Blogue de divulgação cultural, escrito por 28 pessoas. Um texto por dia, todos os dias.
Mostrar mensagens com a etiqueta direitos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta direitos. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Direitos dos Animais (ou: As Vantagens de Ser Fofo)


por Lostio

Como qualquer discussão sobre os direitos dos animais que se preze, há que lançar a questão-chave: têm os animais o mesmo direito à vida e à liberdade do que os humanos? Ou, mais importante ainda, é um dever governamental tomar as medidas que garantam que esses direitos são respeitados?

Para começar, temos de determinar os motivos que nos levam a implementar medidas protectoras aos humanos e verificar se estas razões são igualmente aplicáveis a outras espécies que não os homens. Comecemos por alguns dos mais frequentes:
- Capacidade de sentir dor: Cada um de nós tem noção do repúdio e da perturbação sensorial que é a dor. Assim sendo, parece natural que esta seja algo a se evitar, e que se façam esforços por garantir que restantes criaturas sensíveis à dor sejam dispensadas de a ter de sentir.
- Sapiência ou existência de vontade própria: Outra razão frequente para querermos garantir o direito à vida e à liberdade está na mera preferência individual. Se alguém deseja continuar a viver, e tem preferência por sentir livre, então parece-nos intuitivo satisfazer esses pedidos, visto que não temos propriamente nenhuma autoridade superior para dizer que a sua vontade pessoal não deverá ser cumprida.
- Capacidade de ter emoções: A felicidade por estar vivo, a tristeza por sentir dor, a fúria por se sentir injustiçado... Quando alguma criatura exibe uma componente emotiva, a sua sensibilidade quanto àquilo que lhe ocorre e às situações pelas quais passa é notória e sentimo-nos impulsionados a manter a sua estabilidade emocional garantido que tem os direitos básicos.

Estes são só alguns exemplos. Agora, até que ponto estes critérios são suficientemente representativos ou, mais importante, generalizáveis? Mesmo dentro do domínio do Homem já é discutível até que ponto estes critérios são suficientes, havendo os casos particulares de eutanásia, aborto, pena capital... Quando entramos no domínio dos restantes seres vivos, a coisa torna-se mais complicada.
O problema destes critérios está também quando começamos a entrar na efectiva implementação de leis. Vários insectos possuem um sistema nervoso, e podem ser viavelmente interpretados como seres sencientes. Vamos então multar cada pessoa que mata uma barata? E a questão da sapiência nas plantas não é tão desprezável quanto se crê (a ver neste artigo). Se vamos equiparar os animais aos humanos, temos de obter motivos logicamente consistentes para não os proteger da mesma maneira. E, se vamos discriminá-los por serem de outra espécie, temos igualmente de arranjar uma justificação sensata pela qual não lhes atribuímos igualdade de direitos.

A meu ver, as principais organizações que exploram estas temáticas e os movimentos sociais que pretendem dar foco a este assunto são muito tendenciadas a proteger as espécies pelas quais mais frequentemente criamos empatia emocional, e que são mais facilmente antropomorfizáveis. Cães e gatos, todos adoram e protegeriam, mas com as pulgas dos mesmos já se estão pouco borrifando.

Assim sendo, aquilo que eu considero como a melhor medida, neste assunto, é precisamente uma análise caso-a-caso. Não creio que podemos, ou devemos, entrar nos dogmas que temos nos Direitos Humanos, devido à própria diversidade de categorias de seres vivos e das suas características físicas e psicológicas, que tornam a sua classificação segundo quaisquer critérios que estabeleçamos demasiado ambíguo para universalizar. Alguns destes casos:
Animais Domésticos – Estes merecem direito a legislações protectoras nem que seja pela mera classificação destes como pertences das pessoas. Talvez não seja uma designação muito aprazível aos mais ligados aos mesmos, mas serve o seu propósito. Deverá ser dada a devida atenção a alguns casos particulares em que o animal se torna quase essencial para a vivência do seu dono, como por exemplo cães-guia para cegos.
Produção de Carne – Vegetarianismo moral é uma lata de minhocas cheia de interpretações éticas, moralidades e filosofias. Geralmente, ia-se pelo típico argumento do “matar por necessidade”, mas este já se tornou inválido com as descobertas de que o Homem não precisa de carne para viver. Comer carne é um luxo, e há que tomar consciência disso. Agora, é um luxo naturalmente desejado pela maioria, portanto, visto que não se estabeleceu direitos à vida dos animais numa boa generalidade, não vejo razões para os negar. A maioria manda.


