Blogue de divulgação cultural, escrito por 28 pessoas. Um texto por dia, todos os dias.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

O melhor educador é…

por Rute Vitorino

Hoje li um provérbio oriental que me despertou a atenção e me fez reflectir um pouco, enquanto professora, mãe e consequentemente educadora. O provérbio era bastante curto e apenas dizia "o melhor educador é o que conseguiu educar a si mesmo".

Por vezes, estamos tão preocupados em criticar e ver os defeitos daqueles que nos rodeiam, que nos esquecemos de olhar para nós próprios. E isto fez-me lembrar algumas situações a que já assisti ao longo da minha carreira profissional.


Muitas vezes, tentamos impor às nossas crianças certas regras e modos de vida, que consideramos ser os corretos na sociedade em que nos encontramos, que nos esquecemos de todo o resto. Como por exemplo, que a criança não é um ser vazio de saber. Pois até chegar até nós, já adquiriu muito conhecimento junto dos familiares, amigos e da sociedade onde se insere. Muitas vezes, este conhecimento, não é considerado o mais correto por nós, mas deverá ser respeitado.

O educador deve preocupar-se sim em mostrar à criança a diferença entre o bem e mal. O educador não deve impor os seus valores e ensinamentos à criança, deve sim respeitá-la e desta forma ajudá-la a descobrir dentro de si própria o caminho que considera mais correto seguir, mostrando-lhe sempre os prós e os contras da sua possível escolha.


Para finalizar, resta lembrar que no nosso papel de educadores, enquanto pais, professores, catequistas, etc, não nos podemos esquecer que a melhor maneira de educar uma criança, ou um jovem, é dando-lhes o nosso próprio exemplo. Pois, segundo Joseph Joubert "as crianças têm mais necessidade de modelos do que de críticas." E só dando o nosso exemplo pessoal, é que podemos dizer que somos bons educadores, pois ao tornarmo-nos num modelo para o outro é sinal que nos conseguimos educar a nós próprios primeiro.

Peer Gynt

por Eugénia Melo


Peer Gynt - Obra musical de Edvard Grieg, composta em 1875 com base numa peça de teatro do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen. Dessa peça, Grieg extraiu oito andamentos divididos em duas partes: “Suite No. 1, Op. 46” e a “Suite No. 2, Op. 55”.
A primeira engolba os seguintes andamentos: “O amanhecer”;” A morte da mãe Ase”; “Dança de Anitra” e “O Rei da Montanha”. A segunda suite congrega: “O rapto da Noiva. Lamento de Ingrid”; “Dança árabe”; “O regresso de Peer Gynt”; “Canção de Solveig”.
Toda esta peça musical transpira uma história que o compositor nos quer contar, de modo que aquilo que pretendo com o texto deste mês é apenas lançar umas linhas gerais de cada andamento e que essencialmente oiçam as musicas do principio ao fim e apreciem cada nota e cada pausa, imaginem por vós próprios esta história e as aventuras de Peer Gynt. Vamos então descobrir o que cada um destes andamentos esconde por detrás das melodiosas harmonias musicais.

O Amanhecer
É o primeiro andamento desta peça. Peer Gynt é um homem diferente dos restantes homens da sua terra, ele tinha alma de poeta com um misto de aventureiro. Gynt, após ter sido ostracizado pelos seus conterrâneos, parte numa grande viagem à procura de si próprio, de  conhecer o seu ser. 
Muitos dos sons sugerem os passarinhos a cantar logo de manhã enquando o sol nasce devagar e singelamente, montando a imagem de uma vida pacata da personagem na sua terra natal.

A Morte da Mãe Ase
Todo este andamento bastante lento e pouco ritmo, toda a melodia sugere um ambiente pesado que dará enfâse à cena em que Ase, a mãe de Peer Gynt morre. Podemos discernir toda a tristeza e angústia, a falta de norte na vida, e perda do único apoio e da pessoa que sempre se conheceu.

Dança de Anitra
Tendo partido numa grande viagem, Peer Gynt encontra-se em Marrocos onde encontra uma linda mulher que dança a conhecida “dança do ventre”. Podemos encontrar neste momento um grande espanto e deslumbramento na nossa personagem que, vinda de um país nórdico, se depara com uma cultura completamente diferente daquela que conhecia. Uma mistura de notas sensuais com uma pitada de mistério. Delicie-se com este andamento e deixe-se ser levado pela música, tal como Peer Gynt se deixa levar à procura de si próprio.

O Rei da Montanha
Este é o andamento talvez dos mais conhecidos em que Peer Gynt está a sonhar que está numas montanhas onde vive um Rei Troll e governa um reino cheio de duendes e goblins. O rei quer que Gynt se case com a sua filha e este, apesar de aceitar todas as condições, acaba por recusar, o que leva a que seja perseguido pelas medonhas criaturas do reino, esta perseguição  leva a um constante acelerar do ritmo e velocidade da música. É extraordinária a maneira como Grieg transpõe imagens na música que compõe. A obra musical de Peer Gynt é apaixonante e mesmo para aqueles que não conhecem a história, oiçam-na. É uma boa maneira de começar.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Pirataria Online (ou: Apanha-me se Puderes)

por Lostio

O “problema” da pirataria online é um dos quais se tem vindo a falar essencialmente desde que surgiu a possibilidade da partilha de ficheiros via Internet, mas que nunca chegou propriamente a nenhum consenso, e que parece ser um tema flutuante. Isto torna-se perigoso pois a questão da sua ilegalidade e da imposição de medidas para a controlar é algo constantemente incerto.

