Blogue de divulgação cultural, escrito por 28 pessoas. Um texto por dia, todos os dias.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Festividades do Senhor Santo Cristo dos Milagres

por Bruna Valério


Pondo em pausa a minha longa, devo confessar, exposição sobre a Arte Namban, este mês venho falar de algo que faz parte da História dos Açores, mas certamente terá maior expressão na ilha de São Miguel. Falo claro, da festa do Senhor Santos Cristo dos Milagres, cuja celebração se aproxima. Diz a tradição que o barco onde esta imagem era transportada naufragou, tendo a imagem como que por milagre encontrado o seu caminho para terra. Devido a estas circunstâncias do seu aparecimento desenvolveu-se, em trono desta imagem, um culto tão forte, que não desvaneceu ou enfraqueceu com o tempo.
Ligada às Festividade do Senhor Santo Cristo dos Milagres temos um nome que ficou para sempre ligado a esta imagem: Madre Teresa da Anunciada, é em Jesus Cristo, na sua representação de madeira deixada ao abandono que dedicou grande parte do seu tempo, da sua fé e do seu amor. Foi a responsável pela valorização que tem hoje em dia, fazendo de seu objetivo fazer crescer a crença na mesma através da construção uma capela digna para seu culto, lentamente foi pedindo dinheiro, esmolas e ofertas para fazer desse sonho uma realidade, e ao mesmo tempo embelezar a pobre imagem.


É graças a Madre Teresa da Anunciada a quem se devem as tradições que ainda hoje persistem. Como exemplo disso tempos a festa e a procissão em sua honra, como forma e oportunidade para o crentes o adorarem. Um acontecimento que foi ganhando cada vez mais força, "A homenagem do povo, das forças armadas, os tapetes de flores, todo o brilho dado à celebração sã manifestações de fé, expressão de amor e devoção ao Senhor que é Rei dos corações e das almas, das pessoas." Ou seja, vemos que as pessoas aderiram a esta iniciativa, à missão de Madre Teresa da Anunciada, dando-lhe a celebração e a adoração que esta sabia que a imagem merecia.
Madre Teresa da Anunciada não foi a única, nem a primeira a interessar-se por a imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres, esse protagonismo pertence a Joana, que pressentiu algo de sobrenatural na imagem. No entanto, com o passar do tempo esta missão tornou-se grande parte da vida de Teresa.


Independentemente de quem terá começado, de quem se terá interessado pelos poderes desta imagem, é inegável que ainda hoje, esta manifestação religiosa é uma das mais fortes nos Açores, uma que começou devido ao mar e a um naufrágio. É de notar que é uma tradição que acaba por ser internacional devido aos emigrantes que embora longe fisicamente fazem sempre por marcar a vivência do país para onde foram, como Canadá e Estados Unidos da América.
Para aprofundamento do tema:
  • LALANDA, Maria Margarida de Sá Nogueira, Considerações históricas sobre a Madre Teresa da Anunciada, in Arquipélago - História, Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 2005, pp. 275 - 308;
  • S. A., Vida e Virtudes da Madre Teresa d'Anunciada, Ponta Delgada, s. e., 1987;

terça-feira, 30 de abril de 2013

O ETERNO RETORNO


Com uma ajudinha dos conselheiros Acácios

por Luiz de Mont'André

 – Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá… O empréstimo faz-se ou não se faz?
E acirrou a curiosidade, dizendo para todos os lados que aquela questão do empréstimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episódio histórico!... 
O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respondeu, com autoridade, que o empréstimo tinha de se realizar «absolutamente». Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministérios era esta – «cobrar o imposto» e «fazer o empréstimo». E assim se havia de continuar…
Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, o país ia alegremente e lindamente para a bancarrota. 
– Num galopezinho muito seguro e muito a direto – disse o Cohen, sorrindo. – Ah, sobre isso, ninguém tem ilusões, meu caro senhor. Nem os próprios ministros da Fazenda!... A bancarrota é inevitável: é como quem faz uma soma…

Os Maias, claro, livro sempre e cada vez mais actual em mais lugares. 
Publicado em 1888. 
E o país foi, mas só em 1892. 
Outros tempos, mais lentos, mais remansosos, menos eficazes.
Sabe-se como agora é tudo mais acelerado e certeiro. E os conselheiros Acácios velam por que não haja mais delongas do que as estritamente necessárias.

Tempo é dinheiro.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Séries


por DavidN

Hoje venho falar de séries. Pois bem, tal deve-se a um grande número de factores. Ao facto de já ter visto tantos filmes, que às vezes os que faltam ver, não me chamam assim tanto, aliado ao facto de não haver assim tantas estreias de gabarito, como pelo facto de não ter muito tempo livre, para despender em 2 horas consecutivas num filme com a regularidade que desejava.

