por Sofia Livro Noronha
Há
uns dias atrás, embalada pelo monótono zapping
entre canais, dei por mim a parar num ao qual já não dedico a minha atenção
há uns anos acrescentados. Apesar de ter sido uma espectadora fiel da MTV
durante grande parte da minha adolescência, hoje em dia consigo contar pelos
dedos das mãos as vezes em que, numa breve passagem por lá, me deparei com
música. Ora, o dia de que vos falo foi pontuado por um desses raros momentos.
Surpresa, decidi voltar atrás e dar mais uma oportunidade ao canal de que
outrora fui fã, mas rapidamente questionei se tinha mesmo contemplado o
milagre. É que a música que estava a passar era o Gangnam Style, que fica assim a meio caminho.
Antes que comecem a pensar que estou
aqui a almofadar um discurso de ódio direccionado, importa explicar por que considero que o seu sucesso
tem a ver com muita coisa exterior à música.
Embora o nome de PSY (nome artístico
de Park Jae-Sang) só tenha sido
ouvido pelo mundo ocidental quando os ecos de Gangnam Style começaram a soar, o cantor e rapper sul-coreano não é um estreante na indústria. Tem já seis
álbuns editados e uma carreira de sucesso no seu país natal.
Quando lançou o este single, nada seria capaz de prever o estrondoso sucesso que
alcançaria. Chegou mesmo a suplantar a popularidade de Justin Bieber no YouTube, ao ultrapassar o milhar de milhão de
visualizações a 16 de Janeiro deste ano. Tudo parece ainda mais improvável
quando se tira um pouco de tempo para entender o que é, de facto, o Gangnam Style.
Gangnam é o nome de um distrito rico de Seul,
a capital da Coreia do Sul, e o alvo de chacota da música de PSY. Em Gangnam, vivem aquelas que se consideram
pessoas de alta sociedade, nomeadamente novos ricos que tentam desesperadamente
integrar-se. Gangnam tem sido várias
vezes comparado a Beverly Hills,
estado da Califórnia, nos EUA.
De Gangnam
para o mundo, o YouTube tem sido indicado como o principal responsável pela
popularidade da música. Estamos já familiarizados com o poder deste canal no
que diz respeito a fenómenos de popularidade que se estendem para lá da
internet, como é o caso de Justin Bieber.
E quem fala no cantor canadiano pode também nomear fenómenos estranhos e
completamente aleatórios, como o Nyan Cat,
o gato com corpo de poptart que
navegava pelo universo, o Mr. Trololo,
o barítono russo Eduard Anatolyevich Khil
numa performance dos anos 70, ou mesmo Rebecca
Black, que transformou Friday na
música de chacota de todas as Sextas-Feiras. Uma coisa todos eles parecem ter
em comum: tendem a pisar a fronteira entre o que o público em geral odeia e
adora. Ou, melhor, são aquilo que o público adora odiar.
Gangnam
Style tem tudo para se
tornar num vídeo viral. Senão vejamos...
Em primeiro lugar, segue a mesma
estratégia da Macarena, hit dos anos
90, ao reproduzir uma dança que toda a gente consegue fazer e imitar pelas
festas de todo o mundo sem se preocupar em parecer ridículo porque, de qualquer
forma, a dança é já um pouco ridícula por si própria.
Como não podia deixar de ser,
reveste-se de um ritmo catchy, com
uma batida que fica no ouvido, poucas variações e uma melodia pobre em
harmonias.
O facto de não se entender a letra é,
na minha opinião, uma grande vantagem, porque não distrai o ouvinte nem o faz
questionar o que está a ser dito. Mesmo que esteja a papaguear uma série de
disparates, o que interessa mesmo é a diversão e o ritmo.
Recorre ainda a algo que todos adoramos
fazer, que é rir da troça que se faz dos outros, que vivem de maneira
diferente. Lá de vez em quando, lá cedemos à mesquinhez de dizer “Oh, que
ridículos que eles são!”
Gangnam
Style poderia ser uma
prova de que é possível fazer sucesso mundial sem se ter um contrato chorudo
com uma produtora e sem se ser americano. Poder-se-ia pensar que esta tendência
dos fenómenos do YouTube se estenderem muito para além da internet constitui uma grande vantagem
para artistas emergentes um pouco por todo o mundo. Numa onda ainda mais
optimista, poderíamos pensar que seria o princípio da descentralização dos
grandes hits anglo-saxónicos. Mas
penso que é demasiado cedo para falar disso.
Apesar de ter nascido na Coreia do Sul,
não há nada no vídeo que se descole dos padrões de estilo jocoso dos LMFAO, por
exemplo. Penso que, no final de contas, Gangnam
Style acaba por ser mais um pedaço da fórmula americana de uma música de
sucesso, com a particularidade de ser cantada noutra língua.
Sou levada a pensar que, no final de
contas, a brincadeira do Gangnam Style fez a derradeira paródia de todo o
mundo. Mas também acho que PSY não merece ser motivo de chacota ou desprezo por
parte da indústria musical. Se dermos uma olhadela rápida aos últimos anos,
recheados de músicas com letras sem sentido e artistas que se esticam (literal
e não literalmente) até o limite, na tentativa de chocar mais, ou chamar mais a
atenção do que o artista do lado, este fenómeno não me parece nada descabido.
Desafio-vos mesmo a comparar a letra do Gangnam
Style com o último hit de Christina Aguilera, Your Body (tentem a versão não censurada), ou a riqueza musical do
single de PSY ao dos LMFAO, Sexy and I
Know It. É um clássico caso de “descubra as diferenças”.
Pronto, está bem, talvez até tenha
assistido ao milagre de ver e ouvir música na MTV. E, embora continue a
saber-me a pouco, tenho de aceitar que a música já não sobrevive só de melodias
e de bons músicos. Continua só a custar-me que esses dois factores basilares
contem cada vez menos.