Antes de mais, vejamos aquele que é o argumento-chave para condenar a pirataria: consiste num modo de retirar lucros aos criadores dos ficheiros, pois os seus utilizadores obtêm-nos gratuitamente, quando deveriam pagar pelos mesmos. Esta linha de raciocínio faz crer que, desde que surgiu a ciber-pirataria, empresas e autores responsáveis por tudo o que pudesse ser pirateado iriam sofrer prejuízos irreversíveis. Queda da Economia, colapso das indústrias afectadas, pânico e desespero!

Convido agora os leitores a darem uma rápida olhadela a esta imagem, que contém alguns dados estatísticos sobre a pirataria online. Vejamos o curioso. O filme mais pirateado, Avatar, é também o filme que mais lucro produziu nos últimos anos, suplantando o recorde mantido até então pelo Titanic. As empresas com o software mais pirateado estão também entre as que mais dominam e prosperam (Microsoft, Adobe...).

A meu ver, o argumento do prejuízo económico centra-se numa lógica já falhada. O que ocorre é que, por exemplo, um filme obtido via pirataria online é visto como uma perda financeira nas vendas do DVD. Ora, o que muitas vezes ocorre é que, num mundo alternativo onde não existisse pirataria, este indivíduo nem chegaria a obter o filme. Ele decidiu obtê-lo porque “não custa nada” e tinha algum mínimo interesse nele, mas não o suficiente para pagar 20€ pelo DVD.
Na verdade, eu creio que a pirataria online e a difusão de programas que permitem uma rápida e fácil partilha de ficheiros online é benéfica, pois é através dela que muitas pessoas tomam conhecimento de filmes, álbuns ou softwares com os quais nunca teriam contacto se fossem obrigadas a pagar pelos mesmos. E estas indústrias mantêm os seus lucros, pois continuam a ter serviços que não se podem piratear (visualizações em cinema, concertos ao vivo, serviços adicionais...) e terão maior aderência, por parte das pessoas suficientemente motivadas para investir nas mesmas, por causa do contacto que tiveram com o seu material, obtido via pirataria.

As pessoas passam agora a investir naquilo que acham que verdadeiramente o merece, e não porque são obrigadas a fazê-lo. Isto filtra as empresas que criam produtos mais deploráveis e obriga a uma maior pesquisa criativa nas empresas, no que toca aos serviços adicionais que deverão implementar para motivar as pessoas a verdadeiramente contribuir monetariamente.

Há também o pormenor adicional de que o controlo de ficheiros pirateados se torna praticamente impossível. Iniciativas como a SOPA estavam simplesmente a tentar lutar por um direito impraticável, especialmente com programas como o BitTorrent ou outras aplicações peer-to-peer, em que a partilha de um ficheiro não é feita por um só indivíduo, mas por um conjunto de indivíduos, e em que cada um fornece apenas alguns “blocos” constituintes do ficheiro.
Como se atribuiria culpas para implementar punições em cenários como o dos torrents? Agrupar todos no mesmo saco é um extremo injusto, e leva a medidas ridículas tal como foi mandar abaixo o Megaupload. Um mero site de partilha de ficheiros, sem qualquer iniciativa pirata, mas em que muitos destes ficheiros eram frequentemente pirateados. A justificação foi a de que “facilitava e tornava mais conveniente a realização de pirataria online”. Daqui a pouco, encerramos as empresas telefónicas porque facilitam combinações de crimes organizados e assassínios.

A pirataria online não deve ser vista como um crime, nem como um modo de levar ao inevitável fracasso de empresas. Por outro lado, deve ser vista positivamente pelo facto de disponibilizar o recurso fácil a filmes e séries que, de outra maneira, são extremamente difíceis de obter ou mesmo quase impossíveis, e por divulgar os mesmos a um maior conjunto de pessoas, que vão continuar a contribuir para o sucesso das mesmas, ou através da aderência a serviços pagos adicionais, ou por mera iniciativa própria.

terça-feira, 26 de março de 2013

MERCEEIROS E ESPECIALISTAS ou O CLUBE DOS GRAMÁTICOS MORTOS ou como vos aprouver

por Luiz de Mont'André



Mais uma vez nas suas buscas internáuticas minha avó Georgina advertiu em artigo que a impressionou (desta feita sabe-se qual: semanário Sol, 19.02.2013), mas em sentido contrário ao de «Acertar», outro dia aqui comentado, – agora por ver tachar de «merceeiros dos tempos verbais» os professores de português que ensinam gramática, comparados com o que deviam ser: membros do Clube dos Poetas Mortos. Com tão nefando ensino e método, «a disciplina de Português é um crime contra o futuro», denuncia e alerta o articulista.

«Não fui educada nessas ideias!», comenta a boa velhinha, alçando o fino supercílio.      
E com efeito, chamar «merceeiros dos tempos verbais» a professores que ensinam gramática faz-me lembrar aquelas sumidades, ordinariamente economistas, que, quando um governo «ameaça» só de tentar pôr as contas em dia, logo o tacham de se limitar a fazer contas de merceeiro. Em Portugal, terra de gente altamente especializada, como oficialmente se sabe, os merceeiros parece que não andam lá muito bem vistos. Entretanto, vai dizendo e repetindo Henrique Medina Carreira, «um velho de aspeito venerando», que o que faz falta em meio de tanto especialista e tanto perdulário são donas de casa com as contas em dia.