Assim sendo, os poucos furos vão sendo preenchidos com séries, que à partida, parecem ideais para encher buracos e entreter durante uns minutos, mas que, com uma escolha sábia, são capazes de entregar também histórias sérias e bem construídas, pois têm tempo para amadurecer as personagens e permitir-nos identificar com as histórias e atitudes das mesmas, coisa que em filmes de hora e meia, nem sempre dá tempo. Vou começar por referir algumas das minhas séries favoritas que já acabaram, e depois remeterei para umas quantas que ainda estão no "ar".

24 : Por muitos considerada uma das melhores séries de sempre, é uma série onde acompanhamos a Unidade de Contra-Terrorismo de LA, seguindo de perto Jack Bauer, o melhor homem no terreno e que salva a América 8 vezes. Em cada temporada, seguimos uma história diferente, ao longo de 24 horas, em tempo real. Frenética e cheia de acção, bem construída, boa sonoplastia e um grande papel de Kiefer Sutherland fazem esta série pertencer ao meu top5. Acabou em 2010 por o custo por episódio (elevado dado o tipo de série) já não render o lucro desejado.

Chuck : Uma agradável surpresa, é uma série onde acompanhamos Chuck Bartowski (Zachary Levi), um geek que por uma série de infortúnios acabou a trabalhar na secção de informática de uma cadeia de supermercados e que um dia, descarrega para o seu cérebro uma série de dados confidenciais do Governo, e torna-se um espião de um dia para o outro. Muito divertida, consegue juntar com sucesso o bom humor de uma comédia, com romance e muita acção, como uma série de espionagem bem o pede. No topo do bolo, uma das melhores soundtracks de séries de sempre. A ver e ouvir.

30 Rock : Comecei a ver por acaso na RTP2, (como foi o caso, aliás, das anteriores duas), e "desde logo me prendeu". Um humor bem construído sobre as situações e peripécias do backstage de um programa televisivo, quer entre guionistas, quer com as "estrelas", quer com a direcção, onde Jack Donaghy (Alec Baldwin) toma especial destaque. É impossível não gostar da sua personalidade e humor, nem ao consistente argumento de Tina Fey.

Agora relativamente a séries ainda a passar nas televisões (nacionais ou estrangeiras), gostaria de
mencionar cinco.

Game of Thrones : Uma série muito bem construída, com um bom argumento, elenco e fotografia.
Está bastante em voga, pelo que dispensa apresentações.

House of Cards : Primeira série a estrear unicamente online (no site Netflix) e não na televisão. Tem mão do poderoso realizador David Fincher e conta com Kevin Spacey no principal papel de um ambicioso congressista americano, na sua sede de subir na cadeia e chegar a presidente. Óptima
série a todos os níveis.

Mad Men : Comecei a ver por, mais uma vez, por ter ideia de que era uma série com uma personagem principal de carácter forte, decidido e que "domina a tela", tal como outras das séries que já referi e que gosto bastante. E não fiquei decepcionado. Jon Hamm como Don Draper tem de facto um papelão, como Director criativo de uma empresa de publicidade de Manhattan nos anos 60.

Sherlock : Esta nova versão do famoso detective inglês, produção da BBC, coloca-o na nossa época, e faz uso das novas tecnologias quando precisa, para atingir os seus fins. À primeira vez pode parecer que não funciona, mas bastaram-me alguns minutos no primeiro episódio para ficar agarrado. Tem Benedict Cumberbatch e Martin Freeman nos principais papéis e entregam óptimas performances. Muito boa.

Curb Your Enthusiasm : É da autoria de Larry David e tem-no no principal papel. O humor é do melhor que há, a explorar a comicidade das situações do dia-a-dia. Recomendo em particular a última temporada, passada em NY. Para fãs de Woody Allen, identificar-se-ão rapidamente.

Como habitualmente, seguindo o alfabeto, hoje temos o 'G'. Assim sendo, tenho de recomendar o
muito conceituado Gladiador (2000), Goodfellas (1990) para qualquer fã de filmes da mafia italiana
em NY, com Robert De Niro, Ray Liotta e Joe Pesci, e Gran Torino (2008), de Clint Eastwood.
Fica ainda espaço para recomendar mais um James Bond, neste caso, o Goldfinger (1964), que é
seguramente um dos melhores.

Um beco sem saída

por Luís Abrantes

Beethoven possuía uma capacidade de desenvolvimento de temas musicais nunca antes vista. Id est, após a secção expositiva de uma obra onde se apresentam os temas iniciais segue-se a secção de desenvolvimento onde os temas são alterados/apresentados de uma forma diferente de modo a manter o interesse do ouvinte. Beethoven compõe o primeiro andamento de uma das suas mais conhecidas sinfonias sobre um pequeníssimo tema (talvez o mais conhecido da história da música ocidental).

Em 1814 (cerca de 10 anos após a apresentação da sinfonia Eroica, que causou controvérsia), Ludwig atinge o auge da sua popularidade. Ironicamente o seu estilo de composição volta a alterar-se e no final da sua vida compõe praticamente só para si (ex: Grande Fuga).

