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quarta-feira, 13 de março de 2013

Que poder está nas mãos do cidadão?

por Luís Noronha

A humanidade desde sempre se organizou em pequenos núcleos sociais, mesmo antes de se sedentarizar. O mesmo se passa com os outros seres vivos, que se associam para melhor se defenderem das adversidades. Normalmente abriga-se à proteção dos mais fortes.

O mais recente meio de organização social é o dos Estados, que têm como função principal proteger os cidadãos e não uma máquina que vive à custa deles. Este tipo de organização não deverá ser o último.
Embora vivendo à sombra da proteção de famílias mais poderosas, até nas monarquiasde evoluíu para formas de organização políticas em que os cidadãos passaram a ter cada vez maior intervenção nas decisões do Estado.

Os sistemas que mantêm os cidadãos fora das decisões que os afetam, acabam sempre por ser repudiados por estes, poucas vezes de forma pacífica.



O que se tem passado na Europa e em Portugal, em tempo de crise, tem sido uma subversão do que devia ser o respeito pelas chamadas regras democráticas. A sociedade tem regredido em todos os aspetos, depois dos direitos progressivamente conquistados.

A democracia impõe o direito do cidadão ser consultado, não apenas pelo voto que exerce para eleger os diversos órgãos do poder.

Se ao fim de algum tempo a prática do poder desmente o programa proposto, qual é recurso ao alcance dos cidadãos para corrigir a situação? 

A divisão de poderes permite algum equilíbrio, mas se esses poderes são do mesmo sinal, se são cúmplices do embuste, o que resta aos cidadãos senão a revolta?

E qual é o efeito das diferentes manifestações de revolta, se todo o poder é controlado?

Não resta outra alternativa senão procurar os outros meios de intervenção que estão ao alcance

O referendo é muito usado na Suíça mas tem sido utilizado de forma por vezes perversa, ao impor a vontade ou os hábitos de curta maioria às minorias. Em Portugal o referendo pode ser requerido pelos cidadãos, mas com obstáculos quase intransponíveis.

A petição é um meio recentemente muito utilizado, previsto na Constituição e na Leimas nunca terão como consequência a alteração de decisões da maioria que houver na Assembleia.

A manifestação popular, juntando setores profissionais ou a população em geral, para reclamar ou para protestar, tem efeitos de desgaste do poder contra o qual se dirige, porque encurta a sua base social de apoio para as medidas que são impopulares. Quando a mobilização é grande normalmente tem consequências e provoca recuos nas decisões mais contestadas.

A greve é outra “arma” usada, ao dispor de quem trabalha, mas normalmente é a última delas, porque afeta bastante quem já é vítima das medidas contra as quais protesta.

A participação popular nas associações, sindicatos, organizações não governamentais e órgãos de poder local, são outras formas de democracia direta mas com pouca influência na definição da política do Estado.

A participação nos meios de comunicação, é um veículo transmissor e formador de opiniões e transformador de mentalidades.



A democracia não se esgota nas atuais fórmulas.

Na Suécia surgiu uma experiência de voto eletrónico que vincula a representante eleita pelo Demoex (experiência democrática), no município de Vallentuna perto de Estocolmo. Ela vota todas as propostas de acordo com a votação online dos eleitores inscritos na sua página.

Quanto mais instrução, educação, cultura e consciência cívica tiverem os cidadãos, mais difícil será a qualquer elite impor o seu poder, usando-o para fins diferentes e opostos com os quais se apresentou ao sufrágio.



A vontade popular, numa sociedade mais avançada, mais evoluída, mais informada tenderá necessária e inevitavelmente para formas de participação mais diretas e eficazes.

sábado, 23 de junho de 2012

Democracia Under Construction

por Ana Rita Matias

A situação que o país está a atravessar de um processo de ajustamento económico extremamente duro, que se traduz na deterioração das condições de vida e de trabalho dos portugueses, tem vindo a implicar um acréscimo da conflitualidade social e política. Esse processo de conflitualidade teve mais recentemente um dos seus pontos mais significativos a 12 de Março de 2011, data da manifestação “Geração à Rasca”. Em Portugal surgiu o movimento Geração à Rasca, movimento que organizou uma manifestação que reuniu cerca 300.000 pessoas em diversas cidades portuguesas com o objetivo de contestar a sua situação de vida e de emprego. Os movimentos sociais conjugam em si indivíduos, na sua maior jovens, que se expressam nas ruas, nas redes sociais, na internet, contra situações na atualidade que querem ver alteradas, como o desemprego, a precariedade no emprego e nas condições de vida, a incerteza no futuro, entre outras causas.

Fruto de uma conjuntura de crise e de um crescente mal-estar e desconfiança com as soluções apresentadas pelas principais instituições responsáveis, os ativistas juntam-se aos movimentos sociais porque não se revêm nas respostas que as instituições políticas tradicionais, os partidos, ou até mesmo os sindicatos apresentam. Exigem alternativas, querendo eles próprios ser a alternativa. Segundo o sociólogo Manuel Castells, os movimentos socias podem ser encarados enquanto formas de “contra-poder” (counter-power) no sentido em que são ações coletivas que procuram mudar valores e interesses institucionalizados na sociedade.

Após um ano da Acampada do Rossio, a partir de onde muitos destes movimentos tiveram origem, e após um ano feito da manifestação de 12 de Março, parece ainda cedo para compreender as dimensões que estes movimentos sociais estão a assumir na sociedade portuguesa, se bem que à partida é inegável que constituem parte ativa da sociedade civil. A conclusão inicial de a máquina (organizativa e ideológica) por detrás dos movimentos parecer algo incorpórea, aparentemente, sem grande tração à realidade e sem grande capacidade de a transformar, não se descortinando bem o contributo que estes movimentos possam dar ou ter para a solução da crise, não minimiza o facto de a sua existência ser (bastante) interessante. E um dos sinais que estes movimentos nos transmitem, de modo inequívoco, independentemente do juízo que possamos fazer da sua adequação e eficácia no combate às situações que denunciam, é da crise da democracia parlamentar e dos seus pilares, os partidos.

Sobre o futuro da Democracia, a questão que se impõe é: que tipo de estado e sociedade teremos quando parte (ou grande parte) da população descredita das instituições existentes e se sente afastada dos seus líderes? Como é possível haver cidadania nestas condições?

É evidente que o terreno para o aparecimento dos movimentos está criado: a crise articulada com as deficiências do sistema democrático. O tempo irá dizer da relevância histórica da evolução (amadurecimento? complexização?) destes movimentos. Como é óbvio essa relevância dependerá também de como outras realidades irão evoluir: a democracia parlamentar, a situação económica europeia e mundial. Mas uma coisa parece ser certa: estes movimentos são sinais importantes do tempo que passa e, independentemente do que dizem os seus atores ou das montras partidas, deveriam ser levados muito a sério, sobretudo pelos “líderes das democracias”.

Deixo aqui uma sugestão de leitura sobre este e outros temas:
Aftermath: As culturas Económicas da Crise em Debate, por Gustavo Cardoso, João Caraça, Manuel Castells e Bregtje Van Der Haak (org.), Editora Mundos Sociais, Lisboa.

Texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.