Se o sacrossanto Jovem, como agora lhe chamam, não aprende gramática – que está para a língua, letras e humanidades como a matemática para as ciências – na escola, nunca jamais em tempo algum a aprenderá, e os resultados estão à vista todos os dias na miséria que por aí se vai gaguejando e escrevinhando na imprensa, rádio, tv e disco.

Para alguém poder esquecer a gramática, precisa primeiro de a aprender. Ora o pessoalzinho quer todo e logo ser filósofo e pensador e criativo, sem se dignar suar primeiro as estopinhas a apetrechar-se com o bê-á-bá.

Mas «a gramática vinga-se dos que a ignoram» (Lutero), e «Um homem é tanto mais livre em espírito quanto mais os seus gestos são regulados por um ritual, e a escolha das suas palavras por uma sintaxe rigorosa» (André Maurois).

Dá-se infelizmente o caso de que este ritual e esta sintaxe rigorosa não caem do céu. Aprendem-se com estudo e aplicação e mais ou menos esforço consoante as capacidades de cada aluno, – estudo e aplicação que implica sacrifício e enfado, quase por definição; e cultivam-se ao longo da vida com exercitação mais ou menos regular segundo a profissão e necessidade de cada qual.

Já a deliciosa Guidinha, que, ainda tão novinha, já sabia escrever com sujeito, verbo e caso, mas que fez a 4.ª antes do 25 do 4, se queixava de que «Nestas coisas da vida uma pessoa ou tem sorte ou não tem eu cá por mim tenho de confessar que não sou das que tiveram mais sorte e tudo porque comecei a tirar a minha instruçãozita primária antes das reformas contra-reformas sugestões de reformas propostas de reformas discussões sobre reformas questões sobre reformas estudos sobre reformas esperas por reformas e o mais que há sobre reformas e o resultado deste meu azar de ter começado a ir à escola antes de tudo isto foi que tive de estudar uma data de coisas para fazer exame da primeira classe mais uma data de coisas para fazer o da segunda classe mais uma data de coisas para fazer o da terceira classe e nem digo quantas coisas para fazer o da quarta classe para verem como as coisas eram tenebrosas até tive de aprender a ler para tirar a quarta classe o que mostra como a gente era perseguida torturada e maltratada nos tempos antigos» («Vou-me licenciar por obra e graça do Espírito Santo», in A Guidinha antes e depois, de Luís de Sttau Monteiro, 2004, p. 115; a falta de pontuação é por a Guidinha ser moderna...)

Quanto ao mais, frioleiras e votos pios da costumada bem-pensância oficial, que deu com os burrinhos na água – e na educação.

Um Cacilheiro em Veneza

por Mari&Ana

Uma ideia mais que original representará Portugal este ano na 55ª Bienal de Artes Visuais de Veneza. “Comandado” pela consagrada artista plástica portuguesa Joana Vasconcelos, o cacilheiro será o representante nacional numa das mais importantes exposições de arte a nível mundial.



A ideia que será desenvolvida pela artista ao longo de três meses – o projecto teve início em Fevereiro -, tem como objetivo uma customização total da embarcação que, por 51 anos transportou passageiros de Lisboa à Margem Sul e vice-versa.

Explorando todas as dimensões do barco, Joana Vasconcelos apenas adiantou alguns detalhes sobre o que pretende realizar. A começar por uma restauração estrutural completa da embarcação, o “Trafaria Praia” será revestido, no seu exterior, por azulejos pintados a mão na Fábrica Viúva Lamego. A temática, inspirada num painel de azulejos de Gabriel del Barco - “Grande Panorama de Lisboa”, do fim do século XVII -, remete à uma vista de Lisboa pelos olhos da contemporaneidade.

Já no interior, o primeiro piso será o dos têxteis, que irão complementar a ideia do azulejo, uma vez que também serão nas cores azul e branco que estamos habituados a ver nos painéis de azulejo. No segundo piso, a artista vai mais além: Forrado em cortiça, produto tipicamente português – também! -, será composto por uma loja e um palco. Este será o espaço de visita de alguns músicos nacionais, mas também para a apresentação de diversas palestras e conferências sobre a Arte Contemporânea Portuguesa.



A loja, segundo avançou Joana Vasconcelos, se encarregará de vender produtos também nacionais, desde enchidos a bordados. O objetivo primordial é divulgar o nosso país junto à Itália e, por sua vez, para todo o mundo.

Para quem ainda não sabe, este “pavilhão flutuante”, será o primeiro a representar Portugal nos Giardini de Veneza, onde já estão representados mais de 90 países. 

A parte mais triste da história é que este projeto, bastante ambicioso e motivo de orgulho para todos os portugueses, arrancou com apenas 175 mil euros em financiamento estatal – da Direção Geral das Artes - que, apesar de ser “muita massa”, não são suficientes para a conclusão da obra. Para não deixar a ideia “morrer na praia”, já estão sendo contactadas parcerias privadas que poderão custear o restante do projeto.