Tal coisa não acontecia 20 ou 30 anos antes. De facto tornou-se comum compositores do séc. XIX estarem constantemente um, dois, três (…) passos à frente de quem ouvia as suas obras. Vinte anos depois da morte de Beethoven (que fez a música dar uma salto em frente) já Berlioz havia escrito o seu Tratado sobre Instrumentação e Orquestração e Chopin composto a primeira peça com características atonais (Prelúdio para piano nº2).

Na segunda metade do séc. XIX surge uma segunda vaga de compositores românticos onde se incluem Liszt, Brahms, Wagner e posteriormente Mahler e Richard Strauss. Wagner continua a desenvolver o sistema tonal e Mahler e Strauss vão esgotar o resto das possibilidades. Brahms cria uma nova técnica de desenvolvimento que consiste na criação de novos temas a partir dos motivos (partes) que constituem os temas em si. As secções de desenvolvimento passam a ser expositivas também uma vez que surgem novos temas mas que resultam de temas já antes ouvidos. Esta técnica permitia evitar repetições musicais, apresentar sempre material novo e portanto manter a originalidade (algo que se torna cada vez mais difícil). Liszt compõe a primeira peça atonal da história (mal aceite por Wagner que comenta à esposa que o seu velho amigo endoideceu).

Apesar destes avanços enormes é Arnold Schönberg quem vai entrar verdadeiramente no atonalismo. As suas primeiras grandes obras são de carácter romântico tardio (Noite Transfigurada, 1899) e de grande ambiguidade tonal (é difícil sentir o tom de repouso).

Começa-se a tornar obsessivo, nesta fase da história da música, a não repetição musical. Schönberg diz: “Comigo, a variação substitui quase completamente a repetição”. Este compositor considera que resulta de uma longa linha de compositores alemães (Bach, Mozart, Beethoven, Brahms e Wagner) e que, tal como eles, deve construir sobre o passado para criar algo nunca antes ouvido, algo digno de o imortalizar. A sua música (e a dos seus contemporâneos) está repleta de dissonâncias prolongadas, de imenso cromatismo e modulações inesperadas que diminuem a influência da tónica (tom de repouso) fazendo com que nem faça muito sentido ouvi-la no final da peça. Para além disso tornava-se difícil de, sem repetir algo já ouvido, terminar uma frase musical de forma convincente na tónica.

Estas ambiguidades levaram Schönberg ao que chamava “a emancipação da dissonância” – libertar a dissonância da necessidade de resolver numa consonância e fazer com que qualquer combinação de sons fosse um acorde estável. Uma vez aceite esta ideia, o atonalismo tornou-se inevitável – era a única forma de continuar a fazer música completamente nova. Schönberg apenas executou o que o princípio da não-repetição ordenava – uma constante originalidade.

sábado, 20 de abril de 2013

O papel da Ciência no Desporto

por Miguel Furtado


Desde sempre que o desporto é caracterizado, de entre inúmeras outras vantagens, pela busca da superação pessoal, de vitórias colectivas, estando nisto intrínseco o factor competitivo.

Cristiano Ronaldo, imagem de marca de um atleta potenciado em “laboratório”
É graças ao contínuo desenvolvimento do conhecimento desportivo que os atletas de hoje estão preparados para, não só ultrapassar os do passado, mas também desafiar os limites da gravidade, do tempo, da força ou da resistência física. Este desenvolvimento deixou de ocorrer apenas empiricamente, para passar a basear-se profundamente da Ciência. De facto, a investigação realizada no âmbito da Fisiologia, da Medicina Desportiva, bem como o avanço tecnológico, permite a estes atletas melhorar as técnicas de treino e os equipamentos utilizados. A Ciência permite “construir” um atleta potenciando-o fisicamente e equipando-o com materiais de alta tecnologia, essenciais quando este atinge o máximo da sua capacidade.
Também tem levado ao surgimento de novos desportos como o paintball e uns quantos designados de radicais.

Entre os métodos de treino inovadores destaque para o treino em altitude. Como o nome indica, consiste em realizar o exercício físico em zonas substancialmente elevadas, onde o oxigénio é mais rarefeito. Este método faz com os níveis de Eritropoietina (EPO) do atleta sejam mais elevados, provocando um aumento de glóbulos vermelhos, o que causa uma melhoria da resistência aeróbica. Assim, este obtém resultados consideravelmente melhores ao competir em zonas onde a percentagem de oxigénio é a normal, uma vez que o seu metabolismo “habitua-se” a trabalhar com menos oxigénio.

Altitrainer, aparelho concebido para treinar com défice de oxigénio
A Fisiologia e a Medicina também possibilitam conhecer as características “humanas” mais adequadas para determinados desportos, como prevenir de processos lesivos decorrentes do excesso de treino e, claro, cuidar de lesões de forma mais rápida e eficiente.

