha o austero Herculano, lá das suas oliveiras de Vale de Lobos, desabafava que entre os Portugueses o país mais desconhecido era Portugal.

É o fado. E será cada vez mais. Até à descaracterização e absorção total mediante a vampirização e substituição das línguas nacionais por esse novíssimo tipo de esperanto: o inglês de aeroporto e portátil, na via recta, mas não direita, e cada vez mais célere e celerada da expansão e imposição universal.

Eu também pecador me confesso… Seja pois disto exemplo, e péssimo, este vosso servo, que, nado e criado na «ocidental praia», não somente lusitana, mas até açoriana, só pouco há leu Mau Tempo no Canal, obra certamente canónica do romance português, que tão conseguidos conta muito poucos. Exemplo e demora tanto mais repreensível quanto nem o televisivo Se bem me Lembro… me lembrou de procurar as obras do seu autor! Valha porém mais como atenuante do que como desculpa a então pouca idade, senão mesmo a pouquidade, deste telespectador desatento.

Pois em Vitorino Nemésio, e peculiarmente neste livro, que só lamentamos seja o único romance entre as suas obras, depara-se-nos o exemplo, raríssimo na literatura portuguesa, do autor que não se inculca ou julga como superior ao mundo e personagens que cria ou apresenta, antes se nos mostra em uníssono ou consonância íntima com a sua criação.

Esta sintonia e paridade exclui-a quase sempre a ironia sobranceira e distanciamento constante em Eça; ora o sarcasmo, ora a idealização em Camilo; e, em menor medida, o excesso de pitoresco e sobrecarga vocabular em mestre Aquilino. Só porventura em Júlio Dinis se topará análogo afinamento do romancista com as suas personagens pelo mesmo, por assim dizer, diapasão vital. Esta compreensão de raiz da sua terra e gentes – mundo aqui presidido pelo cume do Pico, aureolado de nuvens em mutação constante a oferecer as mais variadas figuras e formas à contemplação das «ilhas que estão em frente» (e que, no dito feliz de Raul Brandão, são o que têm de mais belo), no triângulo geográfico mais romanesco do país: «O Pico estirava no negrume a sua enorme massa de lavas, que o dia costumava pintar docemente de lilás e de azul. Uma ou outra luzinha acusava agora na costa e nas vertentes da montanha as calhetas adormecidas, a porta de um botequim, a janela de algum pescador doente ou de um Sr. Laurianinho da Terra Alta ou de Santo Amaro, entretido a fazer as contas do vinho, da fruta e da lenha, à mesa patriarcal, com a ponta da coberta arredada. O Pico era aquilo: aquela Terra Santa aproada a sueste e carregada de vinhas, de baldios, de barcos-de-boca-aberta, de bofage e de iscalho de baleia, com gentinha ainda a pé, mães ainda firmes e belas para lá do oitavo filho, velhos com barba de metro, rapazes prontos para uma cana de leme ou para um báculo de bispo no Padroado do Oriente e felizes com qualquer destes destinos… – tudo isso debaixo de 3000 metros de “mistério” coroados de uma agulha de neve. E o Faial, em frente […]» – esta compreensão de raiz da sua terra e gentes implica a correlativa assunção e resgate da sua circunstância sem superioridades irónicas, reais ou imaginárias, nem sarcasmos desclassificadores; dispensa comprazimentos exagerados no folclore e cor local; e requer o concurso da natural empatia e ternura do criador com a sua obra e criaturas: apanágio este da grande arte, no sentir de Proust, que sabia do que falava, por o ter amplamente espelhado na sua obra, na sequência de outro grande da arte do romance, Tolstoi, talvez o maior de todos (God’s eldest brother, como lhe chamou Paul Johnson). Nem será por mero acaso que Nemésio nos informa de que Margarida Dulmo andava a ler Ressureição.

Atitude pessoal ou consciência ou posição estética, ou ambas, que se espelha na própria visão de algumas personagens, como o episódico Dr. Sérgio Alves, deputado pelo Pico em Lisboa, e que, ao contrário de Nina, «que tinha uma questão pessoal, um pouco afectada, com a pátria açoriana, detestando os ajuntamentos de Santos e recusando-se a ler o Portugal, Madeira e Açores», «Sérgio Alves vivia os tipos e coisas das ilhas com uma delícia imediata, sem se desarticular do meio reproduzido senão pela vaga experiência de uma vida mais larga. As suas saborosas evocações tinham um mínimo de crítica e perspectiva; por isso se mantinha típico, terroso, como parte integrante de todo ilhéu. Falando com o sotaque insulano, sabia tirar partido do pitoresco das palavras e exagerava a fala cantada e doce do Faial». Mas também os protagonistas: Margarida, que, «mil anos que vivesse, não esqueceria a noite do baile no meio daquelas jaquetas dos rapazes do Capelo e das saias rodadas das vizinhas da Rosa Bana. Sentia-se ali como a prancha que vem do alto mar e encontra enfim uma posição capaz de fixar as gaivotas e a sua própria massa de seivas, as suas fibras, os furos a que se agarram conchinhas e algas verdes»; e João Garcia, que «sentia diante dele a ternura que lhe dava a gente do “monte” a falar, e uma curiosidade invencível, que nascia de uma solidariedade táctica, como que referida a um convívio desmemoriado e remoto». E de que o capítulo intitulado «5.º Nocturno (Numa furna)», uma noite passada por Margarida entre baleeiros do Pico numa lapa de São Jorge após a trancadela de um cachalote, oferece um exemplo mágico. (Da atitude do Nina, «que tinha uma questão pessoal, um pouco afectada, com a pátria», oferecem-na quase todos os escritores portugueses. Não precisais de procurar muito: basta abrirdes o primeiro que vos vier à mão.)