Sem mais delongas, o Trafaria Praia arranca no dia 10 de maio, transportado por um navio cargueiro, e deve chegar a Veneza até 15 dias depois. A inauguração da Bienal será entre os dias 29 e 31 do mesmo mês. Ah! E mais uma surpresa agradável: Prevê-se que o cacilheiro passe por mais três trajetos, dos quais, o mais importante será entre Giardini e Punta della Dogana. Com 75 passageiros à bordo, num dos percursos “alternativos”, pretende-se chegar a Lido, a ilha italiana onde irá acontecer o Festival de Cinema de Veneza, em Agosto. 

sexta-feira, 22 de março de 2013

"Isso não é música"

por Luís Abrantes

Há cem anos, Igor Stravinsky estreava o seu mais recente ballet: “A Sagração da Primavera”. Baseava-se num ritual de sacrificação de uma jovem virgem nos tempos da Rússia pagã. A história não é a mais estranha de todas uma vez que já desde o final do séc. XIX uma corrente de nacionalismo musical varreu a Europa. Estranha sim era a música que dificilmente apresentava tom de repouso, estava repleta de dissonâncias e carecia várias vezes de ritmo/compassos regulares (o que se tornou um quebra-cabeças para os músicos da altura). Juntando a isto a coreografia de Nijinsky, que se trata de tudo menos aquilo que esperaríamos chamar de ballet, rebela-se quem está a assistir e é necessário chamar a polícia. O público odeia mas Stravinsky é invejado pelos seus contemporâneos vanguardistas…

Alguns anos mais tarde, entre 1921 e 1923, Arnold Schönberg desenvolve o dodecafonismo. Esta técnica de composição consiste em criar uma série de 12 sons todos diferentes. Será portanto constituída pelo total cromático (p.ex.: todas as notas correspondentes às teclas pretas e brancas entre um Ré e o Ré seguinte que está uma oitava acima). Essa série é então usada na sua forma original, invertida (p.ex.; um intervalo descendente passará a ser ascendente), retrogradada (de trás para a frente) e/ou transposta (iniciada a partir de outra nota). Para além disto, Schönberg refere que:
- Os ritmos utilizados não deverão permitir a sensação de pulsação regular;
- Deve haver uma igualdade de importância entre consonâncias e dissonâncias;
- Não deverão ser utilizadas escalas, acordes ou qualquer outro material sonoro que possa induzir o ouvinte a sentir que a música tem um tom de repouso.

Desta técnica resultaram algumas das obras pelas quais este compositor é hoje conhecido como por exemplo o concerto para piano op. 42 ou a ópera Moses un Aron onde se pode ver que até o canto sofre alterações e passa a ser semi-falado.


Matriz de uma série dodecafónica. P0 – versão original; I0 – Versão invertida; R0 – Versão retrogradada

A obsessão da não-repetição de material musical leva a que Anton Webern (discípulo de Schönberg) componha, 104 anos depois da 9ª sinfonia de Beethoven (que dura um pouco mais de uma hora), uma sinfonia de menos de 10 minutos

O dodecafonismo influenciou imensamente os jovens compositores e músicos da altura. Schönberg foi criticado por não aproveitar todo o potencial da sua técnica. O serialismo total torna-se comum após a Segunda Guerra Mundial e consiste na aplicação de séries a todos os parâmetros da música: ritmo, dinâmicas, instrumentação etc. até ao ponto em que após definir as séries e como elas se organizam não há muito mais a fazer…

Em resposta a música serial de, por exemplo, Stockhausen (Gruppen ou Telemusik – música eletrónica) ou Pierre Boulez (Le marteau san maître) surgem várias provocações. John Cage afirma que se escrever música aleatória e der a ouvir a alguém, essa pessoa não perceberá a diferença. Daí resulta Music of Changes que é composta com material musical escolhido através do lançamento de uma moeda. Cage inventa e compõe para o piano preparado (piano com som alterado através da inserção de algum objeto nas cordas) para imitar o som do gamelão. As suas partituras são muito incompletas de forma a deixar vários parâmetros da música à escolha do intérprete, desde as alturas (“melodia”), ritmo, velocidade, ou mesmo que partes deverão ser tocadas.


Partitura de John Cage

Desde música para qualquer instrumento que se possa ter na sala de estar até à sua composição mais famosa, 4’33’’, que consiste em 4 minutos e 33 segundos de silêncio, John Cage é um ótimo exemplo de um compositor vanguardista do séc. XX.

Piano preparado

quarta-feira, 20 de março de 2013

‘Pães, Peixes e Rock’n’Roll’

por Ana Rita Matias

No passado conclave, talvez mais do que em qualquer outro, a questão da origem geográfica do papa católico esteve na ordem do dia. As I see it, atualmente existem diferenças de âmago entre a Igreja da Europa, secular, do ponto de vista sociológico, mais aberta no que toca às práticas e valores, e a Igreja da América latina, África e Ásia, onde está a sua principal base de seguidores. A eleição do argentino Jorge Bergoglio poderá constituir um laço de união, nesse sentido. É incontestável a importância da religião católica no mundo e na nossa sociedade, seja uma pessoa crente ou não. Encontrando-me nesta última categoria, dei por mim a sentir talvez a mesma expectativa sobre identidade do novo pontífice. Como espectadora de bancada, num jogo que admito não compreender totalmente, e que na realidade tenho sérias dúvidas, penso que existem pontos que a Igreja do século XXI terá forçosamente de pensar.