Não menos importante para a evolução do Desporto é o avanço tecnológico que se tem verificado. No entanto, se por um lado tem contribuído para a verdade desportiva, por outro causa, embora indirectamente, a heterogeneidade entre atletas ou equipas. A existência do Hawk Eye no Ténis, das placas electrónicas na Natação ou do Photo Finish no ciclismo e atletismo são alguns exemplos de sistemas que proporcionaram um aumento da qualidade dos resultados. Outro exemplo actualmente debatido é o uso da tecnologia de golo no futebol. Todavia existe uma grande disparidade entre os equipamentos utilizados pelos atletas, o que leva a que uns estejam melhor “munidos” para vencer, nomeadamente os que têm condições para investir na aquisição dos materiais topo de gama. Quanto mais caro for  maior é a diferença observada. Note-se, por exemplo, os desportos motorizados, onde as equipas com maior poder financeiro conseguem desenvolver veículos muito mais potentes e de condução mais fácil, que as restantes, além de atrairem o staff e pilotos mais qualificados. De há um tempo para cá que há uma tentativa por parte das federações internacionais de diversos desportos em equilibrar a balança, de homogeinizar as condições dos participantes e também para a sua própria segurança, ao estabelecer. regras e restrições aos equipamentos.

Hegemonia de Michael Schumacher e da Scuderia Ferrari entre 2000 e 2004
Outro exemplo é o recente uso de fatos de poliuretano ou “super fatos” na Natação, banidos da competição desde 2010. Em apenas um ano e meio caíram 174 recordes do mundo com a utilização deste equipamento de ”borracha”, em parte desenvolvido com a colaboração da NASA. 43 caíram numa única competição, o Mundial de Roma em 2009, considerado o seu apogeu.

Os fatos proporcionavam uma maior flutuabilidade, recuperação muscular e, consequentemente,  melhor performance
Estes exemplos trazem “à tona” questões preocupantes: até que ponto este desenvolvimento é justo e traduz a realidade do Desporto? A partir de que limite se deixa de atribuir o mérito da conquista ao atleta, mas sim ao equipamento utilizado? Também a evolução trazida pela Fisiologia e Medicina merece ser reflectida, por causa, naturalmente, do doping.
Os conhecidos casos da utilização de substâncias dopantes, como doses da já referida EPO, testosterona ou esteróides, são também exemplos de aplicação da Ciência no Desporto, apesar de puníveis tanto a nível legal como moral.

Lance Armstrong, banido eternamente e com todos os seus resultados anulados desde Agosto de 1998, por uso e distribuição de doping
Para finalizar, de referir que a indústria desportiva investe fortemente no atleta tecnológico, criando todo o tipo de materiais desde tecidos que facilitam a evaporação do suar, bicicletas aerodinâmicas até chips que registam a posição instantânea dos atletas que pode servir para fins de avaliação ou jornalísticos. Hoje, sem tirar mérito aos atletas de alto nível, o factor decisivo na história dos recordes e conquistas é o desenvolvimento da tecnologia e o conhecimento proveniente da Ciência do Desporto.

Para o leitor que leu tudo

por Rui Filipe

Talvez por uma extrema falta de criatividade, ou então por um gosto pouco saudável, dou por mim a falar de um tema, e de um herói, que já tratei anteriormente. Falo exactamente do Super-homem e de uma das múltiplas análises que é feita ao seu lado humano. Voltando a tratar, ainda mais outra vez, o senhor Alan Moore (que para alguém que tem o pouco discernimento de seguir as minhas entradas neste blog, nota que este autor causa em mim uma estranha devoção) e as suas histórias, neste caso debruçamos sobre o pequeno (algo que em nada influência o seu valor) For the Man Who has Everything.

Já falei anteriormente de uma história em que se expunha o homem de aço nos seus medos. Agora, mesmo voltando a haver uma manifestação da parte humana deste herói, esta ocorre, tal como o título indica em certa medida, a partir de uma outra coisa que sem nos aperceber também mostra em grande parte quem somos – os nossos desejos mais profundos.

Devido a um estranho plano, vemos um dos inimigos do herói aqui em causa a dar-lhe a coisa mais contra sensual possível, a obtenção do contentamento pela realização do que ele mais quer. Claro que de início, aliando a estranheza ao estranho, pode parecer um pouco bizarra a premissa de se dar o desejo mais profundo que se encontra presente do coração de um homem que voa, tem super força e velocidade, e que consegue cozinhar qualquer refeição a 5000 quilómetros de distâncias apenas com os olhos. Mas é exactamente aqui que nos voltamos a aperceber da verdadeira pessoa que está por detrás de toda aquela imagem heróica que é este símbolo da cultura popular.

