Blogue de divulgação cultural, escrito por 28 pessoas. Um texto por dia, todos os dias.

domingo, 10 de março de 2013

O Valor da Amizade - parte I

por Isabel Chalupa


                  Não, este não é o mote para um elóquio bucólico acerca da importância dos amigos, ou uma composição em prosa de alma lírica dissertando sobre quão fundamental se revela termos alguém que esteja lá para nós sempre que precisamos. E por outro lado, até é disso que vou falar – mas num contexto completamente diferente do que seria de esperar. Basta-nos recuar duas semanas. Estamos na noite do dia 25 de Fevereiro, uma noite de festa para o Cinema. A grande cerimónia do ano está prestes a decorrer, os máximos galardões da Sétima Arte prestes a ser distribuídos. É a noite dos Óscares.

            A festa decorre sem sobressaltos, algumas surpresas e muitos triunfos previsíveis, um apresentador com piada mas sem o encanto com que todos sonhamos e as injustiças do costume. Duas delas, as mais clamorosas, são as vitórias de Anne Hathaway como Melhor Actriz Secundária e Argo como Melhor Filme. Duas escolhas chocantes que têm apenas uma justificação: os amigos. Compreendem onde quero chegar? Debrucemo-nos sobre o caso da actriz.

            Anne Hathaway chegou ao mundo do Cinema com O Diário da Princesa, filme de grande sucesso que nos permitiu compreender que havia talento naquela jovem actriz. Porém, cedo se percebeu também que os papéis que desempenhava ao longo dos mais variados filmes não passavam daquela mesma personagem que havia interpretado desde a primeira película. Como já escrevi anteriormente, as suas personagens (...) são sempre a mesma pessoa, precisamente a mesma personalidade, o mesmo sorriso, os mesmos trejeitos, os mesmos humores, a mesma maneira de ser... No fundo, são sempre a actriz, que é natural frente à câmara, mas é incapaz de se tornar noutra pessoa qualquer. Apenas variou o tom em O Cavaleiro das Trevas Renasce, mas pareceu algo forçada e deslocada, sem conseguir evitar as comparações à épica Catwoman de Michelle Pfeiffer que, sejamos justos, a mete a um canto. Ainda assim, mérito para Anne, que finalmente conseguiu soltar as suas amarras.



            Chega então Fantine. Uma mulher na base da pirâmide, o último elo da cadeia alimentar. Bateu no fundo. Com não mais de dez minutos e a rendição de uma música que só por si já tinha tudo para ser o grande momento do filme, Hathaway conseguiu assumir, por fim, uma nova personalidade. I Dreamed a Dream é dos temas mais emocionantes de todos os tempos e, por isso, uma nomeação assegurada para quem se disponha a interpretá-la com o sentimento e força que a canção exige. Porém, será justo atribuir um Óscar a uma actuação que dura meia-dúzia de minutos e se agarra a uma música já de si com créditos assegurados? Especialmente quando as suas concorrentes são donas de performances de poder bastante superior...?


            Jacki Weaver talvez seja a única das restantes nomeadas que não merecia vencer o galardão sobre a actriz premiada. Já Sally Field tem em Lincoln um desempenho de cortar a respiração, aparecendo manifestamente mais que um quarto de hora e sem se apoiar em qualquer momento musical. Helen Hunt empresta a Seis Sessões a capacidade de escalar um patamar em direcção à excelência. Para não falar de Amy Adams, para mim a justa vencedora. Em The Master, Adams tem uma performance brilhante, com um controlo aterrador de cada cena em que entra; sabemos que é a sua Peggy que manipula todas as cenas e personagens, a sua postura doce e serena uma máscara para a sua verdadeira faceta cruel e sem escrúpulos. Não há uma cena em que não sintamos o seu escrutínio, os seus olhos e ouvidos vigiando e controlando tudo e todos em seu redor. É ela o verdadeiro Master no filme, tal como foi ela a verdadeira Melhor Actriz Secundária do ano 2012.



            Então, o que levou a Academia a escolher a claramente inferior Anne Hathaway? E em que grau se relaciona com a injustiça da vitória de Argo? É isso mesmo que analisaremos na segunda parte deste artigo, já no dia 10 de Abril deste mesmo ano. Espero ter a vossa leitura atenta nessa data...

sábado, 9 de março de 2013

Entre culturas: França e Singapura (parte I)


por Laura Falé

Lia este texto, quando me pus a pensar em quais poderiam ser as diferenças históricas, filosóficas e políticas que estão por trás destas diferenças culturais que hoje se nos apresentam.