As mudanças deviam ocorrer no seio da própria Igreja – a questão do casamento dos padres, o papel da mulher na Igreja, a homossexualidade, os métodos contracetivos, a questão do aborto, a pedofilia... Não discutir estes assuntos e outros – e dissimular que eles não existem dentro da comunidade católica - é alimentar um monstro que só poderá se virar contra si próprio. A Igreja tem de se pensar enquanto instituição. De seguida, tem de pensar na sua ação. A pobreza, por exemplo, deve ser, mais do que nunca, uma preocupação da Igreja, não só, mas também, devido aos desenvolvimentos económicos e sociais na própria Europa. Nos tempos que correm, a mera proliferação dos ensinamentos, da Fé, de práticas e valores é fatalmente insuficiente. 



Penso que se poderia fazer muito mais e melhor na literacia e desenvolvimento pessoal e humano, no apoio às famílias e comunidades - não dar o peixe, ensinar a pescar – os homens e as mulheres da igreja são um dos grupos mais preparados a este nível. Sejamos claros e honestos no tipo de respostas que a Igreja pode dar, e potencializá-las. A Igreja pode constituir-se como uma rede privilegiada de alternativa à resposta governamental, das ONG’s, associações ou IPSS. E pode começar por fazê-lo localmente, nas paróquias de aldeias ou cidades, no contato direto com os crentes, não crentes e (des)crentes. Não digo que essas respostas não existam e que não existam pessoas dentro da Igreja a fazê-lo. Contudo, parece-me que a Igreja continua demasiado hesitante em dar os passos que precisam ser dados para enfrentar os desafios futuros.

Não se ganha a confiança e se combate a crescente descrença com fechamento e tentativas de evasão a temas incómodos. Gostava de ver um Papa a fazer este discurso e com abertura o suficiente para o fazer. Para já, apesar das controvérsias sobre o seu passado, pergunto-me se a escolha do Papa do seu nome papal será indício de alguma mudança. Como Fernando Madrinha disse no Expresso do passado Sábado, “foram precisos 800 anos para um Papa se lembrar do frade mendicante ao sentar-se no luxuoso trono pontifício”. Percebo contudo que estou a projetar a imagem de uma Igreja que na minha cabeça faria sentido: uma Igreja onde não houvesse discriminação de qualquer espécie (em particular sexual), em que a aceitação do outro fosse plena, em que se assumisse o problema da SIDA e se visse nos métodos contracetivos o caminho para o seu combate, a questão do aborto como um direito inquestionável da mulher, a democratização dentro da própria Igreja, que a leitura textual da Bíblia não faz sentido, nem nunca fez; tudo isto, sem esquecer os valores essenciais que construíram e fundaram a Igreja: a ajuda ao outro, a solidariedade, o afeto, o carinho, o saber dar. Mas como disse no início, a este jogo apenas assisto. 


terça-feira, 19 de março de 2013

Take-away do submundo

por Rui Filipe

Para não me acusarem de qualquer tipo de anti-patriotismo (uma acusação que se calhar nem é descabida), depois de ter andado a mostrar o melhor que há tanto do outro lado do oceano como na nossa amigável ilha acima de nós, viro-me hoje para um dos grandes frutos da criatividade destas areias de Portugal. Na realidade, se calhar é um pouco prematuro colocar este rótulo na obra que decidi divulgar aqui, se olharmos com atenção percebemos que tanto o seu desenhador como colorista pertencem igualmente aquele conjunto de pessoas que vive do outro lado do oceano, mais especificamente na América do Sul. Porém, dado que o criador da história, que irei falar mais à frente, e toda a narrativa desta, pertencem ao habitat do peito ilustre lusitano, é bastante seguro rotular esta obra, que é de uma invulgar criatividade e entusiasmo nestas zonas, como pertencendo a estas terras. Para os mais entendidos na matéria, já percebem que estou a falar das Extraordinárias Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy.



Se alguém neste momento está um pouco de pé atrás porque tem um estranho preconceito de que qualquer banda-desenhada europeia (e Portugal ainda é Europa) se trata de algo chato e introspectivo, em que basicamente existe muito diálogo e nu artístico, caso o nome ainda não o tenha feito, não tem que se preocupar com esta saga. Em vez deste cenário pouco apelativo, o autor Filipe Melo (alguém que por si só merece menção e que aconselho uma vista de olhos por todas as coisas que fez), ressuscitando em grande parte o espirito dos filmes de terror clássicos, traz-nos para uma Lisboa onde acima de tudo vive o fantástico e o terrível.

Eurico, um tanso alfacinha que inicialmente surge como um entregador de pizzas, encarna o papel de protagonista neste conjunto de histórias onde por obra estranha do destino encontra um dos investigadores mais bizarros que se pode esperar. Em conjunto com este, Eurico acaba por descobrir uma nova Lisboa e arredores onde, para além dos cenários que maior parte de nós conhecemos, também descobrimos toda uma população obscura que compartilha esta cidade.