Não vou, como é claro, dizer especificamente como é possível que tal se cumpra, e quais são os desejos em causa para o nosso Super-homem. Apenas direi que talvez seja surpreendente o resultado, especialmente quando, ao olharmos bem, notamos que há algo de estranho neste desejo concretizado. Acima de tudo, percebemos que possivelmente, para um herói, a sua visão do mundo e de si mesmo enquanto tomando este lugar é tal que, mesmo no seu maior desejo, já é impossível separar a imperfeição daquilo que é cobiçado. Porque afinal de contas, se um herói desejasse um mundo perfeito onde não é preciso heróis, então qual era o lugar do herói que deseja neste?

O Condicionamento Operante e a Condição Humana (I)

por Parelho

Estava eu recentemente numa aula de Propedêutica Comunitária a ouvir uma apresentação sobre prevenção primária e educação para a saúde quando o Doutor afirma que mensagens antitabaco do estilo “fumar causa rugas” são mais passíveis de fazer um individuo parar de fumar que mensagens do tipo “não fumar diminui a probabilidade de vir a ter cancro do pulmão”.

Comecei de imediato a questionar-me como era possível o cancro ser preferível às rugas… E no meio da minha derivação, recordações de tempos passados, memórias da Secundária e de temáticas sobre o comportamento… E é destas que vos venho falar!

Descrito por Skinner em 1937 como “um comportamento que é inicialmente espontâneo, em vez de uma resposta a um estímulo prévio, mas cujas consequências podem reforçar ou inibir a sua recorrência”, o Condicionamento Operante, ou Condicionamento Instrumental, refere-se a um tipo de aprendizagem comportamental na qual o comportamento de um indivíduo é modificado pelas consequências desse mesmo comportamento


Essa modificação pode ser em forma comportamental (i.e. tipo do comportamento), em frequência comportamental (i.e. número de vezes que se repete o comportamento) e em intensidade comportamental (i.e. duração do comportamento).

Para descrever a mudança comportamental fala-se, então, de Reforço (consequência que cause o aumento de frequência de um comportamento) e de Punição (consequência que cause a diminuição da frequência de um comportamento), sendo que tanto o Reforço como a Punição poderão ser Positivos (impostos após o comportamento) ou Negativos (retirados após o comportamento).

Existem, assim, quatro procedimentos básicos na aprendizagem pelo Condicionamento Operante:
  • O Reforço Positivo ou Reforço - um comportamento é seguido por um estímulo recompensador, aumentando a frequência do comportamento;
  • O Reforço Negativo ou Escape - um comportamento é seguido pela remoção de um estímulo aversivo, aumentando a frequência do comportamento;
  • A Punição Positiva ou Punição - um comportamento é seguido por um estímulo aversivo, diminuindo a frequência do comportamento;
  • A Punição Negativa ou penalidade - um comportamento é seguido pela remoção de um estímulo apetecível, diminuindo a frequência do comportamento.

Existe, ainda, um quinto procedimento, a Extinção, em que um comportamento que não tenha consequências, favoráveis ou desfavoráveis, terá uma diminuição na sua frequência, o mesmo acontecendo em comportamentos que tenham um cessar dos Reforços Positivo ou Negativo.


Se recuperarmos, agora, as mensagens antitabaco, percebemos que estas funcionam tendo por base o Condicionamento Operante, ao tentarem aumentar a frequência de um comportamento desejável (o não fumar) pela atribuição a esse comportamento de uma ocorrência favorável (o não ter cancro) ou, pelo contrário, ao tentarem diminuir a frequência de um comportamento indesejável (o fumar) pela associação a esse comportamento de uma ocorrência desfavorável (o ter rugas).

Quando dei por mim, o Doutor havia continuado a apresentação dizendo que isto acontece porque “a sociedade age para não ter prejuízos antes de agir para ter benefícios”. Foi aí que me apercebi que esta não era uma questão do conteúdo da mensagem mas antes uma questão da forma como a mesma era apresentada, uma questão da Condição Humana e da sua inerente predisposição para atuar sob o princípio de autopreservação, para atuar sob o princípio de não ter danos imediatos.

E eis que me surgiu outra questão: como se tornou o princípio de não ter prejuízo a diretiva de ação do Homem quando a Razão nos diz que a longo prazo o princípio de ter benefício é mais desejável? E é com esta pergunta que vos deixo… Até uma próxima!

domingo, 14 de abril de 2013

Quem lucra com a crise

por Luís Noronha



"Alguém que acredite
que o crescimento exponencial
pode continuar infinitamente num mundo finito
ou é louco ou é economista."

Kenneth Boulding, economista 
 

Há muitos anos que se alerta para a desenfreada exploração dos recursos naturais e para o consumo dos recursos que excede, no grupo de países mais ricos, o que é suportável. Se todos os povos tivessem um consumo equivalente ao dos países ricos, já hoje seria preciso mais do que um planeta para sustentar tudo isso. 

Por isso se criou a expressão “desenvolvimento sustentável”, que tomou forma sobretudo a partir da cimeira do Rio de Janeiro em 1992. As Nações Unidas tomaram a iniciativa da “Década das Nações Unidas para o desenvolvimento sustentável” que se iniciou em … 2005.