Sempre que alguma entidade se mostrar devidamente interessada em investir e apadrinhar certos conjuntos de seres vivos, ou mesmo ecossistemas (canis, reservas naturais), deverá também ser naturalmente dada a devida protecção legislativa aos seres vivos cobertos também.
O problema dos direitos dos animais está precisamente em passar a interpretação antropomórfica que se fazem dos mesmos, e a empatia criada com estes devido aos seus atributos tipicamente humanos, em legislações formais e objectivas. Argumentações lógicas são perigosamente escorregadias, e as vontades sociais predominantes por vezes contradizem algumas destas, portanto o melhor procedimento é mesmo fazer o que agradar a maioria, fugindo a dogmas e direitos generalistas.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A crise e os direitos humanos

por Luís Noronha


10 de dezembro de  1948. No balanço de uma das mais sangrentas guerras da humanidade, a nova Organização das Nações Unidas, aprovou a Declaração Universal dos Direitos do Homem (DUDH).



A declaração proclama vários princípios como os da igualdade, justiça, paz e liberdade. Considera a LIBERDADE como a expressão de ser livre de ter uma crença, de expressão de opinião e também ser livre do medo e da miséria.



Na primeira metade do século XX, o mundo viveu períodos de guerras de crueldade enorme. Na segunda metade o equilíbrio entre as grandes potências “criou” teatros de guerra regionais, onde aquelas se confrontaram para alargar ou consolidar as suas zonas de influência.  

O sistema internacional não tende para a estabilidade. O Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, o nosso compatriota António Guterres, afirmou que a desigualdade é a maior ameaça à paz no Mundo. A ameaça à paz não envolve apenas o conflito declarado entre países. Cada vez mais se acentuam as desigualdades dentro dos próprios países. A DHDU previne que a rebelião pode ser o último recurso do Homem contra a tirania e o atropelo ao Direito.

O brasileiro Paulo Roberto de Almeida, doutorado em Ciências Sociais e diplomata, considera que o início do século XXI se caracteriza por não ter uma situação equitativa, segura e estável que garanta um padrão de vida aos cidadãos e que os coloque ao abrigo de ruturas na ordem política, do bem-estar económico, segurança pessoal e refere as ameaças à paz, à democracia e condições materiais mínimas de desenvolvimento humano. Acrescenta que “Se o espectro de guerras globais entre as principais potências parece felizmente afastado, conflitos regionais, guerras civis, instabilidade económica e política e desigualdades sociais persistentes ainda constituem realidades frequentes no cenário atual, com uma incidência mais aguda nos chamados Estados falidos.” (1)

Os direitos que os cidadãos já alcançaram não podem ser ignorados pelo Estado, sob o risco de se agravarem as ruturas que provoquem contendas internas de alcance imprevisível. O Estado e os seus governantes existem para proteger os seus cidadãos e não os interesses de um sistema financeiro egoísta que tende a praticar novas e sofisticadas formas de agiotagem.

A atual defesa dos direitos humanos exige a defesa dos princípios de há 64 anos, que defendem os direitos à educação, ao trabalho, à segurança social, à igualdade perante a lei, ao acesso aos serviços públicos.

É importante que esta declaração contrarie a tendência atual e que é constantemente inculcada nos cidadãos, de que cada Estado tem de contrair as suas despesas de acordo com os resultados económicos. Ela proclama que os direitos económicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade obrigam ao esforço nacional, mas também à cooperação internacional!


É essa cooperação que estamos assistindo na União Europeia? A falta de colaboração entre os Estados europeus, reconhecendo os interesses recíprocos e não apenas o poder do mais forte é a principal ameaça aos direitos humanos, porque acentua as desigualdades e a injusta espoliação de direitos.