            Para quem não leu a entrada de blogue – é um pouco grande e em Inglês, embora não seja de leitura complicada – fala da experiência pessoal da Maria, uma Inglesa que foi criada no Canadá. Ela visitou Singapura e de seguida, Bordéus, em França. Então, neste post, apercebe-se que sentiu um choque cultural muito maior quando foi a França do que quando foi a Singapura. Se à partida isto nos parece estranho – a nós, ocidentais – temos que nos colocar o máximo possível fora na nossa própria cultura e do nosso conceito de nação. Talvez seja melhor começarmos por nos vermos de fora, para depois podermos distanciar-nos mais ainda e observarmos de que forma a cultura asiática evoluiu e em que assenta.

            Vamos então dividir este texto em duas partes: este primeiro post falará da ideia de nação para França. O próximo, falará da cultura em Singapura e concluirá os dois posts.

            O nosso conceito de nação, pelo menos como alguns autores o descrevem e com os quais eu concordo (para mais informações, consultar a bibliografia no final deste artigo), começou no século XVIII, mas não da forma como o conhecemos hoje. Foi durante a Revolução Francesa, em 1789, que aqueles que pertenciam ao povo se revoltaram contra a monarquia instituída, o clero e a nobreza que possuíam todos os privilégios, constituindo apenas 3% da população francesa.



         Sendo que o Rei se sentiu ameaçado, decidiu reunir os representantes de cada Estado – a noção de nação no Antigo Regime era uma privilégio de nascença, ou seja, não implicava pertencer a um determinado país ou a partilhar uma determinada cultura, como nós vemos atualmente, mas sim a pertencer ao que nós chamamos classe social (e que, naquele tempo, se chamava ordem).

Os representantes do Terceiro Estado - o povo - , tinham o mesmo poder de voto, dentro dessas cortes convocadas pelo Rei, que a Nobreza e o Clero. O que, na prática, faria com que a aprovação de leis fosse injusta, já que estavam dois votos (Nobreza e Clero) contra um (Povo). Desta forma, nenhuns privilégios seriam abolidos.

Assim, após alguns desacatos, os membros do Terceiro Estado decidem reunir-se na Sala do Jogo de Ténis, uma sala anexa ao palácio, e formam aí uma Assembleia Constituinte, liderada por Robespierre,  um dos mal-fadados filhos da Revolução. Aqui, elaboraram a primeira Carta de Direitos do Homem e do Cidadão e pretendiam, dizem eles, tornar o Estado o lugar onde se promulgam leis necessárias para todas as liberdades se equilibrarem.

Dizia Montesquieu que “a liberdade é o direito de fazer todo o que as leis permitem; e se um cidadão pudesse fazer o que elas proíbem, deixaria de ser livre, pois os outros teriam todos o mesmo poder”. Portanto, esta ideia de nacionalismo e de nacionalidade era altamente inclusiva. Qualquer pessoa que desejasse estar subordinada às leis francesas, poderia fazê-lo, independentemente do país onde vivia ou da sua origem étnica. Foi a única vez que o nacionalismo foi mais à esquerda – embora Marx tenha dito que a Revolução Francesa foi uma revolução burguesa, mas este é um tema para um próximo post – e que foi, repito, inclusiva.


            Ora, depois de se instalar o Terror Francês, França começou a invadir o resto da Europa. Os países europeus, que não eram mais que pedaços de terra onde viviam camponeses que nem os mesmos dialectos falavam dentro do próprio país, eram desconjuntados e sem uma política coesa, sem um conjunto de leis que os ajudasse a manter-se unidos. Portanto, a ideia de Napoleão foi a de criar um império Francês que, cheio de esperança, unisse todos os países sob a lei francesa.

            Mas o que aconteceu foi exactamente o contrário. Com as invasões Napoleónicas, muitos países, nomeadamente a Alemanha, começaram a encontrar formas de se ‘ensimesmar’, de se virar para si próprios e aí o nacionalismo francês, que nessa altura era inclusivo e assentava nos pressupostos de Rousseau na altura do Contrato Social, passou a ser exclusivo de cada povo originário. Assim, para eles, pertencia à nação quem tinha ‘sangue’ originário e este raciocínio levou a que os países se fechassem em si mesmos. Ora, este não era de todo o objectivo de Napoleão, que acaba por não concretizar o Império Francês, mas por deixar sementes de nacionalismo mais conservador por toda a Europa.

            Este nacionalismo exclusivo dos povos originários foi propagado muito lentamente com uma série de políticas educativas e publicidade à própria nação. Aliás, nos Discursos à Nação Alemã, de Fichte, ele diz-nos que passos precisam os Alemães de tomar para que se constitua uma verdadeira nação. Note-se que aqui não está ainda o discurso racista de Hitler, que só entra em voga no século XX, provavelmente por não haver ‘provas científicas’ – leia-se, por a ciência ainda não estar suficientemente desenvolvida – da superioridade alemã.

            Mas de que forma poderão estes episódios ter tanta relevância na nossa forma de receber o outro e de encontrarmos o indivíduo que não é nacional quase como tomado de um espírito ‘estrangeiro’?