No entanto, em 2008 surgiu uma crise financeira nos Estados Unidos que se propagou à Europa, com reflexo no resto do mundo, mas que de forma simplista se poderia resumir no seguinte – estes dois blocos consomem muito mais do que produzem e têm de pagar por isso. Embora paguem muito menos, devido à utilização de uma mão-de-obra explorada ou quase escrava nos países mais pobres, o fluxo de capitais para esses países depauperou as suas finanças.

No entanto, o progresso do bem-estar dos povos nos países mais pobres não tem sido equivalente à diminuição do poder de compra nos países mais ricos, atingidos pelo desemprego e pela perda de rendimentos dos trabalhadores.

Nem o consumo de bens essenciais é suficiente, nomeadamente dos bens alimentares, originando situações de absoluta carência, quando se mantém um criminoso esquema de desperdício. Produzem-se bens alimentares equivalentes ao dobro do que seria necessário para alimentar a população mundial, mas uma parte morre de fome! O desperdício, a falta de regulação nas trocas comerciais, faz enriquecer grupos de privilegiados em cada um dos países, nos mais ricos e nos mais pobres.

A assimetria entre os mais ricos e os mais pobres cresce em todo o mundo e em todos os países. A desigualdade é o maior dos problemas com que se defrontam os povos de todo o mundo, incluindo nos dois mais poderosos. Nos EUA há milhões de “sem abrigo”, na China há milhões, incluindo crianças e jovens a trabalhar num sistema semelhante à escravatura. Mas nestes países cresce a opulência e a ostentação, a riqueza imoral, perante a pobreza que a rodeia.

No meio disto tudo cresce a especulação. A especulação de bens produzidos e que são essenciais e também a especulação virtual. Crescem as “praças financeiras”, os “mercados” onde nada se produz, onde se especulam bens, produtos e serviços que não existem, de empresas virtuais, com donos fictícios, com moradas que são apenas caixas de correio.

Nesta situação, a revolta cresce dentro dos que têm consciência que é preciso eliminar esta equipa de financeiros, ou meros comentadores, que inculcam na sociedade a ideia que são os próprios cidadãos os culpados da crise. São – culpados por existirem ou culpados por existirem e tolerarem a continuação do mundo assim!

Enquanto nas “praças financeiras”, especuladores, agiotas, usurários enriquecem com as suas frenéticas e desumanas decisões! Sem refletirem segundos sobre a quantidade de pobres que estão criando para poderem enriquecer a si próprios e aos parasitas que servem!

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Em que estado está o Estado de Direito?

por João Freire

Da análise critica e objectiva que se faz à legislação laboral portuguesa, constata-se que a mesma é altamente flexível e tendencialmente pouco restritiva, com excepção apenas do regime do despedimento individual com justa causa em que, de facto, o ordenamento jurídico português é um pouco mais apertado do que na generalidade dos outros países. Inúmeros são os argumentos e os aspectos que podem contribuir para a fundamentação desta afirmação. Diversos estudos colocam Portugal e a Coreia no ranking dos países menos regulados e com menos protecção social e laboral, decorrente da inefectividade prática das leis laborais e da quase total inoperância das instituições judiciais face a situações que obviamente, atendendo aos princípios fundamentais de um estado de direito dito democrático, deveriam, impor àquelas, os maiores níveis de rigor, proactividade, ética, eficácia e eficiência.

A reduzida restrição e protecção da legislação laboral portuguesa, resultantes da liberalizada e descontrolada flexibilidade laboral, responsável pela reprodução das mais diversas formas de precaridade laboral e social, facilmente se encontra presente no total incumprimento do Nº2 do Artigo 12º do actual Código do Trabalho relativamente à Presunção do Contrato de Trabalho que refere que “constitui contra ordenação muito grave imputável ao empregador a prestação de actividade, por forma aparentemente autónoma, em condições características do contrato de trabalho que possa causar prejuízo ao trabalhador ou ao estado”. Daqui decorre que o trabalhador/a, cujo vínculo, inquestionavelmente precário, e que consiste num contrato de prestação de serviços, ou generalizadamente denominado como recibos verdes vê-se privado não só da sua retribuição base mas também do valor indexado às indeminizações em caso de despedimento, vendo dificultado o seu acesso ao subsídio de desemprego ou a qualquer outro benefício ou forma de protecção social.


Outro exemplo elucidativo da excessiva flexibilidade do Ordenamento Jus Laboral Português incide na total alienação das instituições judiciais Portuguesas relativamente à violação do Artigo 13ª da Constituição da República Portuguesa relativamente ao Princípio da Igualdade, e do Número 1 do Artigo 31º do CT sobre a Igualdade de Condições de Trabalho que prevê que “os trabalhadores/as têm direito à igualdade de condições de trabalho, em particular quanto à retribuição, devendo os elementos que a determinam não conter qualquer discriminação fundada no sexo”.

