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domingo, 3 de março de 2013

Arte Nambam

por Bruna Valério

para aceder à primeira parte do artigo, clique aqui.


Em jeito de continuidade com o texto do mês passado, continuarei a falar da arte Namban. Na parte um deu-se um breve parecer sobre o que esta era, nesta segunda parte irá falar-se sobre as diversas tipologias desta mesma arte. Para uma melhor visualização da vasta informação, começo por deixar um esquema:



Podemos ver então, que existem duas grandes categorias: a arte Kirishtan, os artefactos de origem sacra, e arte Namban na sua vertente utilitária.
Começaremos por descrever a primeira categoria. Esta divide-se em três grupos, o mobiliário litúrgico onde pertencem as estantes, a sua forma não varia muito, o que já não se pode dizer em relação à decoração, sempre presente o símbolo da Companhia de Jesus; as caixas de Hóstias das quais se faziam um grande número, todas dentro do mesmo tamanho (9 a 10 centímetros) e com a mesma decoração (lacadas com uxuri, decoração a maquié e madrepérola) e nunca esquecendo o símbolo da Companhia de Jesus; os oratórios com pinturas a óleo no interior, de 50 por 40 centímetros, que são inseridas numa armação de meias portas decoradas em ouro, prata, madrepérola. Finalizados com um frontão, geralmente, triangular e que ostentam ou a pomba do espírito santo, o símbolo da Companhia de Jesus ou uma cruz. Esta era a base geral, alguns podiam, claro, ser mais complexos e apresentar mais elementos arquitetónicos, e cofres para guardar Santos, já variavam no tamanho e a decoração não escapava muito ao que foi dito acima.
O segundo grupo são as pinturas, estas faziam parte dos oratórios (e não só) apresentam traço maneirista, o que se reflete no alongamento das figuras, com feições calmas e de olhar baixo.
E, finamente, o terceiro as gravuras e livros, que tendo em conta a temática, serviria para instruir, fazer propaganda da religião e eram ornamentação para livros. Existem muitos exemplos bem conservados desta arte, e muitos das gravuras eram utilizados como quadros decorativos.
Na segunda categoria, arte namban de vertente utilitária temos, objetos comuns, como cadeiras, mesas (uma inovação para os japoneses) e baús que começam a ter tampas abauladas. A pintura e a gravura que não divergem muito da que foi descrita acima, mas simplesmente usadas para outros propósitos sem ser os religiosos. E, finalmente, os biombos. São a mais conhecida forma de arte namban, apesar de já existirem antes da chegada dos portugueses ao Japão, depois deste acontecimento a sua popularidade atingiu novos níveis, bem com as técnicas e temas utilizados. A sua estrutura pesada evoluiu para uma mais leve, mais prática e tornaram-se mais versáteis, passaram a retratar temas nambans, quer momentos do dia a dia, como a chegada dos portugueses, as trocas comerciais, os missionários. E foi nesta altura que, pela primeira vez, a figura humana tomou uma posição de relevo na pintura dos biombos.
Esta é uma visão muito simplificada e generalizada, e para aprofundamento do tema, aconselho as obras por onde me segui:
- DIAS, Pedro, História da Arte Portuguesa no Mundo (1415-1822): O Espaço do Índico, Lisboa, Círculo de Leitores, 1998, pp. 455-500
- JANEIRA, Armando Martins, Figuras de silêncio: a tradição cultural portuguesa no Japão de hoje, Lisboa, Junta de Investigações Científicas do Ultramar, 1981, pp. 39-49, 73-80
- PINTO, Maria Helena Mendes, Arte Namban: Os portugueses no Japão, Lisboa, Fundação do Oriente, 1990
- SOBRAL, Luís de Moura, “Os Bárbaros do Sul no Japão: A Arte Namban” in A expansão marítima portuguesa, 1400-1800, Lisboa, Edições 70, 2010, pp. 429 – 434


sábado, 8 de dezembro de 2012

O Bosão de Higgs - Partícula de Deus

por Miguel Furtado

8 de março de 2012:
“Chegaram notícias do  Fermilab que vêm no seguimento das anteriores do LHC.
http://www-cdf.fnal.gov/physics/new/hdg/Results.html
Aparentemente confirma-se o Higgs.
Boas noticias!
Nota: começam a testemunhar descobertas. Vão registando. Daqui a uns anos esta informação passará a constar nos manuais como se tivesse sido sempre assim.
E não foi.”