Fica para ser respondido no próximo texto, que este já vai longo e maçador.
            

sexta-feira, 8 de março de 2013

Uma Educação Pró-Social

por Sara M. Garcia




        Há dias, em contexto de sala de aula, na qualidade de aluna-futura professora, observava um grupo de crianças, as suas atividades, comportamentos e formas de expressão. Uma fruição autêntica da realidade escolar. Deixei-me ficar. Compenetrada nos sorrisos espontâneos, no espírito aguçado, na sua natural pré-disposição em saber e aprender, nas expressões engraçadas assinalando “novidades” e, de repente, fui como que atingida por uma onda de responsabilidade. Pensava para comigo serem crianças e, portanto, seres frágeis, mas capazes de “mover montanhas”, pedaços de vida em ebulição, cada um com um percurso singular, no qual terei o privilégio (e acrescida responsabilidade) de deixar a minha “marca”, ainda que passageira. Senti que poderia contribuir, de alguma forma, para a sua formação e crescimento, enquanto alunos e pessoas.

            Na verdade, esta é uma das mais humildes e complexas constatações de um educador/professor. Uma missão fulcral na preparação de um “cidadão do mundo”.

            Ali, observava fragmentos que pertencerão ao futuro e pude lembrar-me da máxima socrática, a de tornar as crianças boas e inteligentes.

            É nesta linha de pensamento que sinto que cabe ao agente educativo, nomeadamente, educadores e professores, delinear um ensino/aprendizagem no qual sejam fomentadas estruturas sólidas em princípios e valores de uma educação para a cidadania (o assumir-se como pessoa), alicerçadas em condutas pró-sociais.

            Incutir, desde cedo, na criança comportamentos de disponibilidade, generosidade, solidariedade, de apreço e atenção para com os outros, segundo um perfil altruísta (isento de “recompensas” e “compensações”) é, sem dúvida, uma mais-valia para o educando e para a sociedade em geral.

            Estas práticas “pró-sociais” (de cariz transversal ao ser humano) deverão ser abordadas atendendo aos diferentes níveis de escolaridade e de desenvolvimento pessoal em que a criança se encontra.

            Na Educação Pré-Escolar a criança situa-se numa fase de egocentrismo (segundo Piaget), o que pode dificultar o desenvolvimento altruísta e a perceção do outro. Porém, há que alertá-la para a existência da dimensão social, para o cumprimento de determinadas normas de respeito pela dignidade humana, para que esta nas suas ações possa atuar de forma (quase) autónoma perante determinadas situações, identificando “o bem” e “o mal” (podendo aqui referir-se os estádios de raciocínio moral defendidos por Kohlberg).

            No 1º Ciclo do Ensino Básico, a criança apresenta uma maior fluidez em compreender que, numa atitude de partilha, mesmo que se “desfaça” de determinado bem, é capaz de recolher benefícios desta despojada atuação (a nível material, psicológico e ético/moral). Além disso, será capaz de se colocar no lugar do outro e de refletir a relevância da sua generosidade.

            Acredito que uma educação pró-social e, consequentemente, mais humana não se esgota num conjunto de prescrições (ou “receitas”) de formas corretas da criança atuar, mas sedimentar-se-á numa ampla construção do ser pessoa, de saber como agir sobre determinado conflito/ situação problema, de forma autónoma, responsável e conscienciosa. Conteúdos que deverão ser incrementados, desde cedo, pelo ambiente escolar e familiar, a fim de crianças e jovens, conhecedores das variadas áreas de formação (linguística, artística, matemática, científica, entre outras), bem como com um vasto sentido de humanismo, construam um melhor rumo para a vivência presente e futura em sociedade.


           
           
           
           
            

quinta-feira, 7 de março de 2013

On the Heart, by Wildlife


por Rodrigo Sá




Já ouviram música com o corpo todo? Sim, com o corpo todo. Nunca pensaram nesta hipótese? Em situações normais, o ouvido é o órgão que ouve, pois esta é a parte que reage aos impulsos sonoros.
Em situações normais, dizia eu. Mas as situações normais não incluem ouvir ...On The Heart, o segundo álbum dos canadianos Wildlife.

De Toronto chega um dos álbuns mais emocionantes deste início de ano. Um álbum que mexe com o corpo todo. Ouçam-no. Começa com If It Breaks, uma canção de introdução ao álbum. Mais uma vez, em regime de excepção, uma introdução que dura 2 minutos e 22 segundos. Começa de facto pelo órgão central do corpo humano. Sintetizadores, sons de órgãos eléctricos, outros efeitos sonoros, e finalmente algo mais natural e orgânico como uma guitarra acústica. Sempre em pulsação moderada. Pelo meio a voz de Dean Povinsky em tom celestial, if it breaks, I’ll give it back. É prova de que os Wildlife estão aí novamente para nos tratar bem. E tal tratamento é dirigido a quem ouvir este álbum. Por isso, ouçam-no. Já tinha dito, não já? Adiante.