Dado que supostamente somos seres humanos normais, a viver num mundo aparentemente natural, a única forma de aceder a esta face de Lisboa é pela nossa imaginação. Logo, a qualquer pessoa que queira conhecer uma nova visão deste local onde vivemos (chegando até a haver algumas referências á nossa amada senhora de Fátima), ou que então tenha apenas um gostinho especial por tudo o que tenha aquela aura do terror clássico, aconselho vivamente esta banda-desenhada. E já vai em dois números, portanto já há muito material suficiente para manter a malta ocupada!

segunda-feira, 18 de março de 2013

Um Universo em Expansão, o Mundo a Encolher e a Ascensão das Máquinas…

por Parelho

Se esperam encontrar abaixo um debate sobre a descoberta do Universo, a unificação dos Continentes e o domínio das Máquinas, lamento desiludir-vos… Bom, pelo menos em parte, uma vez que este texto não aborda propriamente estas temáticas, servindo apenas como meio de exposição para certas teorias que constituem somente uma pequena parte da equação…

Teoria da Continuidade (aplicada à Teoria dos Jogos)
Primeiro, uma teoria sobre o desenvolvimento de Universos virtuais. É importante a indicação da sua aplicação à Teoria dos Jogos, uma vez que a Teoria da Continuidade pode ser aplicada a outros campos da Matemática. Neste contexto, a teoria defende que um Universo, real ou virtual, em que um jogo decorre pode ser expandido se se aumentar o número de escolhas disponíveis ao jogador. Essas escolhas tomam aqui o nome de “Estratégias” e encontram-se hoje descritas com inúmeras fórmulas matemáticas. Elaborar aqui essas fórmulas iria contra o propósito deste texto pelo que será mais produtivo procurar o entendimento da teoria através da sua utilização na prática.

Comecemos por analisar um jogo de Xadrez. Embora o objetivo seja sempre o xeque-mate, existe uma imensidão de maneiras, isto é, Estratégias para se obter o xeque-mate, de tal ordem que a probabilidade de haver dois jogos exatamente iguais é extremamente diminuta. O Xadrez é, então, um jogo com grande Continuidade.

Já se falarmos de um First Person Shooter, em que o objetivo é matar ondas sequenciais de inimigos genéricos (esquematizado abaixo, à esquerda), dir-se-á que o jogo tem uma Continuidade pequena.

O que se pretende hoje, através da Teoria da Continuidade, é expandir o Universo, não só dos First Person Shooters mas dos videojogos em geral, com a adição de objetivos opcionais, fins alternativos e narrativas adaptativas, tornando o jogo mais agradável (esquematizado acima, à direita).

Teoria dos Seis Graus de Separação
Agora, uma teoria que se debruça sobra as relações interpessoais. Esta teoria apoia a noção de que qualquer pessoa ou qualquer objeto pode ser conhecida ou obtida, pela apresentação de outra pessoa, em seis passos ou menos.

Mais uma vez, esta é uma teoria melhor compreendida com um exemplo prático. Consideremos o José, que é amigo da Maria, que conhece o João, que, por sua vez, tem o contacto da Joana. A Joana fala com o Carlos, que é irmão da Paula, que namora com o António. Assim, o José pode entrar em contacto com o António em seis passos (como exemplificado abaixo).


Seguindo o raciocínio acima, pela Teoria dos Seis Graus de Separação, quaisquer duas pessoas do mundo podem conhecer-se através de “um amigo de um amigo”, num máximo de seis passos.
Hoje em dia, existem diversos estudos que apoiam esta hipótese, estudos feitos a partir de redes sociais, como o Facebook e o Twitter, e através dos tão desprezíveis “e-mails em corrente”. Faz-nos pensar se não estaremos a fazer parte de uma investigação em massa, da próxima vez que recebermos um…

Teoria da Singularidade Tecnológica
E finalmente, uma teoria para os aficionados da ficção científica. Esta teoria defende o surgimento de inteligência superior à humana através dos meios da tecnologia.

O conceito é simples; a inteligência artificial programaria autonomamente gerações sucessivas de novas inteligências artificiais, do mesmo modo que os humanos programam a inteligência artificial na atualidade. Essas novas inteligências artificiais seriam cada vez mais poderosas, de tal forma que a sua capacidade aumentaria de forma exponencial e ultrapassaria a compreensão humana. A sua ocorrência transcenderia, assim, qualquer possibilidade da sua previsão, teórica ou prática.


Embora haja uma concordância geral sobre a inevitável ocorrência deste fenómeno, o mesmo já não se pode dizer sobre as suas consequências. Há quem defenda que a Humanidade conseguiria utilizar tal tecnologia para benefício próprio. Há quem defenda que a Humanidade nunca conseguiria fazer uso apropriado daquilo que não entende e que as Máquinas em si não teriam qualquer razão para nos ajudar. E há quem defenda que a existência de tal tecnologia seria incompatível com a sobrevivência da raça Humana.

Será possível estabelecer medidas preventivas contra as Máquinas se a Teoria da Singularidade Tecnológica afirma que o surgimento da superinteligência não pode ser previsto? Será a Teoria dos Seis Graus de Separação uma hipótese tão descabida com a crescente globalização do Mundo? E será a Teoria da Continuidade relevante num mercado dominado por videojogos que oferecem uma jogabilidade reciclada, mascarada com motores gráficos potentes? Estas são algumas das questões com que vos deixo… Até uma próxima!

sábado, 16 de março de 2013

Habitat Sustentável

por Manuela Braga


Hoje estive num seminário sobre DAP-DECLARAÇÕES AMBIENTAIS DE PRODUTO.

Os curiosos, que gostam de saber de tudo um pouco, deverão gostar de saber que este pequenino rectângulo-Portugal- fabrica imensos produtos para a construção civil.

A situação económica em que nos encontramos empurrou os produtores para o Mercado internacional.
Esta exportação, poderá ser o salva-vidas da economia Portuguesa.

O livre-trânsito de produtos na Europa, não é assim tão livre nem fácil, dado que as normas de certificação de cada país, exigem, que os produtos devam ser certificados e passar por variadíssimas análises de qualidade.