Verifica-se contudo, no tecido empresarial, em particular nas grandes empresas comportamentos de descriminação e de diferenciação que têm como alvo as mulheres, em que estas, em igualdade de circunstâncias, ou seja a exercer os mesmos cargos, as mesmas funções, com o mesmo grau de responsabilidade e autonomia, auferem uma retribuição/compensação expressamente mais baixas do que aquelas que são atribuídas aos indivíduos do sexo masculino. Do ponto de vista legal é inefectiva a verificação, o controlo ou a fiscalização deste tipo de práticas que inequivocamente contribuem não só para a reprodução das desigualdades de género mas também para a reprodução da ainda tendente deficiência cultural fortemente predominante na nossa sociedade, responsável por contribuir para a legitimação prática da subordinação e da subserviência da mulher em relação ao homem.

Por outro lado, a ideia de rigidez acentuada, de inflexibilidade das leis laborais parece esvaziar-se por completo no que concerne à utilização/uso de meios tecnológicos de vigilância à distância nos locais de trabalho. Analisando uma vez mais o actual CT, verifica-se que o nº1 do Artigo 20º relativamente aos Meios de Vigilância à distância aparentemente proíbe o empregador de não poder “utilizar meios de vigilância à distância no local de trabalho, mediante o emprego de equipamento tecnológico, com a finalidade de controlar o desempenho profissional do trabalhador”. Na realidade, os meios de vigilância à distância constituem uma poderosíssima ferramenta de controlo, de total intrusão e invasão da privacidade dos trabalhadores/as, manifestada através da vigilância quase microscópica das acções, comportamentos, práticas, atitudes, gestos e movimentações dos mesmos, fornecendo ao empregador um manancial de informações ameaçadoras e intimidatórias com o fim de coagir, pressionar e intimidar os trabalhadores/as para a aceitação inelutável do modo de funcionamento, dos objectivos das normas e da cultura da empresa, sob pena de despedimento ou de transferência para outro local de trabalho.


Na realidade, a flexibilidade da legislação laboral, caracterizada essencialmente pelos baixos níveis de protecção e restrição contribuem não só para a anulação efectiva de um largo número de Direitos Fundamentais, Liberdades e Garantias mas também para o galopante desmantelamento do Estado de Direito.

domingo, 7 de abril de 2013

Primitive Reason

por Rodrigo Sá


Vinte anos de excelência musical, e ainda não foram declarados património nacional. Pelo menos isso, património nacional.

É pouco provável que muitas pessoas falem em Primitive Reason para além de Seven Fingered Friend, o êxito de 1993 que os lançou. Essas pessoas nunca terão ido a um concerto dos Primitive Reason. O meu primeiro concerto nem teve direito a esse momento, e mesmo assim estava o público em estado de graça perante tais profetas do reggae.

Do reggae? Pois, 1993 já lá vai há muito tempo, e os Primitive Reason não são só reggae.  É óbvio que a sua sonoridade vai para além deste género musical, incluindo sonoridades também de música mais marcada por África, bem como incursões violentas e súbitas no metal. Mais do que isso, os Primitive Reason não são só música. São uma oração. Seja lá quem for o deus e santos que professam, ou sejam lá quais forem as crenças de quem vai aos concertos dos Primitive Reason. Estar num concerto dos Primitive Reason é estar numa celebração divina de música.

O concerto de apresentação do novo álbum dos Primitive Reason no passado dia 30 de Abril, no Ritz Clube em Lisboa, foi isso mesmo: um ritual preparado para a comunhão de Seven Fingered Friend. Mas tal como a Eucaristia, em que o momento principal será a comunhão, o receber a hóstia do celebrante, houve momentos de oração antes, e houve depois acção de graças e benção final. Tudo preparado para que esse tal momento que acompanha os Primitive Reason há 20 anos acabe por ser apenas mais um grande momento da noite. E num momento de histeria colectiva, o público entregou-se com o corpo à versão ultra-rápida em ritmo ska de Red Red Wine, o original de Neil Diamond.
E tal como uma celebração litúrgica, o celebrante estava à porta a receber os fiéis. Isso mesmo, Guillermo de Llera à porta a cumprimentar quem ia entrando.

Esperem aí... Novo álbum? Os Primitive têm um novo álbum? Têm. Oficialmente a partir do dia 1 de Abril têm. E não é peta. Têm mesmo. Power to the People (a tradução livre para inglês de o povo é quem mais ordena?)

Para além da alusão e incentivo óbvios à indignação e revolta perante o panorama social, económico, cultural e tudo mais, Power to the People é também uma forma de referirem a forma como este álbum foi editado. Aquilo que se convencionou chamar de crowdfunding, se fosse há 20 anos, numa altura em que não havia Internet e sabíamos falar português, iríamos chamar a isto investimento comunitário.
Através de várias opções, que incluíam diversas ofertas, o público em geral foi convidado a financiar a gravação do álbum. Não foi mais do que uma forma de perguntar se queríamos ou não um novo álbum dos Primitive. Pelos vistos queríamos.