Born To Ruin, a segunda faixa do álbum, uma canção excelente para uma sessão de levitação, relembra-nos que apesar de a destruição dos valores humanos ser bem mais fácil do que força da razão, este álbum existe para sentirmos o bom da vida. E a vida começa com o bater do coração.
Bad Dream não é própria para corações fracos. Melhor dizendo, esta não é uma canção para ajudar ao batimento cardíaco. Aqui, principalmente ao ouvir a introdução da canção, a batida cardíaca incorre no grave risco de passar a explosão. Por mais pequeno que seja o coração, ao ouvir Bad Dream, o peito torna-se pequeno demais para suportar tal reacção de dilatação cardíaca.



One For The Body é a ajuda que precisávamos para libertar o sufoco de tanta excitação. Se até aqui o mais insensível ouvido, se tinha ficado pelas reacções auditivas e cardíacas, o ritmo frenético das guitarras, bateria e voz (claro também o baixo, o tal instrumento que provoca convulsões muito saudáveis no peito e estômago) infecta o resto do corpo, e ficamos com a certeza de que ...On The Heart não é apenas para se ouvir com os ouvidos e coração, mas sim com todo o corpo. Ouçamos então com o corpo todo. A partir de agora, o corpo humano é um imenso órgão auditivo. Cada cartilagem, cada nervo, músculo ou centímetro cúbico por onde passa o sangue, passa a ser um imenso órgão que reage aos impulsos sonoros.

Don’t Fear é uma canção de amor. Estranha canção vinda dos Wildlife, banda cujo vocalista prefere registos agudos (Alec Ounsworth, vocalista dos Clap You Hands Say Yeah, será a melhor referência que vos possa dar). Mas Don’t Fear é na realidade uma canção de pulsação moderada, em que a voz de Dean Povinsky se contrai num lamento aflitivo. Aí está a beleza da canção. Tal como uma boa actriz de telenovela, em que a cena mais parva, mais banal, mais melosa é interpretada de forma a que nós próprios sentimos a sua dor. Neste caso, não é que Don’t Fear seja parva, banal, melosa, longe disso, a canção acaba em tom quase de profecia.


(Arrythmia). Era o que faltava. Depois de tanta exaltação, alterações de ritmo cardíaco, vibrações corporais. Uma arritmia. Felizmente são só 59 segundos de alguns acordes no sintetizador. Quase insignificante, mas na realidade são a passagem perfeita entre a quinta e sétima faixa do álbum.
Dangerous Times chega depois de alguns minutos de calma, e faz-me pensar em movimento popular nas ruas. Não propriamente pelo título da canção, mas pelo facto de que a própria canção é construída em tom de instigação ao ajuntamento e manifestação popular. Canção para um estádio cheio. Vá lá, tendo em conta a falta de um contrato milionário dos Wildlife, pensemos apenas numa discoteca cheia em que toda a gente decide em histeria levantar as mãos e dançar mais com os braços no ar, do que propriamente da cintura para baixo.

Guillotine, é isso mesmo. Uma guilhotina. Uma machadada. Uma potente descarga de emoções. Mais uma canção para se ouvir e reagir em grupo.

Bonnie começa com uma guitarra acústica, e paira no ar a sensação de uma canção dos Queen. A verdade é que esta é uma das canções com um dos arranjos mais completos do álbum. Com variações de ritmo, esta é mais uma canção muito saudável. Ajuda o corpo todo a ser o nosso órgão auditivo.
(Pulse) para nos lembrar que afinal de contas tudo começa no coração. 44 segundos de sons metálicos, sintetizados, harmonias distorcidas para introduzir mais um momento muito diferente na música dos Wildlife.

Lightning Tent é novamente uma canção sem os tais tons agudos e intensidades vocais sentidas noutras canções de mais rápida batida. Apesar disto, não deixa de ser uma daquelas canções que atinge o corpo, como o sangue. Um refrão de fazer saltar um estádio inteiro (ou a tal discoteca, mas com a mesma reacção imediata e impulsiva).

Two Hearts Race é uma estranha forma de fechar o álbum. Ou talvez não, tendo em conta que é de facto uma canção que anuncia o fim. E não há nada a fazer. Numa corrida a dois, os dois ganham. E esta corrida é ganha pelos Wildlife, porque atiram-nos com uma descarga formidável de emoções com este ...On The Heart, e ganhamos nós também porque acabamos de experimentar aquilo que alguns proibiriam por provocar sensações que se aproximam perigosamente das reacções a substâncias hipnóticas.

...On The Heart, pelos Wildlife, é um álbum para se ouvir com o corpo todo. Ouçam-no.