Para melhor explicar as exigências pedem:- Para poupar 30% na matéria-prima, emitir menos CO2 para atmosfera menos 30% do que emitiam e custar menos 30%.

As análises que são feitas em cada país Europeu, têm que seguir os mesmos critérios .
Estão-se a fazer RCP-Regras para a categoria de um Produto- no sentido de ter as mesmas referências de classificação, e não ser obrigada a ser classificado pelos outros países.

Criou-se uma plataforma de construção sustentável em Portugal , que emite um Dap e uma certificação de um produto para que seja aceite em qualquer outro país; é um passo gigante na salvação da produção nacional de materiais de construção civil.

Este esforço na concorrência a nível internacional dos produtos Portugueses obriga a um esforço e a uma análise de qualidade, acompanhada pelos técnicos de maior gabarito (investigadores Universitários, produtores, Engenheiros especializados, desde o berço à produção passando pela construção , manutenção e demolição. Mesmo na demolição se põe a questão da reutilização do produto, num circuito  ecológico. A produção cuidada com tecnologia avançada permitirá que se cumpram os objectivos ambientais nos tratados internacionais do Mundo Sustentável .

Todo este trabalho foi iniciado já em 2010 e pode agora ser visitado no site:



A Europa está a crescer,  visível apenas pelo capital.

O que mais me assusta nestes processos, é a desumanização do habitat.

Os portugueses não têm possibilidades económicas para competir com materiais de gabarito.
Ultimamente, quando tenho que fazer um projecto, as normas, regras, exigências e certificações são tantas da parte do Governo, que o espaço de habitar se está a tornar ilegível, sob o ponto de vista da sua habitabilidade. A minha casa porque foi construída antes das últimas normativas nacionais, é maravilhosa, quente, amável, confortável.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Que poder está nas mãos do cidadão?

por Luís Noronha

A humanidade desde sempre se organizou em pequenos núcleos sociais, mesmo antes de se sedentarizar. O mesmo se passa com os outros seres vivos, que se associam para melhor se defenderem das adversidades. Normalmente abriga-se à proteção dos mais fortes.

O mais recente meio de organização social é o dos Estados, que têm como função principal proteger os cidadãos e não uma máquina que vive à custa deles. Este tipo de organização não deverá ser o último.
Embora vivendo à sombra da proteção de famílias mais poderosas, até nas monarquiasde evoluíu para formas de organização políticas em que os cidadãos passaram a ter cada vez maior intervenção nas decisões do Estado.

Os sistemas que mantêm os cidadãos fora das decisões que os afetam, acabam sempre por ser repudiados por estes, poucas vezes de forma pacífica.



O que se tem passado na Europa e em Portugal, em tempo de crise, tem sido uma subversão do que devia ser o respeito pelas chamadas regras democráticas. A sociedade tem regredido em todos os aspetos, depois dos direitos progressivamente conquistados.

A democracia impõe o direito do cidadão ser consultado, não apenas pelo voto que exerce para eleger os diversos órgãos do poder.

Se ao fim de algum tempo a prática do poder desmente o programa proposto, qual é recurso ao alcance dos cidadãos para corrigir a situação? 

A divisão de poderes permite algum equilíbrio, mas se esses poderes são do mesmo sinal, se são cúmplices do embuste, o que resta aos cidadãos senão a revolta?

E qual é o efeito das diferentes manifestações de revolta, se todo o poder é controlado?

Não resta outra alternativa senão procurar os outros meios de intervenção que estão ao alcance

O referendo é muito usado na Suíça mas tem sido utilizado de forma por vezes perversa, ao impor a vontade ou os hábitos de curta maioria às minorias. Em Portugal o referendo pode ser requerido pelos cidadãos, mas com obstáculos quase intransponíveis.

A petição é um meio recentemente muito utilizado, previsto na Constituição e na Leimas nunca terão como consequência a alteração de decisões da maioria que houver na Assembleia.

A manifestação popular, juntando setores profissionais ou a população em geral, para reclamar ou para protestar, tem efeitos de desgaste do poder contra o qual se dirige, porque encurta a sua base social de apoio para as medidas que são impopulares. Quando a mobilização é grande normalmente tem consequências e provoca recuos nas decisões mais contestadas.

A greve é outra “arma” usada, ao dispor de quem trabalha, mas normalmente é a última delas, porque afeta bastante quem já é vítima das medidas contra as quais protesta.

A participação popular nas associações, sindicatos, organizações não governamentais e órgãos de poder local, são outras formas de democracia direta mas com pouca influência na definição da política do Estado.

A participação nos meios de comunicação, é um veículo transmissor e formador de opiniões e transformador de mentalidades.



A democracia não se esgota nas atuais fórmulas.

Na Suécia surgiu uma experiência de voto eletrónico que vincula a representante eleita pelo Demoex (experiência democrática), no município de Vallentuna perto de Estocolmo. Ela vota todas as propostas de acordo com a votação online dos eleitores inscritos na sua página.

Quanto mais instrução, educação, cultura e consciência cívica tiverem os cidadãos, mais difícil será a qualquer elite impor o seu poder, usando-o para fins diferentes e opostos com os quais se apresentou ao sufrágio.