Quanto ao álbum, Power to the People é como que uma homenagem à excelência musical. É hipnótico. E bastam alguns toques de guitarra na faixa de abertura, Seeds Among the Rain, que logo Power to the People entranha-se. 

O ponto menos positivo deste álbum será a perigosa colagem aos Limp Bizkit no tema Stand. De resto, para além de canções de referência, os músicos que tocam neste álbum deveriam eles próprios serem louvados e tratados como património cultural de Portugal.

Guillermo de Llera, Abel Beja, Luís Pereira, Rui Travasso, Tino Dias, seja Deus louvado.
Power to the People, já!





quarta-feira, 3 de abril de 2013

Bullying (ou: A tua mãe é que é!)

por Lostio

O bullying é um fenómeno já com muitos anos, e cujo termo, creio eu, não é particularmente novo a ninguém. Consiste essencialmente num modo de abuso, seja por via física ou verbal, por parte de algumas pessoas de modo a rebaixar e possivelmente humilhar outras, uma prática mais comuns em grupos de crianças e adolescentes.

A questão-essencial em qualquer discussão sobre bullying está no seguinte: deverá o bullying ser visto como um problema social? Mais relevante ainda, dever-se-ão aplicar métodos que visem combater esta situação e qual a importância dada aos mesmos?

A meu ver, há aqui dois pontos de vista básicos. Há quem diga que o bullying é uma parte inevitável da dinâmica social dos jovens, que constrói carácter e ajuda as vítimas a amadurecer e aprender com a experiência. Efectivamente, quem sofre de bullying e recupera da situação, geralmente refere que beneficiou da experiência, que esta ensinou a ultrapassar dificuldades e a defender-se a si próprio.
Porém, como em tudo, existe um lado negro... Casos mais extremistas de bullying levam a notáveis traumas duradouros, estados de depressão e a tentativas de suicídio. Quando as vítimas chegam a este mais pesaroso limite, obriga-nos a repensar essa perspectiva clássica de que o bullying é simplesmente “crianças a ser crianças” e que estas têm de aprender a lidar com ele. Daí que o outro ponto de vista consiste no de que bullying é um problema relevante, uma conduta condenável que merece a devida atenção de modo a dar apoio às suas vítimas e evitar que estas sofram excessivamente por sua causa.


Um problema típico em qualquer discussão de bullying está em definir a fronteira que divide o aceitável do inaceitável. Há vários casos que são exageradamente interpretados como bullying. Crianças a inventarem alcunhas umas para as outras, a chamarem-se nomes ou a insultar as respectivas mães, tudo isso pode frequentemente ser visto como brincadeiras inocentes ou não, dependendo de muitos outros factores, tais como a persistência das mesmas, a vileza com que são realizadas, e a própria vulnerabilidade psicológica da vítima.
Outra questão importante neste tipo de discussões está em tentar dissecar a verdadeira origem do problema. Dependendo da situação específica e do contexto, pode-se apontar a origem do problema na vítima, marcada por fragilidade emocional e angústias psicológicas que a fazem reagir pior perante os cenários que poderiam ser interpretados como “brincadeiras inocentes” por outros, e muitas vezes se pode apontar a origem ao próprio bully, em situações onde este abusa rotineiramente a vítima, ou recorre a violência física e verbal verdadeiramente agressiva.

Hoje em dia, temos um novo meio que fornece uma arma poderosa no que toca a esta prática: a Internet. Com ela, o bullying conseguiu passar para as vias rápidas virtuais, tendo-se agora o problema acrescido de cyberbullying. Com a ausência de um contacto face-a-face, muitas pessoas revelam mais facilmente a sua faceta mais cruel, sem receio de represálias, porque estão envolvidas por detrás da máscara de anonimato. Relembre-se o famoso caso de Amanda Todd:


Por mais que analisemos os casos, apontemos culpas, e discutamos a validade dos casos-exemplo como válidos ou pessoas a “fazerem uma tempestade num copo de água”, algo que creio ser impossível de se negar é que, se existem vítimas verdadeiramente a sofrer por bullying, então devem ser ajudadas. Não é o nosso papel fazermo-nos de superiores e julgarmos os outros, categorizando-os indevidamente como “fracos”, mas sim fornecer ajuda quando ela é evidentemente precisa.

Qualquer escola deverá estar ciente do problema de bullying, e fazer todos os possíveis por o evitar sempre que se veja que está a afectar seriamente a vítima. Ninguém é alheio aos sentimentos de inadequação social e de solidão. Combater o bullying não irá subitamente fazê-los desaparecer, mas acredito piamente que é um acto que só piora a situação. Além de alimentar a estigmatização e a rejeição de pessoas de certos grupos sociais por características discriminadoras (orientação sexual, estatuto social...), é um acto que eu vejo como sendo completamente infrutífero, e que alguns estudos até sugerem ser responsável por afectar genes de stress e de saúde mental.