Previsto em 1964 por Peter Higgs como possível argumento para o Modelo Padrão da Física de Partículas, a “quase certeza” da sua descoberta foi anunciada cerca de meio século depois, a 4 de julho de 2012, fruto do avanço tecnológico verificado desde então, nomeadamente, do desenvolvimento do LHC – Large Hadron Collider.


O modelo referido é responsável pela unificação das forças fundamentais electromagnética, nuclear forte e nuclear fraca e classifica as partículas em dois tipos: fermiões, que constituem a matéria, e bosões, responsáveis pela transmissão das forças. Um exemplo de um bosão é o fotão, partícula que intervém na força electromagnética, compondo a luz visível, os raios X, as microondas, etc.

É aqui que entra o Higgs. Teoricamente, é um componente do campo com o mesmo nome, que existe em todo o espaço, responsável por atribuir da massa à matéria. Uma forma simples de entender esta atribuição de massa é a chamada “the cocktail party analogy” representada na imagem seguinte.



De certa forma, a massa é como um “atrito” com o campo de Higgs. E o que explica a massa do próprio Bosão? Como que pode ser superior à massa de algumas outras partículas (ex: protão)? De igual modo, o Higgs também interage com o campo, ou seja, um bosão está sujeito ao “atrito” provocado pelos outros bosões, mais até que certas partículas.

O Higgs foi estimado por métodos sofisticados, com 95% de certeza (probabilidade de um em um milhão de ser apenas uma flutuação estatística), através da colisão de protões. Após o choque, o bosão tende a decair em partículas mais estáveis e possíveis de serem detectadas uma vez que a cada decaimento está associado um valor discreto de energia.


No entanto, a confirmação absoluta desta descoberta só será feita quando toda a análise dos resultados for efectuada com o devido cuidado, mais propriamente, quando se descobrir as restantes propriedades da partícula e se estas estão de acordo com a teoria formulada.

Popularmente, é conhecido como a partícula de Deus, tradução do título do livro de Leon Lederman, publicado para explicar a teoria por de trás deste bosão. Naturalmente, desde então têm sido feitas associações entre o Higgs e existência de um ser superior ou a religião no geral, o que é errado segundo a comunidade científica. O autor queria intitular o livro como Goddamn Particle (Partícula Amaldiçoada), mas foi considerado demasiado agressivo pela editora, sendo esta a sugerir The God Particle, apenas aceite por Lederman porque a partícula existe em todo o Universo. No entanto, a omnipresença do Bosão não é diferente da do fotão e, apesar deste fornecer massa à matéria, todas as partículas têm a sua devida importância.


Mas então, se não é um elo de ligação entre a religião e a ciência, para que servirá o Bosão de Higgs, para além de completar a teoria da Física proposta? Na verdade, o próprio Peter Higgs admite não fazer ideia. O tempo de vida desta partícula é muito pequeno, mesmo comparado com o de outros tipos de partículas, algumas destas que, actualmente, já são utilizadas na prática com dificuldade. Todavia, este incerteza também ocorreu aquando da descoberta do electrão, por isso, a conclusão a retirar é que ainda é cedo para pensar nas suas aplicações práticas. Não deixa de ser uma descoberta marcante na História e, se entretanto for totalmente confirmado, não há muitas hipóteses de Peter Higgs, que não conseguiu esconder as lágrimas no dia 4 de julho, perder o próximo Nobel da Física.