Mas tudo sem quebra daquela serenidade imparcial de que decerto Nemésio se impregnou na leitura do grande russo, e que não deixa embaciar o espelho da narrativa nem descambar a ternura larga da compreensão dos seres e coisas em enternecimento húmido e embevecido perante a contemplação do próprio umbigo, à sombra do nosso campanário.

E não só nisso; também já no começo e fim do romance do nosso autor parece pairar a lembrança dessa leitura, e mormente de Guerra e Paz, que igualmente principia em diálogo e termina à noite, com as personagens recolhidas, demudadas do que eram pelos acontecimentos, e na previsão do renovar ou continuar do ciclo da vida, que todavia se antevê mais natural e propício na obra do russo do que na do português. E, se alguém nos faz lembrar Margarida Dulmo, é Natacha Rostov, personificação da espontaneidade vital e das mil esperanças e possibilidades risonhas da juventude, de que ordinariamente só muito poucas soem concretizar-se, e sempre à medida e custa das que ao mesmo tempo se vão descartando e excluindo, como todos acabamos por saber ou aprender a expensas nossas. Até desembocarem, para Margarida, num beco de difícil saída, pois «rompre avec les choses réelles, ce n’est rien; mais avec les souvenirs! Le coeur se brise à la séparation des songes» (Chateaubriand).

Beco onde ela, a julgar pelo seu génio («Esta menina é um pouco levantada. Boa criatura, bonita, representando bem… mas levantada!», no conceito do velho barão da Urzelina, que, por si só, bem merecia uma crónica…), apenas se conformará, como fez estoicamente aquela sua avó Margarida Terra noutro lance apertado («E ainda a propósito do Carlos e da Anna Silveira, só mais uma palavra, para te dizer que eu não me queixo de nada, bem sabes. A gente não é infeliz de todo em todo senão quando quer. Pois não é verdade que um pouco de paciência ajuda tanto?» (1)); e de onde o seu autor deixou à imaginação de cada leitor tirá-la.

Mas receio que seja permitido concluir que a continuação só renovaria a mesma velha história de Ema Bovary ou da prima de um tal Basílio, e portanto já foi contada por Flaubert, Eça e tantos outros um ror de vezes, inclusive pelo próprio Tolstoi.

E em comparação dela a que acabamos de ler foi antes o bom tempo no canal… 



*
(1) Nota evidentemente desnecessária: Nesse passo, minha avó Georgina, que, como já devem saber, tem lá a sua costela de filósofa, comentou por cima do meu ombro que, pelo menos nas ilhas, o estoicismo tem sido felizmente substituído pelo epicurismo; e do Continente informam-me de que por lá o epicurismo, por sua vez, já foi desbancado, ainda e sempre com maior felicidade de todos, pelo cirenaísmo ou hedonismo estreme. E acabo de ver a bem adubada Nigella, mestra da culinária pingue, assegurar à cidade e ao mundo via TV que só se deve ter vergonha de se não ter prazer. Eu, por mim, em filosofias nem grandes assados não me meto; vou-me antes quedando mais ou menos frugal na literatura amena.

domingo, 14 de outubro de 2012

Anton Tchékhov

por Mita Jacinto



1860 (Rússia) -1904 (Alemanha)

Muitas vezes senti que o teatro era insensível por demasiado teatral e melodramático, para que me concentrasse na espessura das personagens.

Até ler as primeiras peças deste dramaturgo, até ver “As Lágrimas Amargas de Petra von Kant” de Fassbinder, até encontrar Bergman em “Persona” ou nos “Morangos Silvestres”.

Ler “A Gaivota”, “O Jardim das Cerejeiras”, “O Tio Vânia” ou “As três Irmãs” é aceder ao mundo do que pode ser dito com invariável elegância, subtileza e rigor numa aparência diária, quotidiana, desprovida (aparentemente) dos excessos da vida interna das marionetas que nos habitam.

Já li algures que refutou Tchékhov a acção. Talvez. Talvez essa seja uma leitura. As personagens mais não fazem que “ir à sua vida”, ora se sentam, ora conversam, ora amuam, ora passeiam pela casa ou jardim, ora fazem e desfazem malas, ora choram, riem, não se importam nada com o escritor ou o espectador ou leitor, são deles independentes, não querem agradar, assinalar, nem moralizar ninguém, mas em cada gesto, em cada palavra foi concentrada a pérola do colar de emoção e sentimentos que os animam e dos quais não podem separar-se por serem os sentidos possíveis do seu pensar. Do seu ser.

Afinal, a vida é assim, feita de simbólicos gestos e palavras camuflados como banais na tentativa, as mais das vezes frustradas, de manipular ou esconder a verdade dos fios que nos movem. Ou de a fabricar. Ou de a mostrar.

A vida que temos qual é? Que frustrações nos determinam o caminho? Que sentimentos e amores nos guiaram? Não é no íntimo cenário doméstico que as mais dramáticas e surdas guerras ecoam? Não é a existência feita de palavras e pessoas simples, de tédios dramáticos?
Que diz o que não é dito? Que é dizível?

Ler Tchékhov é um súbito prazer. Tanto mais actual quanto se reconhecem ali os sinais da tentativa de regresso a uma normalidade ameaçada pelos ventos de mudança.

Igual fulgor e intensa suavidade só voltei a sentir em Tenessee Williams e Eugene O`Neill, mas isso é para outra conversa.

“-Anda sempre de preto porquê?”
“-Estou de luto pela minha vida. A minha vida é uma desgraça.”

“A Gaivota” de Anton Tchékhov