A vontade popular, numa sociedade mais avançada, mais evoluída, mais informada tenderá necessária e inevitavelmente para formas de participação mais diretas e eficazes.

segunda-feira, 11 de março de 2013

A Teoria da Relatividade

por Miguel Furtado


Quando dizemos que algo é relativo é porque depende das circunstâncias, não é absoluto,  por um lado pode ser de uma forma, mas por outro de outra. Por exemplo, a disposição com que vou acordar amanhã depende das horas de sono ou do que terei para fazer após me levantar. Outro exemplo é… o tempo! Porque não pode ser medido exactamente do mesmo modo por toda a parte. Esta ordem de ideias levou à criação de uma das mais célebres teorias científicas existentes: a Teoria da Relatividade.

Apesar de não ter tido em conta a dependência temporal, Galileu foi o primeiro a reparar que a descrição do movimento de um corpo só faz sentido quando comparado com um dado ponto de referência. De facto, se dois carros a 50 km/h se cruzarem em sentidos opostos, a velocidade relativa do carro B em relação ao A é de 100 km/h, porque o referencial é o A, e a velocidade deste último em relação a si próprio é 0 km/h. De outra perspectiva, a velocidade relativa de uma parede em relação ao referencial do carro A é de 50 km/h.


Mais tarde surgiu Einstein, com ele a teoria foi publicada e a definição de tempo teve que ser repensada. A ideia de um tempo universal, igual para todos e em todos os lugares, foi posta de parte. Passou a ser visto como a 4ª Dimensão, associando-se, desta forma, às restantes três que formam o espaço: comprimento, largura e altura. Desde então que ambos os componentes se encontram fortemente associados. Apesar de poder parecer confuso, uma análise mais cuidada leva-nos a observar que não é possível um corpo mover-se no espaço sem se deslocar no tempo. Caso contrário, a velocidade de deslocamento seria infinita, o que quebraria um dos postulados desta Teoria, que afirma que a maior velocidade possível para algo material é a velocidade da luz.

Duas versões foram publicadas, a da Relatividade Geral e a da Relatividade Restrita, que diferem na descrição do movimento, respectivamente, com e sem a presença de campos gravíticos. A Geral consiste na reformulação da teoria da gravitação de Newton, tendo em conta as considerações sobre o espaço e o tempo da Relatividade Restrita. Assim, esse fenómeno passou a ser descrito pela curva que a matéria lhes causa! A analogia mais comum para explicar a gravidade através desta curvatura é imaginar um lençol esticado, onde é colocada uma bola pesada (de bowling, por exemplo) no centro. O lençol irá entortar devido ao peso da bola e se for colocada outra bem mais leve no mesmo lençol, esta irá rolar em direcção à pesada. Apesar de apenas ter em conta 2 dimensões (comprimento e largura) e não as 4, pode-se aplicar este modelo aos sistemas planetários. A título de curiosidade, os planetas não “rolam” em direcção à estrela central, pois possuem velocidade suficiente para se manter em órbita, mas inferior a um valor com o qual escapariam do sistema (velocidade de escape). No caso do lençol, idealizando as condições de forma a que os atritos fossem inexistentes, também seria possível encontrar uma velocidade para a qual a bola ficaria em “órbita”.


Os buracos negros são corpos onde o espaço e o tempo são de tal forma distorcidos que nem a luz lhes consegue escapar, isto é, a maior velocidade possível de atingir no Universo é inferior à velocidade de escape necessária para fugir a um buraco negro.
Também foi desta Teoria que nasceu a famosa expressão da equivalência massa-energia: E = mc2. O seu significado é: a energia máxima, E, que se pode obter de um objecto é a massa do próprio, m, multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz, c. No entanto esta é a expressão simplificada, verdadeira se forem considerados apenas corpos em repouso. Para corpos em movimento, a expressão é E = mc2γ, onde:


Este factor γ desempenha um papel preponderante na interpretação de consequências da Relatividade como a dilatação do tempo t = t’ γ, ou a contracção do espaço l = l’ / γ, onde l’ e t’ são comprimento e tempo de repouso. Para explicar, recorrerei a uma derivação do experimento mental de Einstein. Vamos supor que o indivíduo X se encontra dentro de um comboio, na zona central, e o Y na estação (ver a figura). O veículo viajará a uma velocidade próxima de c e quando passar em frente a Y, um relâmpago cairá de cada lado do comboio, sobre a linha, no mesmo instante de tempo. O Y verá a luz dos relâmpagos ao mesmo tempo, no entanto, o X verá primeiro o que cai na zona A e só mais tarde o que cai em B, porque a velocidade do comboio é tão grande que a luz proveniente de B demora um certo tempo considerável a “apanhá-lo”! No referencial do X, que é o mesmo do comboio, houve um atraso temporal entre os dois acontecimentos A e B, mas para Y não. Diz-se que, no caso do observador X, houve uma dilatação do tempo.


De um modo idêntico, porque a velocidade tem que ser invariante, o comprimento do comboio visto por Y será menor do que visto por X. Se fixarmos a extremidade da frente para ambos os observadores, Y verá a cauda do veículo mais à frente que X, porque este tem velocidade suficiente para que a luz emitida por essa extremidade que chega primeiro a Y não seja a do ponto inicial, mas a de um ponto mais à frente. Quanto maior a velocidade, maior serão estes fenómenos.

Para finalizar e complementar estes conceitos, aqui fica o paradoxo dos gémeos, que dará uma noção em maior escala destes efeitos, nomeadamente da dilatação do tempo: